Trabalhar fora do Brasil é um desafio para os técnicos brasileiros. Embora dentro de campo o Brasil seja um dos país que mais exportam jogadores para todos os lugares do mundo, quando se fala em treinadores não é sempre assim. O mercado europeu, especialmente, é bastante fechado. Por isso, Gil Paulista, técnico brasileiro de 45 anos, resolveu tirar a licença da Uefa na Ucrânia, onde trabalhou. Faz o curso em russo, língua que se fala no norte do país, junto com Eduardo da Silva, brasileiro naturalizado croata que joga pelo Shakhtar Donetsk.

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“Bom, a decisão de fazer o curso foi primeiro por ser obrigatório na Europa, não é possível trabalhar na Europa sem este curso”, disse Gil. “Estou fazendo o curso no CLFFU, Centro de licença da Federação de Futebol da Ucrânia. É um curso longo e temos a ultima sessão agora em agosto”.

Gil foi jogador, mas não chegou a ter grande destaque nos gramados.Começou a carreira no exterior, trabalhou como auxiliar técnico na Grécia e na Ucrânia – onde passou cinco anos e aprendeu a falar russo.

“Sou formado fora do Brasil, como ex-jogador joguei em algumas equipes no Brasil também. Já como treinador, comecei profissionalmente na Grécia fazendo trabalho como observador técnico no Iraklis. Trabalhei na África do Sul em 2010 até chegar à Ucrânia. Foram cinco anos no time principal do Metalurg Zaporizhzhya, com acesso para primeira divisão em 2011/12”.

Na Europa, é preciso ter a licença da Uefa para ser treinador e por isso os ex-jogadores que querem seguir este caminho também precisam passar pela formação. “No meu grupo tem o [Harrison] Omoko, nigeriano, ex-Dynamo Kiev. Tem também o Eduardo da Silva, ex-Flamengo, que hoje está no Shakhtar Donetsk, e o Andrey Voronin, ex-seleção ucraniana [que jogou também no Liverpool]”, conta.

Gil diz que a formação de treinador na Europa é diferente do Brasil. “Primeiro, o curso abrange tudo que envolve o futebol, por isso o treinador aqui é chamado de manager, ele participa desde as contratações de pessoal até administração do clube. O técnico de futebol no Brasil em grande parte se limita a equipe e jogos, com a pressão por resultados”, explica.

“O treinador não tem tempo de se envolver em questões administração do clube, tem seu trabalho limitado, e a categoria [de treinadores] aceita isso de maneira natural. Tanto que é comum no Brasil ter trocas constantes de treinadores”, argumenta.

“Li há pouco uma matéria de um treinador Brasileiro a ser questionado sobre sua má campanha em um clube grande, o mesmo disse que não ficava dois dias em casa em caso de demissão [Argel, do Internacional, foi quem disse isso. Ao ser demitido do Inter, foi contratado pelo Figueirense cerca de 24h depois de ser demitido]. Isso mostra a instabilidade em todos os sentidos”, afirmou Gil.

Em 2015, Gil trabalhou no Brasil, em um clube pequeno, mas a falta de estrutura não ajudou. “Tive uma experiência não muito boa no Brasil em 2015, depois de um convite de uma empresa para treinar o Osvaldo Cruz [clube que disputa a quarta divisão de São Paulo]. Tive que colocar em prática questões aprendidas no curso quando me vi sozinho, sem comissão técnica, sem presidente, sem diretor, sem comida até. Foi horrível”, conta.

A experiência ruim por aqui levou Gil a tentar se aprimorar e buscar recolocação fora do país. “Depois de terminar o curso pretendo continuar buscando por entendimento e conhecimento, isso deve ser constante. O futebol muda muito rápido”, diz.

“A Eurocopa 2016 mostrou isso com Portugal, a própria Premier League inglesa assistiu isso de perto. Acabamos de assistir uma final de Libertadores sem Brasil e Argentina, ou seja, isso só é possível porque os treinadores mudaram e com isso mudou conduta, comportamento. Os jogadores assimilaram isso e estão mais participativos, envolvidos com clube e planejamento. Hoje os clubes aqui fora exigem dos jogadores conhecimento tático, etc”.

Um dos pontos que Gil considera fundamental é saber falar o idioma local. Ele atribuiu a isso a sua boa adaptação à Ucrânia. “Eu vejo que é indispensável dominar pelo menos seu idioma local e o inglês, que é universal, eu hoje estou fazendo um curso que é 100% em russo, sem tradutor”, contou.

“Um dos instrutores da CLFFU perguntou aos técnicos a razão de poucos ucranianos trabalharem fora do país. A resposta foi o idioma. Por mais que tenham licença da Uefa, não conseguem se comunicar e entendem que isso é uma barreira. Ele me citou como exemplo, por isso vejo que falar outros idiomas ajuda sim”, diz.

“Por estar fora do Brasil muito tempo, pretendo ficar aqui mesmo. Vejo um grupo fechado de treinadores no Brasil, vejo clubes gastando e muito para ter o mesmo treinador duas vezes no mesmo ano, ou seja, contrata, demite e depois o mesmo volta”, diz. “Aqui contrato é cumprido, em cinco anos caímos, subimos, caímos e subimos, e não tivemos nossos contratos respeitados, depois disso começou uma crise financeira na Ucrânia que perdura até hoje e fomos obrigados a buscar novos desafios”, contou.

Gil tenta uma oportunidade em países periféricos e cogita assumir uma seleção africana, com quem já chegou a conversar. Enquanto isso, conclui seu curso de técnico na Ucrânia. Em russo.

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