A Premier League 2013/14 começou de maneira atípica. Não propriamente pelos resultados na rodada inicial, pelo contrário. A novidade foi criada por uma situação que se configurou na pré-temporada. Cinco clubes anunciaram a contratação de novos treinadores. Três deles, os principais candidatos ao título. Outro, almejando uma vaga na Champions. Considerando que mais dois postulantes ao Top Four vivem a consolidação de seus comandantes e o último que pode ser considerado no grupo vê seu manager cada vez mais queimado, dá para cravar: nunca os treinadores tiveram um papel tão preponderante para definir os rumos da PL.

A rodada inicial foi simbólica para confirmar as previsões iniciais. David Moyes, Manuel Pellegrini e José Mourinho conquistaram vitórias fáceis e reafirmaram o favoritismo. Brendan Rodgers e André Villas-Boas demonstraram a consolidação de suas equipes e, apesar de apertados, tiveram triunfos importantes. Roberto Martínez derrapou e precisa correr atrás do tempo para provar que seu time pode subir de patamar. E Arsène Wenger, com a corda no pescoço, viu as interrogações sobre o seu futuro e o de seus comandados só aumentarem.

As 37 rodadas restantes do Campeonato Inglês dão margem para mudanças drásticas nessas situações. E por isso mesmo os técnicos são tão importantes. Apesar da supremacia do Manchester United na última temporada, Manchester City e Chelsea estão equiparados nas chances de título justamente pelas trocas na direção e pela primeira implicação direta dessa mudança: a atividade no mercado de transferências, onde os Red Devils estão deixando a desejar.

O mesmo acontece no degrau abaixo, que reúne Arsenal, Tottenham, Liverpool, Everton e quem mais quiser se candidatar às competições continentais. Antes do pontapé inicial, o Swansea encabeçava esse grupo de ascendentes, mas o Aston Villa foi quem deixou a melhor impressão nesta primeira rodada – curiosamente, também dois clubes que vivem o segundo ano de trabalho de seus treinadores. Ao contrário do histórico da Premier League, de técnicos perenes, a agora é a vez dos recém-chegados se consagrarem.

Os números da renovação
Ferguson e Moyes: a lenda e seu substituto no United
Ferguson e Moyes: a lenda e seu substituto no United

Somando o tempo de comando dos 20 técnicos da Premier League, a média de cada um em seus clubes é de um ano e dez meses. Um número relativamente baixo, considerando que os 16 anos de Arsène Wenger no Arsenal ajudam a elevá-lo significativamente. Além do francês, apenas Alan Pardew, Sam Allardyce, Martin Jol e Ian Holloway já completaram dois anos em suas equipes – e nenhum destes quatro atingiu o terceiro.

Obviamente, a aposentadoria de Sir Alex Ferguson foi imprescindível para que essa quantidade despencasse. No entanto, segundo a Associação dos Técnicos da Liga Inglesa (LMA), esta é a menor média de permanência no cargo na Premier League nas últimas 14 temporadas, superada apenas por 1999/00.

Em relação às trocas, a cisão nem é tão grande assim. Na temporada passada, por exemplo, seis novos treinadores iniciaram a temporada, um a mais do que na atual. A questão está mais no processo acumulado. Nos últimos três anos, apenas o Arsenal não contratou um novo comandante. São 33 trocas no triênio, média de 1,17 entre os 28 clubes que passaram pela elite durante o período. Comparando com o Brasil, pode parecer pouco, mas tamanha instabilidade é significativa na Inglaterra.

O que esperar de cada um?

É certo que treinador não entra em campo. Mas também não dá para refutar a influência deles no desenrolar de uma partida. Negar o papel de Ferguson nas conquistas do Manchester United, por exemplo, seria pura ignorância. E qual a influência que se espera dos principais técnicos nessa temporada na Premier League? É o que tentamos responder com o mini-guia das próximas linhas. Confira:

Expectativas altas

Mourinho comemora junto com a torcida em seu retorno ao Chelsea
Mourinho comemora junto com a torcida em seu retorno ao Chelsea

José Mourinho: O retorno a Stamford Bridge foi triunfal. José Mourinho foi recepcionado como um verdadeiro ídolo e fez jus ao apoio da torcida, vencendo com facilidade o Hull City. Dentre os ‘novatos’, é quem tem mais pinta de emplacar imediatamente, pelo tempo de casa. Por sua primeira passagem pelo Chelsea, o português já conhece o vestiário e o ânimo arredio de Roman Abramovich. Com o elenco praticamente fechado, precisa se concentrar no acerto do time, o que não deverá ser uma grande dificuldade com a qualidade que tem à disposição.

Manuel Pellegrini: A saída de Roberto Mancini do Manchester City foi dolorosa. Afinal, o italiano foi campeão da Premier League, mas não dá para dizer que fez um grande trabalho. O nível aquém do dinheiro gasto e os problemas na gestão do elenco pesaram em sua demissão. Pellegrini é o “low profile” que tende a ajudar os Citizens. Possui ótimos trabalhos como treinador, fazendo história em clubes médios, mas não vingou quando teve a grande chance no Real Madrid . Fazendo o time render o que os xeiques esperam, abre o caminho para o sucesso.

André Villas-Boas: Em seu segundo ano no Tottenham, AVB possui o time nas mãos. Parece já ter superado as turbulências iniciais e moldou o elenco a sua afeição. Se o rendimento em sua temporada de estreia já foi bom, a torcida dos Spurs espera uma melhora – mesmo se Gareth Bale for vendido, a base de uma equipe forte o suficiente para o Top Four está montada. Além do mais, o seu perfil na gestão do clube e a idade o colocam como técnico de longo prazo, outro ponto para aumentar as expectativas.

Brendan Rodgers: Ninguém pode reclamar da paciência da torcida do Liverpool na temporada de estreia de Rodgers. O técnico implantou a transformação que queria, por mais que ela tenha custado a ausência nas competições europeias. Agora, é hora de fazer os resultados aparecerem e brigar pela Liga dos Campeões. Luis Suárez é uma dúvida importante na continuidade da liga, mas Rodgers já ensinou o time a se virar sem o seu artilheiro. Ainda assim, um craque como ele é o passo para o clube ir além em seus objetivos.

Michael Laudrup: Talvez a grande jogada no Swansea na pré-temporada. Em 2012/13, Michael Laudrup foi escolhido a dedo pela diretoria e, apesar da badalação, continua no Liberty Stadium em seu segundo ano. O time está mais do que entrosado e soube se reforçar no mercado de transferências. Repetir um título de copa como na última temporada é difícil, mas dá para esperar algumas posições acima na PL, bem como uma campanha de destaque na Liga Europa.

Sob alguma desconfiança

David Moyes: O Manchester United planejou bastante a transição de Sir Alex Ferguson para ter o menor impacto possível sobre o clube. E o eleito para substituí-lo foi Moyes, um técnico com postura parecida, em um projeto inicial de seis anos. Em campo, os Red Devils deram pouquíssimos sinais de mudança com o novato. A dúvida maior fica sobre a sua postura como gerente, onde Fergie era impecável. O imbróglio com Wayne Rooney e a inércia no mercado de transferências reforçam essas questões.

Arsène Wenger, pensativo, durante a derrota para o Aston Villa
Arsène Wenger, pensativo, durante a derrota para o Aston Villa

Arsène Wenger: A pergunta feita pela ESPN FC é muito pertinente. Como um técnico experiente como Wenger prepara um time tão mal para uma temporada? O Arsenal está despedaçado e a estreia é um aviso apocalíptico do que poderá acontecer ao final da Premier League. O francês precisa renovar sua imagem no clube, seja trazendo reforços ou fazendo a qualidade de seus jogadores atuais, que tanto acredita, se imponha nas partidas – o que parece difícil, diante do excesso de lesões nesta largada de campeonato.

Roberto Martínez: O espanhol vem de dois trabalhos referendados. Ajudou a aplicar um estilo marcante e a ascender o Swansea, enquanto fez fama de milagreiro no Wigan. Em Goodison Park, o desafio é um pouco maior, até pela saída de David Moyes. Martínez possui um estilo completamente diferente de seu antecessor. Precisará de tempo para aplicar suas mudanças, especialmente em campo, onde os resultados podem não ser imediatos.

Paul Lambert: A temporada inicial no Aston Villa definitivamente não foi boa. Lambert deve a permanência na Premier League e no cargo a Christian Benteke, autor de gols salvadores. Em seu segundo ano no Villa Park, porém, o escocês parece estar preparado para ir além – o que significa inicialmente uma campanha segura, de meio de tabela. A exibição contra o Arsenal na estreia foi animadora, mas a inconstância de 2012/13 ainda deixa dúvidas.

Mark Hughes: O quinto dos novatos na Premier League é o único que deve brigar contra o rebaixamento – e, talvez, contra a própria demissão precoce. Hughes acumula decepções como técnico e tem mais uma chance no Stoke City. E o rompimento no Britannia Stadium deve ser grande, adepto de um jogo mais fluído, bem diferente da retranca que fez o nome de Tony Pulis. Na estreia, tomou suadouro do Liverpool, apesar da chance de empate no fim.