A trajetória de Marco Polo Del Nero no futebol chegou ao fim. De dirigente do Palmeiras no começo da década de setenta a ex-presidente da CBF banido do esporte por receber propina em troca de vantagens em contratos de direitos de televisão. Nesta sexta-feira, Del Nero recebeu a punição vitalícia da Fifa. Por meio de seus advogados, negou as acusações e afirmou que recorrerá à Corte Arbitral do Esporte. 

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De acordo com o comunicado da Fifa, Del Nero concedeu contratos de direitos de transmissão e marketing de torneios de futebol, incluindo Copa América, Copa Libertadores e Copa do Brasil, em troca de suborno. A investigação interna da entidade, iniciada em novembro de 2015, declarou-o culpado de suborno e corrupção, oferecer e aceitar presentes e outros benefícios, conflitos de interesses, quebra de lealdade e regras gerais de conduta. Além de nunca mais poder se envolver oficialmente com o futebol, ele terá que pagar uma multa de R$ 3,5 milhões, valor bem inferior aos R$ 22 milhões que ele teria recebido de propina no esquema. 

Os advogados do ex-presidente da CBF mostraram-se confiantes na reversão da pena em um tribunal “independente e não sujeito a interferências externas”. Alegaram que o processo do Comitê de Ética da Fifa cometeu diversas violações e afrontou “os princípios básicos da ampla defesa e do devido processo legal”. Segundo eles, a Fifa foi incapaz de produzir “qualquer prova referente ao seu suposto envolvimento em esquemas de corrupção”. À Reuters, Del Nero classificou a punição como “absurda”.

Del Nero foi indiciado pela Justiça dos Estados Unidos, na operação Fifagate, que desde 2015 investiga esquemas de corrupção de dirigentes ligados ao futebol. Na eclosão do caso, mandatos de prisão foram emitidos e cumpridos na Suíça, onde estava Del Nero com vários colegas para um congresso da Fifa. O brasileiro conseguiu deixar o país antes de ser detido pelas autoridades. 

Ex-presidente da CBF, José Maria Marin não teve a mesma sorte e está sendo detido pela polícia americana em Nova York desde então. Segundo a Folha de S. Paulo, Marin já foi condenado por organização criminosa, fraude financeira e lavagem de dinheiro e cumpre pena em um presídio do Brooklyn. Em depoimento à corte americana, o advogado de Marin incriminou Del Nero e o identificou como o chefe do esquema de corrupção da entidade brasileira

Como o Brasil não extradita os seus cidadãos, e protegido pela inércia das autoridades brasileiras, e dos clubes, Del Nero passou dois anos e meio ainda como presidente da CBF, com exceção de um período de aproximadamente cinco meses em que se licenciou para se dedicar à defesa contra as acusações americanas. A única precaução que tomou foi não sair mais do país para evitar as garras do FBI. No sorteio da Copa do Mundo de 2018, no primeiro dia de dezembro do ano passado, o Brasil foi o único participante do Mundial russo que não contou com a presença do presidente da sua federação. 

Duas semanas depois, ele foi suspenso preventivamente pela Fifa e entregou o reinado nas mãos do Coronel Nunes, que agora assume a entidade definitivamente. Na época em que se licenciou da presidência, Del Nero articulou a eleição de Nunes para a vice-presidência da CBF. Foi uma manobra para ter um homem de confiança como vice mais velho da entidade e evitar que o opositor Delfim Peixoto fosse alçado ao poder – a idade, ninguém ainda conseguiu explicar direito o motivo, ordena a sucessão na CBF. 

Já suspenso pela Fifa, Del Nero articulou a eleição de Rogério Caboclo para sucedê-lo. Caboclo assume as rédeas das mãos de Nunes em abril de 2019. Conselheiro do São Paulo, Caboclo esteve com Del Nero na Federação Paulista e foi promovido à CBF, quando o chefe sucedeu José Maria Marin. É diretor-executivo da entidade brasileira, presidente do Comitê Organizador Local da Copa América e chefe da delegação da Seleção na Copa do Mundo da Rússia. 

Para todos os efeitos, Caboclo é um homem de confiança de Del Nero. O que nem sempre significa lealdade eterna. O próprio Del Nero não fez muito esforço para defender ou proteger Marin e vice versa. Mas até por ser um dirigente com perfil mais gestor – é conhecido como “o homem do compliance” – do que político, vale a pena prestar atenção se Del Nero, mesmo banido, não continuará a exercer influência por meio de Caboclo, como fez com Coronel Nunes e até mesmo com Marin, que o acusou de ser o comandante do esquema mesmo na época em que Del Nero era, oficialmente, apenas o segundo homem mais forte da entidade. 

Com isso em mente, essa punição, que carrega um forte fator simbólico, pode ter poucos efeitos práticos para Del Nero, que já havia se desligado das principais entidades em que trabalhava. Ao contrário, pode servir para aumentar a vista grossa que as autoridades brasileiras fazem a ele dentro do país. Nas sombras, mesmo se continuar exercendo influência, Del Nero encontra um bom abrigo para se esconder da opinião pública e da marcação da imprensa.

Ricardo Teixeira abriu mão da presidência da CBF, que ocupava desde 1989, e da vice-presidência da Fifa, diante de um escândalo de corrupção na Suíça, também é alvo de inquéritos do Fifagate e é acusado de lavar dinheiro na Espanha. O sucessor José Maria Marin, por fraude, lavagem de dinheiro e organização criminosa, está preso no Brooklyn. E agora, Marco Polo Del Nero está banido do futebol por toda a vida. Com a palavra, Carlos Alberto Parreira: 


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