O futebol é um esporte que se fala muito em gols, vitórias e títulos. Há algo que é maior que tudo isso, que é o que tudo isso pode causar, mas nem sempre é necessário ter qualquer um deles para alcançar: a glória. A Atalanta viveu uma noite de glória em Milão. Fez uma vitória por partida histórica, uma vitória por 4 a 1 diante do Valencia, pelas oitavas de final da Champions League, e assim deu um passo enorme rumo ao impensável. O time deu um passo gigante para chegar às quartas de final do torneio continental, se não perder do Valencia por mais de dois gols de diferença.

Sem poder jogar no seu estádio na Champions League desde o início da temporada, a torcida da Atalanta adotou San Siro para viver um momento que sua gente não esquecerá. O seu primeiro jogo de mata-mata no principal torneio da Europa. E foi uma festa. Os torcedores cantaram e fizeram a oportunidade valer. Estar entre os principais times da Europa é um feito para um clube do tamanho da Atalanta. E o time viu diante de si a chance de fazer história.

O técnico Gian Piero Gasperini escalou o time sem um centroavante fixo, mesmo tendo dois excelentes. Nem Luis Muriel, nem Duván Zapata começaram a partida. Quem começou foi Mario Pasalic, pelo centro, com Alejandro Papu Gómez como atacante ao lado de Josip Ilicic. O ataque de movimentação, usando muito os lados do campo, funcionou.

Logo no começo do jogo, Papu Gómez mandou um chute forte de fora da área, que levou perigo, mas passou por cima. Mas foi um primeiro aviso: cuidado com o argentino. Logo depois, quem assustou foi Mario Pasalic. O meia recebeu frente a frente com o goleiro Jaume Doménech. O jogador da Atalanta tocou no canto e o goleiro fez a defesa, salvando o Valencia.

Aos 15 minutos, a Atalanta conseguiu abrir o placar. Papu Gómez carregou a bola pelo lado esquerdo, cruzou e Hans Hateboer fez 1 a 0 para o time italiano. Mandante, o time italiano era melhor e deixava o Valencia pressionado. Papu Gómez, pela esquerda, e Josip Ilicic, pela direita, deixavam os defensores do Valencia de cabelos em pé.

O Valencia precisou reagir. No final do primeiro tempo, José Luis Gayá fez um bom passe para Gonçalo Guedes pela esquerda e tentou o chute cruzado. Ele tinha a opção de Geoffrey Kondogbia pelo meio, que ainda tentou o carrinho, mas não teve jeito. A bola foi fora.

Quando o relógio já marcava 41 minutos doo primeiro tempo, a Atalanta chegou ao segundo gol. O time rondava a área, e Ilicic recebeu cercado por três. Protegeu, aguentou o tranco e soltou um chutaço de pé direito, mesmo sendo canhoto. Doménech tocou na bola, mas não conseguiu evitar: 2 a 0.

O segundo tempo começou como foi o primeiro, com a Atalanta mais no ataque, rondando a área. E foi em uma roubada de bola que Papu Gómez fez, a bola sobrou para remo Freuller, que puxou para o pé direito e bateu, colocado, com curva. Um chute lindo, que ficará sendo repetido na memória dos torcedores. Uma trajetória que saiu do goleiro e entrou bonito, balançando as redes: 3 a 0. Eram 12 minutos do segundo tempo.

A Atalanta já tinha saído jogando errado algumas vezes. Só que aos 25 minutos, a bola sobrou na direita para Ferrán Torres, que cruzou rasteiro. Maximiliano Gomez, absolutamente livre, chutou e o goleiro Pierluigi Gollini fez uma grande defesa. É o típico lance que o goleiro tem que ser valorizado, mas que o atacante tinha obrigação de marcar. O placar seguia no zero.

O time de Gian Piero Gasperini não é de se conformar com placares favoráveis. E logo depois, como se fosse uma resposta cármica, bola lançada na direita para Ilicic, que fingiu que não conhecia a bola para deixar passar para Hateboer. Ele recebeu e avançou em velocidade, até entrar na área e finalizar em cima do goleiro, mas Doménech não conseguiu reagir rápido ao chute à queima roupa: 4 a 0, aos 17 minutos.

O técnico Albert Celades sacou Gonçalo Guedes e colocou Denis Cheryschev. E no seu primeiro lance, o russo aproveitou. José Luis Palomino errou na saída de bola, mais uma vez, e o russo recebeu, ajeitou e mandou no canto, diminuindo o placar para 4 a 1. Eram 21 minutos. Havia tempo. E por isso, o Valencia pressionou mais. Em mais um cruzamento de Ferrán Torres, Maximiliano Gómez mais uma vez se enrolou, furou a bola, e perdeu o gol. A boa ainda sobrou para Cheryschev, que não teve a segurança para chutar de primeira, ajeitou, tirou da marcação e, aí sim, encheu o pé. O goleiro Gollini já estava em cima e tomou uma baita bolada na barriga, que impediu que a bola passasse.

O Valencia tentava aumentar o ritmo, enquanto a Atalanta buscava se reencontrar. E criou chances. O técnico tirou Mattia Caldara para colocar Duván Zapata, um zagueiro por um centroavante. Foi com Zapata que o time teve chance em mais dois contra-ataques, aproveitando o Valencia desarrumado. Os espanhóis tentavam fazer algo e seguiam também desperdiçando. Dani Parejo, aos 45, recebeu dentro da área e chutou por cima, perdendo a chance.

A Atalanta deixou o jogo com um enorme capítulo escrito em sua história. Uma goleada por 4 a 1 que permite que o time veja a vaga nas quartas de final ao alcance das suas mãos. O Valencia precisará de um grande jogo, com tudo dando certo, para reverter o placar. Será preciso um 3 a 0 para os Ches na volta para levar a classificação pelos gols fora de casa. A Atalanta, como um time ofensivo que é, vai tentar fazer um gol para complicar as coisas. Um time ofensivo, corajoso e que aproveita as chances. E se bobear, vai para cima para continuar fazendo mais.

Aqueles torcedores da Atalanta que estiveram em San Siro ganharam a glória. Ganharam uma história para contar daqui até o fim da vida. Uma história que gerará sorrisos por muito tempo.