A prisão de seis pessoas na Bulgária ainda parece insuficiente diante das cenas revoltantes de racismo ocorridas nesta semana, durante a partida contra a Inglaterra. O duelo precisou ser interrompido duas vezes por causa dos insultos contra jogadores negros e dos gestos nazistas de torcedores. No entanto, as estruturas do futebol local sentem o impacto da noite de maneira mais profunda, também pela goleada de 6 a 0 aplicada pelos ingleses. Na terça-feira, o primeiro ministro Boyko Borissov pressionou e o presidente da federação local, o ex-goleiro Borislav Mihaylov renunciou ao seu cargo. Já nesta sexta, o técnico Krassimir Balakov acabou demitido.

Balakov, companheiro de Mihaylov na célebre seleção búlgara do início dos anos 1990, tinha sido bastante criticado por sua postura contra a Inglaterra – e não apenas pela goleada sofrida. Nas entrevistas depois da derrota, o treinador minimizou o caso de racismo e se portou como se os ataques aos jogadores ingleses pudessem não ter acontecido. O veterano afirmou que “sentia muito se as injúrias realmente se provarem verdadeiras” e disse que um episódio do tipo seria “inédito à Bulgária” – mesmo com o estádio parcialmente fechado após sanção da Uefa.

“Eu vi que o árbitro parou o jogo, mas também preciso dizer que o comportamento não era apenas dos torcedores búlgaros, mas também dos ingleses, que estavam assobiando e gritando durante o nosso hino. Durante o segundo tempo, eles usaram palavras contra nossa torcida que eu achei inaceitáveis”, declarou Balakov. O técnico ainda apontou que o capitão Ivelin Popov, no momento em que tentava conter os insultos, “provavelmente conversava porque a torcida estava insatisfeita com a maneira como o time jogou no primeiro tempo”.

No dia seguinte, diante de toda a repercussão sobre a partida, Balakov voltou atrás e pediu desculpas pelo ocorrido. Admitiu que torcedores búlgaros foram racistas e repreendeu a atitude. “Eu condeno fortemente e rejeito o racismo como uma norma de conduta que contradiz as relações humanas modernas. Este é um preconceito do passado, que precisa ser erradicado para sempre. Quero dizer algo bem claro: diante dos insultos, eu, como treinador da seleção búlgara, peço desculpas aos jogadores ingleses e a todos aqueles que se sentiram ofendidos”, escreveu, em nota oficial. Mas não colou muito.

Nesta sexta, Balakov confirmou que deixará a seleção. “Não sou mais o treinador da equipe nacional e desejo sorte ao meu sucessor. A situação não é boa. Sou profissional e sei que momentos como este acontecem na vida. Buscarei minha próxima chance. Eu descansarei a partir de agora”, declarou o veterano, em entrevista à imprensa local. Não está claro, porém, o quanto a demissão foi motivada pelo racismo e o quanto foi motivada pelos maus resultados. A Bulgária soma apenas três pontos nas Eliminatórias da Euro, sem vitórias, e ocupa a última colocação do Grupo A.

Também nesta sexta, Borislav Mihaylov deu uma coletiva de imprensa sobre a sua saída da presidência da federação. O cartola, entretanto, não demonstrou a mesma reflexão de Balakov e seguiu menosprezando a gravidade do que aconteceu em Sófia. “Foram quatro ou cinco pessoas insultando. Na segunda vez em que a partida foi interrompida, Gareth Southgate ouviu. Nós fizemos o que precisávamos fazer em relação ao jogo. A Bulgária não é um país racista. E minha decisão de pedir demissão não tem nada a ver com o pedido de Borissov. Minha paciência acabou”, disse.

Após a renúncia de Mihaylov, a polícia búlgara fez buscas na sede da federação, sob denúncias de corrupção. Enquanto isso, 16 pessoas já foram identificadas após o racismo nas arquibancadas. Dos seis torcedores presos, quatro foram multados e banidos dos estádios pelos próximos dois anos. As autoridades seguem suas buscas.