O Forte Apache é onde Carlos Tevez realmente se sente à vontade. O bairro na periferia de Buenos Aires se tornou conhecido graças ao filho ilustre, que venceu as dificuldades para se tornar jogador de futebol e nunca renegou as origens. A relação do atacante com sua quebrada continua vivíssima, de maneira parecida ao que se nota entre Adriano e a Vila Cruzeiro. Mesmo idolatrado, o veterano volta às ruas, visita os velhos amigos e se aproxima das pessoas. Uma ligação que, em breve, virará série. Sob a supervisão de Carlitos, uma produção ficcional recontará os passos do jogador por lá, desde os tempos em que sofreu o acidente que gerou sua cicatriz à estreia no Boca Juniors.

No Forte Apache, Tevez deu uma entrevista bastante ampla ao Clarín. Falou sobre sua vida, sua visão política e sua relação com o futebol. Mesmo reserva no Boca Juniors, não nega o desejo de reconquistar a Copa Libertadores. Deixa expressa a sua visão de mundo durante a conversa, sem pretender qualquer unanimidade sobre suas opiniões. Abaixo, selecionamos os principais trechos, confira:

A relação com o futebol

“Não vejo nada de futebol na televisão. Não gosto de futebol. Se colocam um Barcelona e Real Madrid na TV, mas no outro canal há um torneio de golfe, vejo o golfe. Nunca fui fanático daqueles de ver partidas. Eu gosto é de jogar, de ter a bola nos pés”.

A Libertadores

“Não sei como está o River Plate, porque não vejo os jogos, mas está claro que é uma boa equipe. Respeito Gallardo, porque é um grande ídolo do River. Os campeonatos que ele ganhou falam todos por si. E não posso pensar na final, porque seria faltar com o respeito ao Palmeiras. Para ganhar a semifinal, temos que estar 100%, porque o jogo se definirá nos erros. Ganhar a Libertadores com o clube que você ama é a melhor sensação que um jogador pode ter”

O Forte Apache

“A realidade está aqui. No Forte Apache se vê como estão as pessoas. A vida me colocou em um lugar como ídolo e não posso estar longe das ruas. Mas perceba: não venho aqui apenas para mostrar aos meus filhos como seu pai vivia. Venho aqui porque sou feliz, como churrasco, tenho minha família, meus amigos. É meu lugar no mundo”

A infância

“Minha infância foi dura, mas éramos felizes. Estávamos sempre jogando bola no bairro. Ficávamos jogando até ficarmos famintos. Aqui se jogava por queijo e salame, tínhamos que ganhar porque se perdíamos não havia dinheiro para pagar a dívida. Cada partida era a vida. O bairro era violento, mas se podia jogar bola todo dia nas ruas. Vivia-se como em todos os bairros marginalizados: circundado de drogas, armas e roubos”.

A relação com a política

“Não me interesso por política e não sei absolutamente nada. Na casa dos meus pais, não se falava de política e, agora, tampouco se fala na minha. Eu via meu velho que ia trabalhar às seis da manhã e voltava às sete da noite. Trabalhava para ter um prato de comida. Esse é o exemplo que se precisa dar às crianças. E educação”.

Sua visão sobre a Argentina

“Penso que devemos seguir adiante. Não devemos colocar um pau no meio da roda, impedir o que está acontecendo. Podemos ficar um dia inteiro falando de política e não entraremos em acordo, enquanto há gente que está morrendo de fome. Aí nos equivocamos, os argentinos. Perdemos tempo em discutir e não fazemos nada pelas crianças que morrem de fome. Como ídolo, não posso abraçar bandeiras políticas. Posso ser amigo de Macri, de Cristina, de Scioli, de qualquer um. Não sou de ninguém. Se me chamam para ajudar, eu estou. Isso é o que tenho que fazer, não comentar que meu país está mal. Se já sabemos que está mal o país, façamos algo”.