Quarenta e três dos 46 países aptos a entrar em campo na briga por uma vaga na Copa do Mundo 2014 estavam inscritos nas Eliminatórias – apenas Brunei, suspenso na época do sorteio, Guam e Butão, que não quiseram participar, não estiveram presentes. Desde junho de 2011, as seleções asiáticas suaram a camisa, movimentaram torcedores, balançaram as redes, lamentaram falhas grotescas de alguns jogadores, seguiram em frente ou foram eliminadas.

Primeiro foi a vez das mais fracas tentarem a sorte, como Timor Leste, cujo futebol conta com grande ajuda dos brasileiros, que perdeu duas vezes para Nepal (7 a 1 no agregado), e Macau, que conseguiu ser superado por 13 a 1 pelo inexpressivo Vietnã, em confrontos de mata-mata válidos pela fase preliminar.

Na segunda fase, também em mata-mata, a maioria das seleções calçou as chuteiras, exceto as que jogaram a Copa do Mundo anterior (Japão, Austrália, Coreia do Sul, Coreia do Norte) e o perdedor da repescagem (Bahrein), que entraram apenas na etapa seguinte. Todos os favoritos passaram por seus antagonistas, dentre eles a Arábia Saudita, que há algum tempo não vive grandes dias, eliminando Hong Kong. A partir de setembro de 2011, os 20 países restantes, menos da metade dos que começaram as eliminatórias, foram divididos em cinco chaves de quatro times. E aí começaram as surpresas.

No Grupo A, a China, que não é lá essas coisas, numa situação normal superaria Jordânia e Iraque. Caiu fora mais cedo. Na chave B, o Kuwait era frequentador assíduo da fase final, mas permitiu ao Líbano avançar adiante. No Grupo D, a outrora poderosa Arábia Saudita viu Omã alcançar a fase final, enquanto na chave E, o Bahrein, perdedor da repescagem contra a Nova Zelândia em 2010, ficou para trás, abrindo espaço para Irã e Catar.

Surpresas?

Assim, foram conhecidas as dez seleções candidatas a quatro vagas diretas e mais uma à repescagem contra o representante da América do Sul. Na reta final das eliminatórias asiáticas, a situação das chaves é a seguinte:

No Grupo A, a favorita Coreia do Sul vem enfrentando dificuldades. A equipe suou muito para empatar contra o Líbano (1 a 1) na última terça – e teve muito azar e catimba do adversário, que protelou o jogo enquanto pôde; foram nove minutos de acréscimos. O empate deixou os sul-coreanos na liderança, com 11 pontos, vantagem no saldo de gols para o Uzbequistão e um ponto à frente do Irã. Porém, nas duas próximas partidas, a Coreia do Sul enfrentará ambos, dentro de casa. Não poderão haver falhas, apesar de a seleção já estar garantida na repescagem, mas é claro que o objetivo é a vaga direta.

Jogando fora de casa, o Irã despachou o Catar (1 a 0), cuja característica da liga nacional deixa evidente que o sonho do mundial é distante, abrindo três pontos de vantagem para o oponente. Com mais dois jogos a disputar – um deles diante do eliminado Líbano, em casa –, contra um dos catarianos, só um desastre total resultaria na perda da vaga por parte do Irã.

A situação do Uzbequistão também é interessante: joga fora de casa com a Coreia do Sul, mas recebe o Catar em seus domínios, uma vitória em termos normais. Já os libaneses fizeram muito até aqui e não tinham mesmo condições de pleitear uma vaga, ainda mais sem Roda Antar, o craque do time, aposentado em 2013.

No Grupo B, os japoneses não tiveram nenhuma dificuldade diante de Omã, Austrália, Jordânia e Iraque e confirmaram a vaga na última terça-feira, com um empate diante da Austrália (1 a 1) – resta um jogo por fazer, o país tem 14 pontos, cinco a mais que Omã. Aliás, num confronto direto, omanis e iraquianos se enfrentaram em Mascate, capital de Omã, conhecida pelo forte calor, uma das armas da seleção da casa para alcançar o mundial.

E não é que vem dando certo? Num jogo fraco tecnicamente, um escanteio resultou no único gol da partida, para delírio da torcida omani – e desespero da do Iraque –, que com cinco pontos praticamente deu adeus inclusive à repescagem, faltando dois jogos por realizar.

Assim, a briga no Grupo B ficará entre Omã, Austrália e Jordânia. Os primeiros lideram com nove pontos e têm sete partidas jogadas, enquanto os outros dois têm sete pontos em seis rodadas. A Jordânia terá duas decisões, contra Austrália (11 de junho, fora) e Omã (18 de junho, em casa). É verdade que os australianos gozam de melhor situação, ainda mais porque vão encarar ambos em seus domínios.

Será normal se a Austrália ficar com a segunda vaga direta, mas Omã e Jordânia ainda poderão sonhar com o Brasil, via repescagem asiática – o terceiro do Grupo A pega o terceiro da chave B, para aí sim se definir o representante asiático no embate contra o da América do Sul.

Copa de 2002

A última vez que uma seleção asiática debutou em copas do mundo foi na Coreia do Sul/Japão, em 2002. Na ocasião, a China não tomou conhecimento dos adversários e carimbou o passaporte. A seleção iniciou a campanha na segunda fase, ao lado de Indonésia, Ilhas Maldivas e Camboja, vencendo os seis jogos, além de 25 gols marcados e apenas três contra.

Já na fase final, o time entrou em campo oito vezes, perdeu apenas uma e superou Emirados Árabes, Uzbequistão, Catar e Omã, somando 19 pontos (6 vitórias, 1 empate, 1 derrota), oito a mais que os emiratenses. Na Copa do Mundo, os comandados do sérvio Bora Milutinovic participaram do Grupo C, sendo derrotados por Costa Rica, Brasil e Turquia, sem marcar nenhum gol. Um parêntese: a China vem evoluindo, principalmente com um projeto de liga nacional forte, mas ainda é muito cedo para cravar que o país conseguirá sair vitorioso dessa mudança.

Hora da verdade

Para não ficar em cima do muro, este jornalista que vos escreve definirá sua aposta. Das seis seleções que ainda sonham com a Copa do Mundo 2014 (Japão, classificado, e Líbano, eliminado, não contam), Uzbequistão, Catar, Omã e Jordânia nunca estiveram numa fase final de mundial – o Iraque jogou em 1986.

No Grupo A, é certo que o Uzbequistão alcançará no mínimo a repescagem, o que o torna adversário do terceiro colocado do Grupo B, por uma vaga no confronto contra uma seleção sul americana. Na chave B, Omã e Jordânia terão embate direto pelo terceiro lugar na última rodada (18 de junho).

Acho que os omanis levam – é também uma torcida –, o que definirá a repescagem asiática. Entre Uzbequistão e Jordânia, o pior cenário possível, os uzbeques devem se dar melhor. Portanto, pela classificação das eliminatórias sul americanas, é mais provável que o Uzbequistão (caso este não se classifique diretamente, claro) enfrente um dos três adversários a seguir: Chile, Venezuela ou Uruguai. A única chance de uma seleção asiática repetir o feito da China em 2002 é os venezuelanos surpreenderem… Caso contrário, a possibilidade de um debutante jogar o Mundial vai ficar para 2018!

Curtas

– A artilharia das eliminatórias asiáticas é a seguinte. Com sete gols, estão empatados Younnis Mahmoud (Iraque), Shinji Okazaki (Japão), Hassan Abdel Fatah (Jordânia) e Le Cong Vinh (Vietnã), este último eliminado na segunda fase. Com seis, aparecem Ahmad Hayel (Jordânia) e Park Chu-Young (Coreia do Sul).

– Oito gols contra ocorreram até agora, sendo Coreia do Sul e Kuwait os mais privilegiados, com dois cada. Os Emirados Árabes foram os que mais fizeram lambanças, também em duas oportunidades.