Ao encerrar o ano de 2019 mais uma vez sem grande participação na equipe de Gustavo Alfaro, Carlos Tevez, perto de completar 36 anos, dificilmente imaginava que pouco mais de dois meses depois, estaria celebrando o título da Superliga Argentina 2019/20 como o grande nome da conquista. Ainda assim, o tempo passou, e foi exatamente a este cenário que chegamos na noite deste sábado (7), com mais um tropeço do River Plate e a vitória por 1 a 0 do Boca sobre o Gimnasia La Plata, de Diego Maradona.

Após manter o Boca a uma distância de três pontos durante quatro das últimas seis rodadas, o River Plate empatou com o Defensa y Justicia na penúltima rodada, viu o Boca Juniors vencer mais uma vez e deixou o campeonato aberto para a última rodada. Aos Xeneizes, bastavam um empate dos Millonarios e uma vitória em casa, na Bombonera, contra o Gimnasia, de Maradona.

Dieguito foi também um dos protagonistas do confronto neste sábado. Saudado pela torcida com gritos, faixas e bandeirões, cumprimentado pelos jogadores do Boca, com direito a reedição do famoso selinho em Tevez, provocador ao imitar uma galinha na volta para o segundo tempo, para toda a torcida ver. Mas, de jeito algum, entregue. Ofereceu ao clube do qual é ídolo um desafio formidável, derrubado apenas por outra figura histórica da equipe.

Depois de muito persistir, de todas as maneiras, por baixo, por cima, explorando as pontas ou o corredor central, foi aos 27 minutos do segundo tempo que veio o gol da vitória dos Xeneizes. Da intermediária, Tevez arriscou a finalização forte e, contando com falha do goleiro Jorge Broun, fez o 1 a 0.

Paralelamente, o 1 a 1 entre Atlético Tucumán e River Plate do primeiro tempo persistiu até o fim do jogo, decretando o título histórico do Boca, que terminou um ponto à frente do grande rival, chegando a 34 títulos argentinos. Diminui, assim, ainda mais a distância para o rival, maior vencedor nacional, com 36 conquistas.

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A redenção de Tevez

Quatro anos e meio atrás, Tevez surpreendeu o mundo ao deixar a Juventus e a Europa, onde ainda tinha amplo mercado, para retornar ao Boca Juniors. Em sua segunda passagem, teve o sucesso que se esperaria de alguém que vinha em grande nível no Velho Continente, mas decidiu dar tchau ao clube em 2017 para ir à China. Por lá, pouco jogou e, um ano mais tarde, voltou à Argentina. Manchou sua imagem ao desdenhar do Shanghai Shenhua, seu ex-clube na Ásia, onde disse ter passado “férias”.

A terceira passagem pelo Boca, para piorar, estava longe de ter o mesmo brilho das duas anteriores. Não era titular do técnico Gustavo Alfaro, e com razão. Parecia já ter deixado o seu melhor no passado. Mas os Xeneizes recorreram justamente ao passado para ressuscitar seu ídolo.

Na transição de 2019 para 2020, antes da reta final da Superliga Argentina, uma nova diretoria, com Juan Román Riquelme, assumiu o clube. Gustavo Alfaro deixou o comando da equipe, e Miguel Ángel Russo, último treinador campeão da Libertadores pelo Boca, em 2007, foi contratado para buscar o difícil, mas possível, título argentino. E foram essas duas figuras que nos ajudaram a chegar ao Carlitos de 2020.

Com Russo, Tevez reencontrou um nível altíssimo e conduziu tecnicamente o Boca à conquista, ao lado de vários outros jogadores que cresceram com o novo treinador, como Villa e Salvio. Foi o veterano, no entanto, que brilhou mais forte. Não só pelo gol do título neste sábado, mas também pelos outros cinco e as duas assistências que deu nos seis jogos de Superliga disputados de janeiro até este sábado.

Para além do crescimento individual impulsionado pelo coletivo, Tevez potencializou seu futebol com a ajuda de Riquelme, com quem veio mantendo contato próximo desde que o ex-jogador se tornou vice-presidente do clube. A influência de Román pode ser vista no posicionamento e movimentos que Tevez assumiu nesta equipe de Russo, flutuando pela intermediária e orquestrando, mas também finalizando, as jogadas ofensivas dos Xeneizes.

A contribuição de Riquelme não parou nas conversas técnicas, estando também na confiança que o ídolo antigo demonstrou ter no herói do épico deste sábado. Após o fim do jogo, Tevez exaltou o carinho de Román e reconheceu: “A verdade é que ele me ajudou muito a encontrar esse Carlitos, e aqui está a recompensa”.

À vencedora carreira de Tevez, que inclui participações em Copas do Mundo, título de Champions League e conquistas nacionais por onde passou, soma-se agora um capítulo histórico do qual foi protagonista direto, mesmo na reta final de sua carreira. Haja fôlego.