Cotidianamente, a vida nos dá provas de sua efemeridade. E ela soa tão rápida quanto frágil diante de uma notícia trágica como a morte de Thalles. O atacante, aos 24 anos, faleceu em um acidente de moto em São Gonçalo, que deixou outra pessoa morta e outras três feridas – entre estas, sua companheira. Prata da casa do Vasco, mas atualmente emprestado à Ponte Preta, o jogador ainda foi levado ao hospital com vida, mas não resistiu. Thalles tinha quatro filhos e uma longa trajetória no futebol pela frente.

Em seus tempos de Vasco, Thalles ofereceu a imagem de um jogador muito forte e de talento. Chegou à Colina quando tinha 11 anos, o que já representava bastante a quem torcia pelo clube desde pequeno. Não demorou a se destacar nas categorias de base, especialmente por sua capacidade física. Era uma fortaleza, de quem se imaginava uma grande predisposição para romper defesas e balançar as redes com seus chutes potentes. Logo virou o “Balothalles”. Pouco depois de completar 18 anos, destaque na conquista da Taça Belo Horizonte com o clube, realizaria a sua estreia na equipe principal cruzmaltina.

Thalles gerou boas expectativas no Vasco. Em suas primeiras partidas pela equipe principal, no segundo semestre de 2013, anotou um gol contra o Cruzeiro e contribuiu à vitória vascaína, mas não evitou o rebaixamento à Série B. Neste momento, chegou à seleção sub-20 (com a qual disputou o Sul-Americano de 2015, contribuindo para a classificação ao Mundial) e se tornou peça mais frequente no time principal. Parecia uma boa aposta ao futuro. Ganhou rodagem na segunda divisão e contribuiu para o acesso, ainda que tenha perdido um pouco de espaço em 2015 – entre críticas por seu excesso de peso e pelas faltas nos treinos, gerando rusgas com seus superiores. Seu melhor ano na Colina foi mesmo em 2016, quando quase foi dispensado, mas ficou e deu a impressão de que vingaria como um bom atacante.

Thalles contribuiu com gols à conquista do Campeonato Carioca e foi um dos protagonistas do time no acesso à Série B. Balançou as redes sete vezes, brilhando especialmente na reta final. E viveu uma tarde inesquecível no Maracanã em 26 de novembro. Aquela campanha dos cruzmaltinos foi turbulenta e o time precisou brigar para subir até o fim da competição. Em confronto de peso contra o Ceará, o jovem chamou a responsabilidade para si e anotou os dois gols no triunfo por 2 a 1, que garantiram o retorno à primeira divisão. Os cariocas chegaram a ser vaiados pelos 56 mil presentes, sem convencer, mas o prata da casa bateu no peito e resolveu. Será para sempre sua partida inesquecível.

O futuro de Thalles, porém, foi menos promissor do que se imaginava. O temperamento forte preponderava e os problemas disciplinares se tornaram mais frequentes. Quando esperava-se que poderia estourar em 2017, não ganhou tanta sequência assim. Em 2018, acabou negociado com o Albirex Niigata e teve seu espaço na equipe durante a segunda divisão da J-League. Disputou 34 partidas no campeonato, muitas delas saindo do banco, e anotou quatro gols.

No final de 2018, em entrevista ao Globo Esporte, Thalles falou sobre a forma como a experiência no Japão o fez repensar os rumos da carreira: “Não que lá não tenha a mesma coisa que aqui, mas a gente sente falta. Sou vascaíno. Por ser novo, fiz coisas que me prejudicaram. Lá, tive tempo para pensar. Se tivesse ido para lá antes, não teria feito metade das coisas que fiz quando estava no Vasco. Agora não dá para voltar atrás. O que passou, passou. Daqui para frente é um novo Thalles”. Já em 2019, o atacante seguiu à Ponte Preta por empréstimo e teve seus momentos durante o Campeonato Paulista, inclusive anotando um gol de pênalti no clássico contra o Guarani. Porém, não vinha sendo utilizado na Série B e via sua continuidade discutida. Até a tragédia ocorrida nesta madrugada.

A notícia da morte de Thalles gerou enorme comoção entre os clubes brasileiros. Diversas equipes se manifestaram nas redes sociais. A Ponte Preta publicou sua nota de condolências. No entanto, o texto mais significativo veio mesmo do Vasco. São os cruzmaltinos que conheceram o garoto durante a maior parte de sua vida, desde que chegou como um menino sonhador às categorias de base. São os cruzmaltinos que dimensionam o tamanho da perda. Foram 154 jogos e 36 gols pelo clube. É o prata da casa, o torcedor e o amigo querido que também se vai. Em nobre atitude, a agremiação prometeu auxiliar a família de Thalles neste momento difícil. Um gesto de empatia, a quem tanto alimentou as esperanças em São Januário.