Num Flamengo repleto de gente capaz de decidir, nem sempre Everton Ribeiro recebe os merecidos olhares cuidadosos. Não deveria ser assim. O meia não causa impacto com gols tão frequentes ou arrancadas tão fulminantes. No entanto, invariavelmente, os melhores momentos de Everton em 2019 também estão entre os melhores momentos do Fla em 2019. Quando o capitão chamou o jogo para si e resolveu colocar a bola debaixo do braço (ou melhor, colada ao seu pé esquerdo), a equipe de Jorge Jesus atingiu altos níveis de inspiração.

Everton Ribeiro é o cara que ajuda a clarear o jogo do Flamengo. Volta do ataque à defesa para facilitar a ligação, com sua enorme qualidade para conduzir a bola. O giro de costas para a marcação, com a pelota adormecida em sua canhota, costuma criar clarões nas linhas adversárias. Então, o Fla tantas vezes arreganha os dentes e parte para cima. Foi nessa tarefa, mais “braçal”, mas não menos carecida de talento, que o capitão deu condições a importantes vitórias rubro-negras. Contra o Grêmio aconteceu isso, durante os 5 a 0. No melhor momento contra o River Plate, também. E em outras noites inesquecíveis de futebol fulminante.

Mas Everton Ribeiro pode ser mais do que isso. Everton Ribeiro é mais do que isso. E o seu toque mais refinado também chega à frente, para render o acabamento que pede o jogo ofensivo praticado pelo Flamengo. Suas contribuições com gols ou assistências são menos numerosas que a de outros companheiros, e nem por isso menos importantes. De novo, o talento do capitão auxilia a preparar caminhos. Vem dele, muitas vezes, a assistência antes da assistência e o drible antes do golaço. A regularidade do camisa 7 é essencial como um termômetro a este Fla, ao lado de Gérson.

E, diferentemente de seus companheiros, Everton Ribeiro não encarará uma experiência tão nova assim na semifinal do Mundial de Clubes. A passagem pelo futebol árabe pode ter custado um bocado de visibilidade ao meia de 2015 a 2017, após seu sucesso no Cruzeiro. Em contrapartida, reproduz um universo que não é exatamente inédito ao capitão. Ele não só brilhou nos Emirados Árabes Unidos e sonhou com a conquista da Champions Asiática, como também encarou o próprio Al-Hilal em uma semifinal internacional.

Everton Ribeiro marcou seu nome no Al-Ahli de Dubai. O meia atravessou fases tão fantásticas no clube emiratense quanto no Cruzeiro ou no Flamengo. A temporada 2015/16 guardou a sua melhor forma. Pelo Campeonato Emiratense, o brasileiro se tornou protagonista na campanha que rendeu o título nacional aos alvirrubros, com suas melhores médias de gols e assistências da carreira. O maestro conduziu os Cavaleiros Vermelhos à taça com nove gols e dez assistências em 26 partidas. Era referência de um time com outras boas peças ofensivas, como o emiratense Ahmed Khalil, o senegalês Moussa Sow e o brasileiro Lima.

Todavia, em metade daquela mesma temporada, o Al-Ahli fez uma campanha histórica na Liga dos Campeões da Ásia de 2015. De novo, Everton Ribeiro teve papel central para orquestrá-la. Os emiratenses chegaram à decisão continental, derrotados por um gol solitário de Elkeson nos dois jogos contra o Guangzhou Evergrande. Antes disso, os Cavaleiros Vermelhos eliminaram equipes de peso no continente, como o Al-Ain. Já a ironia do destino se reserva à semifinal, na qual a classificação aconteceu contra o Al-Hilal.

Eram outros tempos em Riad, mas o Al-Hilal já formava a base que criou casca com os traumas continentais e daria mais consistência ao time atual. O brasileiro Carlos Eduardo figurava entre as estrelas ofensivas, enquanto alguns locais também estavam presentes – a exemplo do meia Salem Al-Dawsari, do lateral Yasir Al-Shahrani, do atacante Mohammad Al-Shalhoub e do meio-campista Salman Al-Faraj, este cortado do Mundial por lesão. Contudo, em um período mais restrito aos jogadores estrangeiros no futebol saudita, a outra aposta de fora era o atacante Aílton, ex-Atlético Mineiro, de sucesso principalmente em ligas escandinavas. Não tinham a badalação de um Bafétimbi Gomis ou de um Sebastian Giovinco.

Durante o primeiro encontro, sob a pressão de 53 mil torcedores no Estádio King Fahd, o Al-Ahli arranjou um bom resultado. Empatou por 1 a 1, em noite na qual Lima abriu o placar e Aílton buscou a igualdade ao Al-Hilal. Já a classificação seria conquistada em Dubai, diante de 10 mil espectadores. Os emiratenses venceram por 3 a 2, numa partida em que abriram dois gols de vantagem no primeiro tempo, cederam o empate com menos de 20 minutos da etapa complementar e só garantiram a vaga na final com um tento agônico aos 50 do segundo tempo.

Everton Ribeiro tinha até mesmo uma faixa imensa com seu nome nas arquibancadas durante o jogo. O camisa 8 marcou o segundo gol do Al-Ahli, com um toquezinho de cobertura sobre o goleiro, e cobrou a falta que rendeu o terceiro tento, quando o sul-coreano Kwon Kyung-won aproveitou a sobra da bola levantada na área. Carlos Eduardo também havia deixado sua marca, com o gol de empate do Al-Hilal, numa bomba de fora da área. Ainda assim, seria Everton a participar da comemoração ensandecida pela classificação milagrosa.

Após a derrota na final para o Guangzhou Evergrande, o Al-Ahli de Dubai retornou à Champions Asiática apenas em 2017. Everton Ribeiro disputou oito partidas naquela campanha, com três gols e duas assistências. Os alvirrubros superaram a fase de grupos em chave que também contava com o Esteghlal, mas sucumbiram nas oitavas ao homônimo Al-Ahli de Jeddah. O meia até anotou o gol no empate por 1 a 1 na Arábia Saudita, mas seu time acabou eliminado com a derrota por 3 a 1 nos Emirados Árabes. Durante o semestre seguinte, Everton assinou com o Flamengo. Curiosamente, o Al-Ahli de Jeddah também tentaria sua contratação.

Os dois anos e meio que Everton Ribeiro passou no Oriente Médio podem ser importantes ao Flamengo. O capitão conhece melhor o estilo de jogo das equipes da região e o próprio ambiente que os rubro-negros enfrentarão no Catar. Obviamente, o Al-Hilal mudou bastante em quase quatro anos e a experiência recente de Jorge Jesus possui mais validade para encontrar os atalhos dentro de campo. De qualquer maneira, a segurança e a tranquilidade do camisa 7 tendem a ser de enorme valia ao Fla.

Everton Ribeiro é uma liderança importante ao Flamengo. Não é o cara que chama atenção do time no grito, um papel desempenhado por Diego Alves, mas que impõe seu respeito na bola e na vivência. O meia passou por todo o processo de construção da atual equipe rubro-negra e possui um currículo vitorioso que o respalda. Nesta terça-feira, num desafio capcioso ao Fla, o meia será igualmente importante para chamar a responsabilidade. No clima quente de Doha e numa partida que não permite deslizes, a precisão do termômetro da equipe será essencial para fazer o motor funcionar.