O Barcelona contratou um jogador por quase € 150 milhões, o maior negócio da sua história, não teve mais do que um ano e meio de paciência antes de emprestá-lo para um dos seus adversários diretos pelo título da Champions League, na esperança de conseguir vendê-lo, e, nesta sexta-feira, levou dois gols desse mesmo jogador na derrota mais humilhante da sua história. O fato de ter sido Philippe Coutinho quem fechou a goleada do Bayern de Munique por 8 a 2 foi ao mesmo tempo um breve resumo do que se tornou o Barcelona e o mais claro simbolismo da crise existencial pela qual passa o clube.

Ser eliminado pela Roma, depois de ganhar o jogo de ida por 4 a 1, foi um forte abalo, pelas circunstâncias em que ocorreu e por ter sido para um clube com poder financeiro muito menor. Uma situação parecida se repetiu na temporada seguinte: ganhou por 3 a 0 do Liverpool no Camp Nou, perdeu por 4 a 0 em Anfield. Apenas o divã pode ter certeza se o primeiro vexame deixou sequelas psicológicas ou não, aprofundadas pelo segundo, e é razoável imaginar que esse histórico pesou na cabeça dos jogadores quando o Bayern começou a enfileirar gols.

Mas essa é apenas parte da história. O que mais chamou a atenção no Estádio da Luz é que o Barcelona simplesmente não estava preparado para um jogo desse nível. Não tinha os jogadores, não tinha a técnica, não tinha o treinador, não tinha a organização, não tinha a tática, e, claro, não tinha também o mental. Não tinha nada.

A deterioração do Barcelona não começou hoje, nem ontem, e era lenta, torturante ao seu torcedor, e chegou ao fundo do poço. Uma derrota tão pesada certamente causará fortes repercussões. Resta apenas saber quão fortes elas serão.

Ao técnico

Quique Setién, técnico do Barcelona (Foto: Getty Images)

Comecei a escrever este texto por volta das 17h45 e, se, ao terminá-lo, Quique Sétien ainda for treinador do Barcelona, ficaria surpreso. Ele não estava preparado para a o trabalho e não pode ser o bode expiatório, por mais que, sendo franco, poderia ter se saído um pouco melhor, estritamente pelo fato de que ter se saído pior parece impossível. Foi pelo menos a terceira opção para substituir Ernesto Valverde, uma tentativa desesperada de resgatar o estilo de jogo que marca a história do Barcelona, e a emenda saiu pior que o soneto. Deixou o título de La Liga escapar com tropeços depois da paralisação, nunca pareceu ter o controle do grupo e seu assistente foi flagrado xingando os jogadores. Além de levar 8 a 2 nas quartas de final da Champions League.

A questão urgente para o Barcelona, porém, é quem conseguirá se sair melhor. Os nomes que foram procurados antes de Sétien seguem fora de alcance – Xavi disse que há questões extra-campo demais neste momento, o que parece um diagnóstico seguro, e Ronald Koeman quer disputar a Eurocopa do ano que vem pela Holanda – e nem são unanimidades. Um novato e outro com um pouco mais de rodagem, mas trabalhos conflitantes.

O único que parece capaz de ao mesmo tempo colocar ordem na casa, resgatar o cruyffismo e ganhar jogos de futebol é Pep Guardiola. Contudo, parece que nem passando a escritura do Camp Nou para o seu nome ele se convenceria a embarcar nessa furada neste momento. Está em um clube estável e rico, na liga mais badalada do mundo, com um time jovem e em bom momento, é um dos principais candidatos ao título europeu, e a retificação da punição da Uefa significa que nem há as duas temporadas em que o Manchester City ficaria fora da Champions League para motivá-lo a sair. Seu contrato tem mais um ano de validade e nada indica que ele não o irá cumprir.

O que fazer? Mauricio Pochettino seria uma tentativa válida. Tem as ideias e tem experiência, embora não tenha os troféus, mas seu passado com o Espanyol sempre será um entrave – para ele. Outros nomes que conseguiriam tentar fazer o time jogar com o tal DNA, como Julian Nagelsman e Erik ten Hag, ainda são muito crus e provavelmente seriam triturados pela máquina de pressão do Camp Nou. Maurizio Sarri, recentemente desempregado, poderia ser uma alternativa, se a passagem pela Juventus não tivesse deixado uma impressão tão ruim, embora seja verdade que ele não teve um elenco muito adequado ao que queria fazer – e o teria no Barcelona?

Saindo deles, a alternativa seria buscar um técnico forte, mesmo que favoreça um estilo diferente, como Massimiliano Allegri, mas não demoraria muito para voltarmos à narrativa de que o Barcelona precisa jogar como o Barcelona.

O que fará o clube? Insistirá no pequeno grupo de profissionais que casam com suas ideias ou irá novamente se afastar delas? A grande encruzilhada é que não parece haver resposta certa.

Aos jogadores

Piqué, do Barcelona

Gerard Piqué, um dos mais influentes líderes do vestiário, disse após o jogo que, se sua saída for o melhor para o Barcelona, ele sairá, e incrível que ele ainda coloque na condicional. O zagueiro, parte indissociável da história do clube, deixou o auge para trás faz tempo. Pode ser até que fique, mas ele surge como um dos primeiros nomes mais óbvios da renovação profunda pela qual o elenco catalão precisará passar.

A média de idade do time que enfrentou o Bayern de Munique, nesta sexta-feira, foi de 29 anos e 329 dias, a mais velha do clube em um jogo de Champions League. Os últimos mercados foram trágicos: € 100 em milhões de euros gastos em cinco jogadores que não estão mais no Barcelona – Jasper Cillensen, Lucas Digne, Denis Suárez, Paco Alcácer e André Gomes; € 280 milhões em Philippe Coutinho, que na goleada estava defendendo o outro time, e Ousmane Dembélé, que vive machucado, para substituir Neymar; no mercado seguinte, mais € 70 milhões em dois reforços que já foram embora (Arthur e Malcom); e aí, € 120 milhões para Antoine Griezmann começar o jogo mais importante da temporada no banco de reservas.

Apenas em um exercício de comparação, esse quase € 600 milhões – e é justo dizer que parte foi recuperada em vendas – são mais do que o Liverpool pagou pelo seu time titular (cerca de € 360 milhões) e por todos os reservas. A escalação do Bayern de Munique que marcou oito vezes em Ter Stegen custou aos bávaros um total de € 100 milhões. Eu acho que nem preciso fazer a conta da Roma, para ficar apenas nos três times que eliminaram o Barcelona nessa sequência de vexames.

Ter Stegen, Messi, Ansu Fati e De Jong, que acabou de chegar e nem teve muito como mostrar serviço, parecem os únicos que incontestavelmente precisam ficar. Outros, como Suárez e Busquets, são bandeiras históricas e podem permanecer desde que assumam um papel mais secundário – condição que Piqué, também um ídolo, não tem muito perfil para aceitar. Depois deles, qualquer um está em jogo, dependendo das propostas ou das ideias do novo treinador, começando pelo núcleo mais experiente. É urgente baixar a média de idade da equipe e seria interessante se La Masia voltasse a fornecer jogadores de mais alto nível para cobrir alguns buracos do elenco.

E há Coutinho e Dembélé, os gigantescos bodes na sala que sugaram todo o dinheiro da venda de Neymar, e mais um pouco, ainda têm alguns anos de contrato, ganham altos salários e parecem impossíveis de serem transferidos a menos que o Barcelona esteja disposto a engolir um grande prejuízo, o que nem é tão possível fazer porque as condições financeiras não são as melhores para a reformulação que o clube precisa. Mais uma encruzilhada. E nem é a última.

A Lionel Messi

Messi, do Barcelona (Getty Images)

Sempre foi difícil acreditar quando surgiam especulações de que Messi sairia do Barcelona. Havia muita cara de jogo de empresário para dar aquela pressionada na hora das negociações. Hoje, pela primeira vez, parece que existe uma possibilidade real de o argentino sair do clube e, mais importante ainda, pela primeira vez parece que realmente essa poderia ser uma boa ideia para ele.

Ninguém está dizendo que o Barcelona deveria vendê-lo ou que ele deveria sair, mas vamos olhar para o contexto. Sempre foi confortável para ele ficar na Catalunha. Era o dono do time, o dono da cidade, o dono do vestiário, poderia sempre contar que faria parte de um time forte e ambicioso que atuaria de uma maneira que potencializa suas características. Boa parte desses pontos positivos não existe mais e, como descrito acima, parece longe de existir novamente.

É razoável o argumento de que a situação seria pior sem ele, assim como é que nesses momentos cruciais das eliminações ele pouco apareceu. Contra o Bayern de Munique, teve uma partida das mais apagadas, e realmente não havia muito que pudesse fazer. Houve, porém, uma pequena janela entre o gol de Suárez – que começou em um lançamento dele para Alba – e o quinto dos bávaros em que ele poderia ter pegado a bola debaixo do braço e recolocado o Barça na partida. Não é um demérito tão grande que não tenha feito. Não é culpa dele. A superioridade coletiva do Bayern foi grande demais para ser compensada por um único jogador, por melhor que ele seja, mas é esse tipo de milagre que se espera de um craque de um calibre tão alto.

Por que não contemplar a sério um novo desafio? A sensação mais pertinente no momento é que está desperdiçando os últimos anos em altíssimo nível da sua carreira em um projeto esportivo em pedaços. São cinco temporadas seguidas que o melhor jogador da sua geração não disputa a final da Champions League. Em apenas uma delas chegou pelo menos à semifinal.

Messi está entrando no último ano do seu contrato. Houve relatos de que as negociações foram interrompidas em julho e esta seria a última janela para o Barcelona ainda fazer algum dinheiro com ele. Além disso, há uma questão tática que, se não é intransponível, é difícil de resolver. O jogo de posse de bola e controle ao qual o clube é tão apegado depende de um comprometimento exemplar dos atacantes na fase defensiva e faz alguns anos que Messi não se dispõe mais a cumpri-lo.

Seria a coisa certa a fazer? É bom deixar claro que a decisão de se separar daquele que talvez seja o maior jogador da sua história não pode ser tomada com base em um raciocínio frio. Precisa também levar em conta o impacto que isso teria com os torcedores, os outros jogadores e na própria identidade do clube. Por outro lado, o Barça corre o risco de vê-lo sair de graça daqui a um ano, o que nunca pareceu uma possibilidade tão real.

À direção

Josep Maria Bartomeu, presidente do Barcelona (Photo by David Ramos/Getty Images)

O presidente Josep Bartomeu pediu desculpas. Disse que o torcedor pode esperar mudanças, alguns decididas tomadas antes do jogo e outras que serão deliberadas nos próximos dias. Teria sido melhor se renunciasse.

Porque o Barcelona chegou a este ponto sob a supervisão do dirigente que chegou ao poder em 2014, coincidência ou não, pouco antes de o trem descarrilar. Foi sua diretoria quem comandou esses mercados trágicos e tomou as decisões em relação a treinadores, sem falar no escândalo da empresa de redes sociais suspeita de criticar jogadores para defendê-lo, das contestações públicas de Eric Abidal ao empenho dos jogadores na passagem de Valverde e da maneira como lidou com as negociações salariais quando o futebol foi paralisado – para ficar apenas nesta temporada.

Seis diretores renunciaram em abril, inclusive aquele que Bartomeu preparava para ser seu sucessor, fazendo alegações de corrupção e discordando da maneira como o clube estava sendo administrado. Pediram que ele convocasse já as eleições que precisam acontecer até o primeiro semestre do ano que vem. Se não renunciará, pelo menos isso ele deveria fazer.

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