Desta segunda até a abertura da Copa do Mundo, publicaremos a série ‘Copa Puntero’, do Puntero Izquierdo, na íntegra – que você já pôde conferir em links na Trivela. A série traz 11 perfis de personagens que passaram pela história dos Mundiais; no primeiro episódio, o fotógrafo eterno de Sarriá-82. Para conhecer o projeto e apoiá-lo, clique aqui.

por Leandro Iamin

Não há formalidades entre Paulo Roberto e João Baptista. Os dois têm encontro marcado com a eternidade dali dois dias, 17h15, na — atenção para o catalão fluente — Passatge de Forasté, onde fica o estádio de Sarriá, um dos dezoito que a Espanha escolheu para receber partidas da Copa do Mundo de 1982. O que custa planejar, de véspera, uma ou outra coisinha para a história ficar mais legal? João Baptista, o Scalco, sugere a Paulo Roberto, o Falcão, que, em caso de gol no jogo contra a Itália, comemore voltado para as tribunas de rádio e TV, onde estará o fotógrafo amigo. O camisa 15 da seleção, tal qual Eder Aleixo dias antes, aceita o pedido, conhecidos que são dos tempos de fazer miséria no Beira-Rio, Falcão de chuteiras, Scalco com uma Nikon F-3 no pescoço, geralmente brincando com o limite entre a melhor foto e o desperdício, brincadeira na qual sempre saía tão vitorioso quanto o invicto Internacional de 1979, primeiro ano daquele ciclo mundialista que se fecharia na Copa do Mundo, nas mãos de Telê, no sonho de quem via o Brasil começando a se abrir e se livrar de um regime militar em colapso.

JB Scalco sabia, na hora do clique, se a foto seria boa. Antecipava a revelação. Era de se imaginar, portanto, que se anteciparia também aos fatos, posto que foi o primeiro a cantar premonitoriamente a bola do gol de Falcão — mas o horário não foi combinado, e não podia ser mais adequado: aos 27 do segundo tempo, quase sete da noite em Barcelona, começo de fim de tarde naquela cidade, sol baixando posicionado em ângulo que, em Porto Alegre, fez de Scalco um consagrador dos segundos tempos, um homem cuja foto do jogo era também do pôr-do-sol, mas sem o sol, um domesticador de luzes, sujeito que, juram, nos domingos mais áridos fazia o astro-rei esperar um pouquinho suspenso no canto do céu até que sua foto saísse ao seu gosto. “Tem a foto? Posso ir?”, diria o sol, pedindo permissão como um abajur servil. Ao gol: Falcão marca, é o empate e a classificação de um Brasil que, no fim, perdeu e não se classificou porque não soube ser pragmático o suficiente (ou porque o futebol não presta), e, neste sentido, quem mais poderia ser o dono da foto mais icônica daquele time que não JB Scalco, também um incapaz de sucumbir ao pragmatismo em seu ofício?

Scalco trabalha contra si mesmo: a foto da comemoração do meia brasileiro, veias saltadas, euforia desesperadora, um alívio residual nos cantos dos olhos, é tão sincera e viva que não havia quem pudesse considerá-la fruto de um arranjo entre as partes — se é que Falcão lembrou mesmo, na hora do gol, de correr para onde correu. Falcão, atleta de elegância perene, estava, ali, transformado naquilo que JB Scalco se transformava quando em serviço: um bicho eufórico com o que tem em frente, leve como um animal em seu habitat natural, curioso e implacável, mas, num instante imediatamente posterior, de novo uma pessoa comum, João Baptista, 32 anos, doce com os amigos, grandão, simpático, vivo, contando, no jantar, antes da foto ser revelada, com o entusiasmo dos convictos, que clicou Falcão “com as veias dos braços e do pescoço saltadas”. Até encenou, à mesa, a foto que ganharia o mundo exatamente como descrita — nunca errava, o danado.

Três dias depois do desastre de Sarriá a Copa teria sua primeira semifinal, e Scalco, de folga, apareceu no Camp Nou, ainda Barcelona, para ver Itália x Polônia. Estava sem os cadarços dos tênis, tamanho era o inchaço em seus pés. Já não dava mais para atribuir o mês inteiro de desconfortos à lagosta comida em Portugal ainda no período de preparação da seleção para a Copa. A fuga era insustentável. O jornalista Alberto Helena Jr, com quem JB dividia quarto de hotel na Espanha, se queixou a Juca Kfouri: “O Scalco está tossindo a noite toda”. Um pouco mais de foco no olhar e ficava nítido que o fotógrafo número 1 de Placar estava debilitado, menos atento, sempre cansado, esquecendo os filmes no hotel em dia de jogo. De Barcelona para Madri, da semi para a final, do hotel para o hospital. Scalco procurou o ambulatório da sala de imprensa do estádio Santiago Bernabéu, que o indicou a ida imediata ao hospital de onde não sairia a tempo de trabalhar na partida decisiva entre Itália e Alemanha. Rodolfo Machado, fotógrafo do RJ, o substituiria, e coube a Juca o papel antipático, mas responsável, de garantir a palavra médica sobre o compreensível reflexo de rebeldia de JB. A suspeita era de febre amarela.

Kadão e Pedro Martinelli, amigos para além do mundo profissional, levaram ao hospital o jaleco de Scalco, para diverti-lo com fotos e alguma pequena farra, um motivo para rir. Kadão foi além, e levou a televisão de seu quarto de hotel para o amigo enfermo não perder aquela final. A estadia, porém, ainda duraria uma semana, custando a Juca Kfouri uma viagem adiada de férias pela Europa com a esposa — Juca visitou o amigo diariamente. O hospital concordou em liberá-lo para o Brasil, desde que em primeira classe, voando deitado e com algumas instruções para após o desembarque. Eram cuidados especiais para quem não tinha febre amarela, mas pericardite, uma inflamação na membrana que envolve o coração e diminui sua atividade, razão do cansaço e dos inchaços, doença que impediria Scalco de ver outra Copa do Mundo — ou, na verdade, de ver seus filhos, aguardados por quase uma década ao lado da esposa Liliana, crescerem — os malucos por futebol contam o tempo por Copas do Mundo, não por anos de vida, né?

Na volta ao Brasil, o filho Mariano, de quase dois anos, entediado na salinha especial por onde JB chegaria, saiu correndo contra o fluxo de pessoas tal qual o pai quando se posicionava na contramão da concorrência para fotografar um jogo. Entre pernas e corpos e bagagens rolantes maiores que ele, Mariano conseguiu identificar o pai, que igualmente desobedeceu a ordem médica e caminhava pela saída normal, não pela especial na qual um enfermo como ele deveria sair. Começava ali um período de casa, medicamentos e repouso, gradativamente substituídos por concessões indevidas que foram se tornando constantes, uma visita à redação, um passeio com amigos, uma ida ao estádio para torcer por seu clube do coração, a irresistível sensação de que está tudo bem, mesmo que não esteja: a pericardite chamou Scalco de volta, agora para o centro cirúrgico, mas ainda assim as coisas seriam nos seus termos. Mesmo com o melhor hospital de São Paulo à disposição, JB optou, irredutível, pelo médico e pelo hospital de sua confiança, mais modesto, menos equipado — e quem pode discutir com alguém tão confiante de seus métodos?

Confiança: JB Scalco foi figura crucial na solução do sequestro de um casal de uruguaios e suas duas crianças, ação de natureza clandestina da Operação Condor, que unia as ditaduras de Brasil e Uruguai, em 1978 — também ano de Copa. O homem e as duas crianças já estavam detidos, a caminho do Uruguai. A mulher estava na casa em que, ao lado do jornalista e amigo de fé Luiz Claudio Cunha, JB visitou graças a um telefonema anônimo recebido por Luiz. Scalco confiou na memória literalmente fotográfica para reconhecer um dos milicos que os receberam na casa. Tratava-se de Didi Pedalada, ex-Internacional, jogador que virou escrivão da polícia após encerrar carreira e estava ali em atividade suspeitíssima, imediatamente um fio solto na história que só quem trabalhava com futebol poderia notar, ponto de partida de um caso que ganhou o mundo e se espreguiçou por longos dois anos de apuração, investigação e desfecho feliz, ou ao menos sem mortes: o testemunho dos jornalistas desconcertou o propósito secreto da operação e deu à dupla o Prêmio Esso de jornalismo. Uma das mais fortes histórias do jornalismo nos anos de chumbo, sem arte, sem ângulo e sem governo.

As lentes de 400mm de JB Scalco, sentado com a bunda na grama de frente para o sol, equivalem talvez a um piloto que escolhe pilotar com pneus de chuva em uma pista seca — e vence! O latifúndio do Olímpico Monumental não cabia no estreito foco de uma 400mm, a não ser que você fosse um tipo diferente de profissional. O entardecer do Beira-Rio, com torcedores protegendo os olhos com as mãos, era dourado só dentro de sua máquina com filmes coloridos. Fazer alguma coisa diferente era urgente em algum lugar do imaginário popular brasileiro, exausto das duas décadas de voz embargada, e a seleção de 1982 foi, nesse sentido, aquilo que jogou, mas também aquilo que permitiu sonhar. Foi as fotos de uma final que não jogou, fotografadas por um JB Scalco que não estaria lá de toda forma. A seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior e tantos outros não poderia ter um fotógrafo mais adequado: de vida breve, como foi a vida daquela seleção, mas tão forte, ainda hoje, no que tinha de humano e no que construiu de estético, artístico, belo.

João Baptista Scalco Pereira morreu em 3 de maio de 1983, após problemas operatórios que o levaram a um angustiante período em estado de coma. Em seu editorial na Placar seguinte, Juca Kfouri definiu Scalco como alguém “que sempre tinha uma ideia melhor”. Por isso, um inquieto. Um perseguidor da perfeição estética, como suas fotos mostram, mas também da verdade, tal qual sua atuação no caso do sequestro dos uruguaios aponta. Dos que aqui ficaram e aqui estão, amigos, ex-chefes, viúva, a brutal saudade e os adjetivos ditos mexem com quem precisou ouvi-los e tem, afinal, a mesma idade do fotógrafo quando morreu. As veias saltadas de Falcão em Sarriá não duraram mais do que cinco ou seis segundos, e JB as tornou eternas. É parecida a missão daqueles que não sabem fotografar como um Scalco, mas entendem de saudade como ninguém desde 3 de maio de 1983.

O texto foi originalmente publicado no Puntero Izquierdo