Durante muito tempo, Carlos Tevez parecia perseguido por uma maldição na Liga dos Campeões. Por mais que jogasse bem nas ligas nacionais, o craque permaneceu cinco anos e cinco meses sem marcar gols pelo torneio. Neste intervalo, protagonizou a célebre briga com Roberto Mancini no banco do Manchester City e sequer passou da fase de grupos em três edições. O jogador que arrebentava na Libertadores durante os tempos de Boca Juniors (como nos inesquecíveis jogos contra Santos e River Plate) não tinha a mesma sorte na principal competição europeia. A desgraça se estendeu por 18 partidas, finalmente se encerrando no último mês de setembro, contra o Malmö. Para enterrar o passado de vez. Afinal, ninguém foi mais decisivo para a classificação às quartas de final do que Carlitos. E ninguém credencia mais a Juve nos mata-matas do que ele.

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Nos dois duelos contra o Borussia Dortmund, Tevez somou três gols e uma assistência, responsável direto por 80% dos tentos da Velha Senhora. Nesta quarta, sobretudo, o craque destoou. Em uma equipe que se fechou na defesa, o camisa 10 se tornou a válvula de escape. Praticamente sozinho, acabou com a defesa dos alemães. Anotou um lindo gol para abrir o placar, serviu Morata no segundo e matou no terceiro com um contra-ataque. Poderia até ter ajudado mais. Logo no início do segundo tempo, o argentino chamou a marcação de quatro adversários e se livrou de todos eles. Deixou Morata na cara do gol, mas o espanhol não aproveitou a excelente jogada.

Falar do talento de Tevez é lugar comum, assim como da excelente fase que o argentino vive desde que chegou a Turim. Nesta temporada, o atacante soma 23 gols (seis só na LC) em 35 partidas pelo clube, além de oito assistências. Mas, acima do momento espetacular que vive, o camisa 10 cresce ainda mais pela proposta de jogo da Juventus, uma equipe que se defende muito bem e que espera as oportunidades para matar o jogo – pelo placar mínimo, que seja. Ao lado de Paul Pogba, Carlitos é quem mais chama essa responsabilidade. Em um time com tantos meio-campistas de bom passe, o argentino acaba sendo o melhor destinatário possível.

Não bastasse isso, Tevez é o típico jogador que gosta dos grandes jogos. Basta ver a lista de adversários de seus últimos 10 tentos: Dortmund, Roma, Milan, Inter e Napoli, além do Verona. É aquele que cresce nas decisões e não teme a responsabilidade. Como enfatizou nesta quarta, ao ignorar qualquer pressão que as arquibancadas do Signal Iduna Park pudessem impor. Se os torcedores do Dortmund não pararam para aplaudir o atacante quando ele foi substituído (o que, convenhamos, era plausível), a forma como o artilheiro ignorou todo o barulho feito pela Muralha Amarela é igualmente emblemática. Nada surpreendente para quem já imitou galinha no Monumental de Núñez abarrotado.

Se a Juventus quiser mesmo buscar o seu terceiro título continental, depende demais do que a sua defesa poderá fazer contra os melhores ataques da Europa. Mas também de alguém que seja letal nas chances que o time criar, como Tevez tem sido. Cristiano Ronaldo e Messi estão à frente do juventino na lista de artilheiros. Mas nem os dois craques conseguem ser tão precisos do que o garoto crescido no Forte Apache: 28% de seus chutes na Champions acabam nas redes. Na Alemanha, o seu aproveitamento foi de 100%. Lampejos de craque, Pirlo, Pogba ou Vidal também podem ter. Mas nenhum deles está tão próximo do gol quanto o argentino.

E pensar que muita gente questionou a validade de dar a camisa 10 da Juventus, de tantas lendas, para Tevez assim que ele chegou em Turim. A resposta vem em campo, com um atacante digníssimo de assumir a herança de Del Piero, mesmo com características diferentes. Também um craque, capaz de resgatar o orgulho que o clube havia perdido na Liga dos Campeões. Para, quem sabe, ambos reviverem 2003: o último ano dos bianconeri na final europeia, assim como o do título estrelado por Tevez na Libertadores.