Os atentados em Paris na sexta-feira passada esquentaram uma discussão que já era recorrente na França sobre os imigrantes muçulmanos. O país é aquele que tem a maior população muçulmana na Europa, com cerca de cinco milhões, ou 7,5% de seus habitantes. Essas pessoas vivem, em sua maioria, à margem da sociedade, sendo alvo de xenofobia e discriminação religiosa, e, para Lilian Thuram, ex-jogador da seleção francesa nascido em um território ultramarino francês no Caribe, a saída é uma integração ainda maior, e não a separação dirigida pelo medo.

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Em entrevista à Rai Radio 2, Thuram questionou o discurso do presidente francês, que afirmou que os ataques colocaram a França em uma guerra. Para o ex-zagueiro, o país já estava em um conflito há muito tempo, desde que decidiram empreender ofensivas a territórios estrangeiros. “O François Hollande disse na sexta-feira que agora estamos em guerra após os ataques. Meu país está em guerra, sim, mas não a partir de agora. A França tem feito guerra fora de suas fronteiras há algum tempo”, condenou.

A seleção francesa campeã do mundo em 1998, em casa, se tornou um símbolo do futebol plural e multirracial do país. Thuram, que desde que se aposentou tem passado maior parte de seu tempo como ativista de movimentos sociais em defesa dos negros e de imigrantes, critica discursos preconceituosos e xenófobos da extrema-direita francesa e os aponta como fator importante para a disseminação de ódio de ambos os lados.

“Em 1998, nosso time era um exemplo de integração, mas isso foi há algum tempo, e, desde então, muita coisa mudou. Por exemplo, tem uma política (Marine Le Pen) que vai à televisão para dizer que a França é um país branco, de religião cristã. O que isso significa? Que os que não são brancos e cristãos não são franceses? Isso leva à violência. Quando você cria divisões em sua comunidade, sempre termina assim. Jovens, que os terroristas buscam para converter, ouvem esses discursos, prestam atenção e pensam: ‘Ah, entendi, eles acham que eu não sou sequer francês’”, explicou o zagueiro.

Um povo assustado por um ataque é mais facilmente levado a acreditar em uma ideia que traga maior sensação de segurança, ainda que às custas do bem-estar do outro. O que esse pensamento de curto prazo não leva em conta é o processo de alimentação do ódio que isso potencializa, levando a médio e longo prazos a uma animosidade ainda maior e à repetição de episódios violentos. Como figura pública defensora da parte marginalizada da sociedade francesa que é, Thuram deverá ser um importante porta-voz dessa mensagem nos próximos meses.


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