O Confiança atravessa uma semana inesquecível. No sábado, em Erechim, os sergipanos buscaram o empate por 1 a 1 contra o Ypiranga e conquistaram o acesso à Série B do Campeonato Brasileiro. No entanto, somente nas horas posteriores é que os azulinos realmente tiveram noção do que alcançaram. Um mar de gente tomou as ruas de Aracaju para celebrar o feito, que marca o retorno do clube à segunda divisão nacional após 28 anos. Depois de cinco temporadas consecutivas na Série C, o Dragão abocanhou o grande prêmio por sua estabilidade.

Entre os protagonistas do acesso, o treinador Daniel Paulista recebe elogios. Após uma longa passagem pelo banco de reservas do Sport, quando alternou o trabalho de auxiliar com outros períodos mais curtos à frente da equipe e até garantiu a salvação em duas edições consecutivas da Série A, o antigo meio-campista também dirigiu brevemente o Boa Esporte em 2018. Já no último mês de março, ganhou a oportunidade de assumir o Confiança e desenvolver um planejamento visando a Série C, mesmo sem conquistar o estadual.

Com um estilo de jogo mais ofensivo, o Confiança se colocou entre os quatro primeiros do Grupo A e superou as adversidades na reta final para avançar aos mata-matas da Série C. Por fim, no confronto decisivo com o Ypiranga de Erechim, o Dragão soube se impor. Após a vitória por 1 a 0 no Batistão, arrancou o empate por 1 a 1 no Colosso da Lagoa e completou sua missão rumo à Segundona. Em entrevista à Trivela, Daniel Paulista conversou sobre suas realizações em Aracaju, sobre o desenvolvimento do trabalho e sobre os próximos passos dos azulinos. Confira abaixo as respostas:

Trivela: Como foram as suas últimas 48 horas, desde a conquista do acesso? Como tem sido lidar com toda essa vibração ao redor do clube?

Daniel Paulista: São dias de muita felicidade, de muita alegria. É um feito extraordinário para Sergipe, para Aracaju. É a primeira vez que o Confiança consegue esse acesso literalmente no campo. Aracaju está em festa. Ontem [domingo] nós tivemos uma recepção absurda no aeroporto, a cidade estava parada, e depois a comemoração continuou na orla da praia. Acho que toda essa comemoração é um reconhecimento pelo futebol apresentado pela equipe, que fez uma Série C muito bonita, jogando pra frente e até surpreendendo a muitos. O trabalho foi muito bem feito e conquistamos o objetivo.

Trivela: Dentro dessa representatividade local, como é lidar com um clube que, além de contar com uma torcida apaixonada, também possui esse peso de ser a força motriz do estado, ao recolocar Sergipe de volta na Série B após 19 anos?

Daniel Paulista: Desde que eu cheguei aqui, nós fizemos um planejamento a partir do final do estadual para esse início da Série C, para que a gente conseguisse o objetivo. Lógico que passamos por momentos de muitas dificuldades, com uma cobrança muito grande da torcida, que é uma torcida muito apaixonada pela grandeza do clube no estado. Por ser o maior clube e a maior torcida, tem uma representatividade muito grande aqui dentro. Mas nós conseguimos, fazendo esse planejamento e uma reformulação grande desde o estadual. Montamos uma equipe com um custo literalmente muito baixo, mas isso não foi problema para que fosse competitiva, jogasse bonito e conquistasse os objetivos.

Trivela: Nesta reta final, alguns jogadores que vinham sendo um pouco mais cobrados pela torcida acabaram crescendo bastante, como o Ítalo e o Tito, decisivos na ida contra o Ypiranga. O quanto disso é treinamento e quanto é motivação para essa ascensão?

Daniel Paulista: É lógico que o fator motivacional influencia. Agora, só motivação também não garante resultado, não garante performance. Temos que trabalhar de uma forma diária e repetitiva. É fundamental. Aqui, trabalhamos isso realmente todos os dias. Tivemos um grupo pequeno, mas homogêneo, independentemente de quem estava jogando ou de quem estava fora. Tivemos oportunidade de todos os jogadores do elenco atuarem – alguns mais, outros menos, mas todos foram importantes. É lógico que, no momento decisivo, alguns jogadores cresceram de produção, mas a equipe como um todo foi bem durante a competição e isso foi importante para a conquista do acesso.

Trivela: O Confiança vinha de uma sequência ruim nas últimas rodadas da fase de classificação, mas conquistou uma vitória importante no confronto direto com o Ferroviário, que valeu a vaga nas quartas de final. Como foi o trabalho específico nesta reta final, diante dos riscos?

Daniel Paulista: Acho que esse momento foi o mais instável da equipe durante toda a competição. Faltando quatro rodadas para acabar a fase classificatória, o time atingiu a primeira colocação do grupo e no geral, também tínhamos o melhor ataque, mas acabamos perdendo um pouco o foco e a concentração. Isso nos custou caro, tivemos alguns resultados ruins e decidimos a classificação na última rodada. Com muita conversa e com muito trabalho do lado psicológico, do lado realista das coisas mostradas aos atletas, a equipe se remontou.

Nós fizemos algumas alterações, a equipe voltou a crescer de produção e realizou um belíssimo jogo em Fortaleza, ao conseguir o empate heroico mesmo perdendo por 2 a 0. Já agora, na fase de mata-matas, o time voltou a se encontrar. Fez dois bons jogos, onde foi o senhor das ações tanto em Aracaju quanto em Erechim. O Confiança jogou para vencer, teve as melhores chances. Venceu o primeiro jogo e, na volta, controlou muito bem a partida, apesar de ter saído atrás no marcador na única oportunidade que o adversário criou. Mas, durante todo o contexto geral da partida, o Confiança foi melhor e foi premiado com um bom segundo tempo, com o gol de empate que nos deu a classificação.

Trivela: Dentro do que você falou sobre o futebol praticado, um futebol ofensivo, como é aplicar esse estilo de jogo em um clube que possui um orçamento mais baixo e conta com um elenco mais enxuto? Como é feito esse trabalho no dia a dia?

Daniel Paulista: Primeiramente, o mais importante é a montagem do elenco. Quando a gente fez a reformulação do estadual visando a Série C, eu consegui indicar jogadores dentro das características que eu acredito para se praticar um futebol moderno, um futebol de transição rápida, em que precisamos ter força e também velocidade. Buscamos jogadores com essas características para que, com nosso trabalho no dia a dia, pudéssemos colocar em prática aquilo que pensamos sobre o futebol. Então, casamos essas duas coisas muito bem. Os jogadores que chegaram e os que permaneceram conseguiram entender a nossa filosofia de trabalho e, dentro de campo, tudo isso foi colocado em prática nos jogos. O que se viu foi o Confiança sempre jogando muito bem, elogiado pela grande maioria entre os times que praticaram o melhor futebol da Série C, e isso tudo nos deixa bastante satisfeitos.

Trivela: Especificamente sobre o jogo de volta em Erechim, vocês foram para o intervalo perdendo, contra um adversário que adotou uma postura mais reativa mesmo quando precisava do resultado. O que você conversou com os jogadores antes do segundo tempo e como você leu o jogo para fazer as alterações, já que elas foram decisivas ao empate?

Daniel Paulista: Nós fomos para o intervalo perdendo, mas eu procurei passar muita tranquilidade para os atletas, porque, mesmo com o resultado adverso, a leitura do primeiro tempo não era o que o placar mostrava. O Confiança teve as melhores oportunidades, mas não teve a qualidade e talvez a sabedoria para fazer um resultado diferente. No segundo tempo, a gente mudou algumas coisas, principalmente na atenção às finalizações. E, no meio-campo, fizemos uma alteração em que a equipe conseguiu adiantar um pouco mais a marcação, pressionar um pouco mais o adversário. Já na metade do segundo tempo, as substituições surtiram efeito. Nosso gol saiu do cruzamento de um jogador que entrou e tem uma bola parada muito boa. E o nosso centroavante, que também acabou entrando na segunda etapa, foi muito feliz na cabeçada. A partir do momento em que o gol de empate saiu, nossa equipe tomou conta do jogo e foi tranquila até o final.

Trivela: O Confiança vinha de duas campanhas recentes na Série C em que chegou às quartas de final e perdeu o acesso na partida de volta fora de casa. Vocês fizeram algum trabalho específico quanto a isso, quanto à própria postura do clube em relação a essas eliminações?

Daniel Paulista: É lógico que esse retrospecto foi lembrado, principalmente por quem estava nesses momentos, mas nós procuramos trabalhar com uma certa normalidade, principalmente confiando na equipe e no futebol apresentado. Nas outras oportunidades, o Confiança sempre chegou à última rodada ou brigando pela classificação ou brigando contra o descenso, e nesse ano não, o time sempre fez uma Série C equilibrada. Desde que a equipe entrou no grupo dos classificados, nunca saiu, foram nove rodadas consecutivas entre os quatro melhores. Então isso nos credenciou a lutar por esse acesso com autoridade, com força, e foi o que a gente fez na reta final. Jogamos com propriedade, como um time que queria subir, e fizemos o resultado nas duas partidas, o que deu o acesso.

Trivela: Como vai ser o planejamento para a sequência da competição? Há toda a empolgação pela conquista do objetivo, que era o acesso, mas ainda existe a chance de um título que seria histórico ao Confiança. Como dosar essa euforia ao redor do que já foi feito?

Daniel Paulista: A gente sabe que a empolgação é grande, a comemoração também, mas temos que colocar os pés no chão, porque existe a oportunidade de fazer algo inédito, que seria fantástico – a busca de um título nacional para um clube sergipano. Seria uma coisa espetacular. A gente sabe que a comemoração em torno do objetivo é muito grande, a empolgação também, mas vamos ter que dar uma freada nesse tipo de situação para que possamos trabalhar muito bem a partir da reapresentação nesta terça. Temos dois compromissos muito difíceis diante do Sampaio Corrêa para tentar buscar a classificação à final.

Trivela: Como você avalia o nível da Série C neste ano, com boas campanhas de clubes tradicionais e muita emoção na definição do acesso?

Daniel Paulista: Foi a primeira vez que disputei a Série C. É uma competição extremamente equilibrada. Acho que há pouca disparidade entre as equipes. Existe um pouco mais entre aquelas que possuem um poder aquisitivo maior e fazem contratações de jogadores com mais qualidade técnica, o que pode ser algum diferencial. Mas isso não é garantia de bons resultados. A prova é que o Confiança deixou para trás equipes de camisa muito mais pesada, equipes de poder aquisitivo duas, três ou quatro vezes maior do que o nosso. O que importa muito é o trabalho e a maneira como as coisas são geridas. Isso fez com que o Confiança chegasse a esse acesso.

Trivela: Você teve um trabalho longo na comissão técnica do Sport. Como você compara a estrutura do Confiança com outros clubes da Série B? O que você vê como prioridade dentro do clube para o próximo ano, não só na parte de seu trabalho como treinador, mas também no desenvolvimento de estrutura e adaptação à nova realidade financeira?

Daniel Paulista: O Confiança vai ter que passar por um processo de reformulação. É uma questão de atletas também, porque a equipe atingiu um novo patamar, mas eu falo principalmente na questão de clube. O Confiança hoje deixou de ser um clube de Série C para entrar num grupo seleto de clubes de Série B, onde ele está inserido entre os 40 melhores do país. Então vai mudar o patamar e, com isso, todo o resto também muda. Tem que haver melhorias em setores do clube, toda uma estrutura que precisa ser melhorada, para que a gente possa no próximo ano jogar de igual para igual com as grandes equipes da Série B e para que o Confiança possa fazer em 2020 uma temporada muito feliz como a de 2019.

Trivela: Qual o peso desse acesso para a progressão da sua carreira?

Daniel Paulista: Não tenha dúvidas, esse acesso engrandece muito a minha curta carreira como treinador. Em praticamente três anos como treinador, eu ajudei a reverter toda uma situação de baixíssimo aproveitamento dentro da Série A com o Sport, o que não é fácil, e conseguimos nos livrar do rebaixamento. Agora, fiz esse trabalho com o Confiança, um trabalho do início ao final, o que é muito difícil de acontecer. É difícil você iniciar um trabalho, fazer todo o planejamento, fazer toda a execução desse planejamento e ser coroado com o objetivo conquistado. Mesmo nesse curto período, conseguimos o acesso e tenho certeza que isso engrandece muito a minha curta trajetória.

PS: Fica o agradecimento ao leitor Lucas Santos, pela ajuda na elaboração de parte das perguntas. Valeu!