O gramado do Santiago Bernabéu é um tapete. O melhor terreno para que Real Madrid e Juventus disputem uma vaga na decisão da Champions. Mas já imaginou Pirlo dando seus lançamentos no terrão? Bale levantando poeira com suas arrancadas? Cristiano Ronaldo e Pogba deixando a marca de seus dribles na terra batida? Em outros tempos de futebol, aconteceu. E justamente em competições continentais, a Recopa Europeia e a Copa da Uefa, com os próprios madridistas e juventinos.

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Os episódios peculiares são antigos, acontecidos em um intervalo de poucos meses entre 1970 e 1971. Em uma época na qual a Juve estava distante da briga pelo título no Campeonato Italiano, enquanto o Real também passava por um momento de transição, tiveram que sujeitar a condições dignas de Copa Kaiser (ou até piores) nas visitas a Malta. O Real Madrid foi o primeiro a se aventurar, pegando o Hibernians nos 16-avos de final da Recopa de 1970/71. Um ano depois, a Juventus enfrentou o terreno nada propício, contra o pequenino Marsa, pelos 32-avos de final da Copa da Uefa de 1971/72.

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O palco em comum para espanhóis e italianos era o Estádio do Império, na cidade de Gzira, próxima à capital Valletta. Inaugurado em 1922 pelos britânicos, o estádio permaneceu como o principal da ilha até a década de 1980. Tinha capacidade para 30 mil torcedores e sediou a primeira partida internacional da seleção maltesa. O que não significava que possuía as condições perfeitas para o futebol, longe disso. O chão era de terra batida, com a cal marcada ali mesmo. Na beira do “gramado”, apenas areia, e os jogadores sequer tinham bancos de reserva para sentar. E isso sem contar o sol forte no local, à beira do mar. Ou os jogos aconteciam lá ou os times de Malta sequer poderiam atuar no país. Ao menos tinham alguma dificuldade para impor aos gigantes europeus que os visitavam.

O Real Madrid teve problemas no terrão de Gzira. O time estrelado pelos veteranos Gento e Amancio não saiu do 0 a 0 contra o Hibernians, mas goleou por 5 a 0 no Bernabéu e avançou na Recopa até chegar à decisão, na qual acabou derrotado pelo Chelsea. Já a Juventus fez o que se esperava dela: goleou sem piedade o Marsa, na única participação continental da história do clube. Apesar das dificuldades no primeiro tempo, o time desandou na volta do intervalo. Haller, Causio e Fabio Capello balançaram as redes no massacre por 6 a 0, sucedido pelos 5 a 0 em Turim. Só que a Velha Senhora não passou das quartas de final, eliminados pelo Wolverhampton, que seria vice-campeão.

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E o pior: jogar em Gzira não é exclusividade no currículo de Real Madrid e Juventus. Entre os grandes clubes que passaram pelo estádio figuram Internazionale, Barcelona, Atlético de Madrid, Borussia Dortmund, Sporting, Celtic, Estrela Vermelha, entre outros. Alguns deles, pela própria Copa dos Campeões. Como o Manchester United, que iniciou por lá a campanha de seu primeiro título, em 1967/68. Com George Best, Bobby Charlton e Nobby Stiles em campo, os Red Devils de Matt Busby empataram por 0 a 0 com o Hibernians, mas avançaram graças aos 4 a 0 em Old Trafford na partida de ida.

O Estádio do Império está desativado desde 1981, ano em que recebeu jogos continentais pela última vez. Acabou substituído pelo Estádio Nacional Ta’ Qali, que se tornou o principal estádio do país, recebendo as partidas da seleção. E, obviamente, com as condições mínimas que se espera, como o campo de grama. Já o velho estádio em Gzira continua em pé, mas completamente abandonado. Curiosamente, hoje a vegetação cresce no antigo campo de terra que recebeu tantos esquadrões do passado. Um palco do passado que, nos padrões atuais, não passaria pelo crivo da organização da Uefa.