Tarciso simbolizou a verdadeira alma tricolor, unindo duas eras ao Grêmio

“Vestir a camisa do clube com dignidade durante tanto tempo foi simplesmente inesquecível. O Grêmio é tudo na minha vida”.

O depoimento oferecido por Tarciso ao livro ‘A história das camisas dos 12 maiores times do Brasil’ não fala apenas sobre o peso do manto tricolor. Ela escancara o que o Grêmio representou na vida do Flecha Negra. E, em consequência, também o que o antigo ídolo fez os gremistas sentirem. Afinal, o ponta veloz e goleador marcou dois períodos distintos no Olímpico. Foi o craque em quem os tricolores confiaram ao longo de anos de seca, que oferecia alegrias efêmeras, que honrava o clube por toda a sua dedicação. Mas Tarciso também foi o veterano que serviu de referência ao time que faturou tudo. Que não apenas rompeu seu jejum no Rio Grande do Sul, como também conquistou o Brasil, a América do Sul, o Mundo. O atacante é o elo entre dois universos distintos ao gremismo. Que, no entanto, são indissociáveis para se entender o que é o Grêmio, para se explicar a paixão pelo emblema. Nos bons momentos e nos ruins, Tarciso encarnou este espírito. Foi tricolor de corpo e alma por mais de 40 anos. E, apesar de seu falecimento nesta quarta, continuará sendo, enquanto o respeito por sua história perdurar na torcida. Para sempre.

Tarciso nasceu em 15 de setembro de 1951, na pequenina São Geraldo, cidade na Zona da Mata de Minas Gerais. Filho de um ferroviário, em uma casa com mais oito irmãos, o menino tinha um grande sonho: desejava pisar no gramado do Maracanã. “Queria entrar no Maracanã de qualquer forma, queria só bater bola, não precisava ser jogador, só queria entrar lá. Na televisão, eu assistia aos jogos à noite e não acreditava que o estádio teria luz suficiente para iluminar todo o campo. Na minha cidade natal, só havia umas lâmpadas bem fraquinhas, mal e mal poderia iluminar… Eu pensava nisso tudo. Aquilo me dominava. Eu era apaixonado pelo futebol, pelo Maracanã”, contou ao site Perspectiva Online, em 2015.

Já na adolescência, Tarciso rodou por pequenos clubes do estado, como o Pontenovense, o Buchard e o Olímpio. Aos 15 anos, trabalhando como funileiro, mudou-se ao Rio de Janeiro. Tentou a sorte em uma peneira no Vasco, seu clube de infância, mas foi dispensado. Acharia seu rumo apenas no America, ingressando nas categorias de base rubras através da ajuda de Reis, ponteiro do clube e seu conterrâneo. Logo no primeiro teste, encantou o olheiro por sua velocidade. Conciliava o emprego na oficina mecânica com os gramados, até que a assinatura de seu primeiro contrato permitisse se dedicar apenas à bola, aos 17 anos.

Não demorou para que Tarciso chamasse atenção no America. Campeão estadual e artilheiro com a base em 1969, além de acumular participações pela seleção carioca de juvenis, logo ganharia sua primeira chance na equipe principal. Era um jogo contra o Botafogo, justamente no Maracanã de seus sonhos. O garoto de 19 anos, obviamente, se deslumbrou. “Entrei no segundo tempo. Tremi porque fazia minha estreia também no Maracanã. Aquele mar de bandeiras, aquele povaréu todo, me fez tremer durante uns poucos minutos, mas depois me senti como se estivesse jogando no infanto e desencabulei. Vibrei porque vencemos e quebramos um tabu: há sete anos não vencíamos o Botafogo. Meu coração transbordou de contentamento”, contou à Revista do Esporte, em 1970. Tarciso substituiu Antunes, ídolo rubro e irmão de Zico. Dando novo fôlego ao ataque, permitiu que a equipe anotasse os dois gols na vitória por 2 a 0 sobre os alvinegros. Dias depois, marcaria seu primeiro tento, contra o Bangu. Após passar pelo veterano Bauer e entregar para Edu abrir o placar, o novato fecharia a conta com um golaço, exibindo sua velocidade. Era um furacão, tal qual Jairzinho, seu grande ídolo no futebol.

A concorrência para Tarciso era grande, de qualquer maneira. O jovem de potência física e faro de gol atuava como ponta de lança, antes que evidenciasse a sua aptidão na ponta direita. “Ainda não comecei a ganhar dinheiro. Só em fevereiro de 71 é que vou pensar em chorar um pouco com os meus dirigentes. Ainda sou muito novo para criar caso por causa de contrato. O que vou procurar é cada vez mais aumentar meu crédito com seu Oto e ficar firme no time”, apontava. ‘Seu Oto’ era o lendário Oto Glória, que ajudou o mineiro a se consolidar no America e o deslocou à ponta. Em uma equipe conhecida pelo futebol vistoso, mesmo sem conquistar títulos, o prodígio se destacava: “Aquela cor vermelha é uma coisa muito séria. Vestir a camisa do America é virar fera, é querer ganhar o jogo de qualquer forma. É lutar 90 minutos sem desfalecimento”.

Tarciso continuou acumulando os seus gols pelo America, em campanhas dignas com o clube. Isso até que sua trajetória no futebol mudasse em novembro de 1972. Os cariocas viajaram ao Rio Grande do Sul para enfrentar o Internacional, em duelo válido pelo Campeonato Brasileiro. Pois o mineiro acabou com o jogo. Infernizou a defesa colorada e anotou um gol de placa para definir a vitória por 1 a 0 no Beira-Rio, quebrando a invencibilidade de nove partidas dos gaúchos. O garoto recebeu de Edu no meio. Partiu em direção ao gol, fazendo Pontes, zagueiro famoso por sua velocidade, comer poeira. Depois ainda driblou Figueroa e, na saída do goleiro Schneider, deu um toque cheio de categoria para encobri-lo. Foi o suficiente para encantar os gremistas, que buscaram a sua contratação.

De volta ao Rio, Oto Glória não demonstrava tanto interesse no atacante, taxado como individualista por alguns, e resolveu negociá-lo. Ao final de janeiro de 1973, depois de longas tratativas, Tarciso desembarcava no Olímpico. Os jornais cariocas relatavam a vibração do jogador com a notícia. Ele acreditava que poderia se projetar em Porto Alegre – e, quem sabe, cavar um espaço no Vasco de seu coração. Levado inicialmente por empréstimo, tinha o valor de sua transferência fixado para o final do ano. A transação, além do mais, envolveu a cessão de Ivo e Flecha aos rubros. Logo a nova aposta ganhou o apelido de Flecha Negra, e faria com que os gremistas se esquecessem do antecessor na ponta direita.

Tarciso estreou no Grêmio pelas mãos do técnico Milton Kuelle, ídolo histórico em seus tempos de jogador. Dias depois, o Flecha Negra já anotava seu primeiro gol, em cobrança de falta durante vitória sobre o Atlético Paranaense. Começou escalado na ponta, mas preferia mesmo jogar como centroavante e, quando o titular Oberti se machucou, aproveitou para se firmar no posto. “Meu negócio era jogar no meio, fazer gols, conquistar a massa e ganhar dinheiro. Quando Oberti se lesionou, tratei de marcar o máximo de gols nos amistosos contra times fracos. A torcida adorou”, contou à Placar, um ano depois. O novato enfrentou certas dificuldades, especialmente pela morte de sua mãe e de seu pai. Mas logo deixou sua marca. Foram 15 gols ao longo do ano, o que deu mais certeza aos gremistas sobre sua contratação e valeu sua permanência definitiva em Porto Alegre.

O novo contrato, aliás, gerou uma enorme disputa por Tarciso nos bastidores. O America reivindicava o retorno do jogador, mas o Grêmio queria exercer seu direito de compra. O imbróglio se arrastou durante alguns dias até que os dirigentes de ambos os clubes apertassem as mãos, com os gaúchos repassando também o goleiro Rogério aos cariocas. O atacante já não pensava mais no Vasco e adotava Porto Alegre como cidade de seu coração, onde nasceriam seus filhos. “No Rio, seria apenas mais um palito na caixa de fósforos. Aqui, sou conhecido e considerado. Um homem feliz”, declarou à Placar, já em 1983.

Tarciso se tornou tão considerado no Grêmio graças aos seus gols. Muitos gols. Anotou mais 23 em 1974, impressionantes 35 em 1975, outros 16 em 1976. A fome diante das redes ainda não era suficiente para que os tricolores se sagrassem campeões, no entanto. Apesar disso, ele soube como conquistar a torcida, ao compartilhar os mesmos sentimentos. “A gente, para se dar bem num lugar estanho, tem de se fazer assim. Tem de conhecer o sofrimento do pessoal da terra e sofrer junto. Por que a torcida é ligada em mim? Porque eu não conheço bola perdida e corro do início ao fim atrás da vitória”, pontuou à Placar, em 1974.

Desta maneira, o ano de 1977 representou uma transformação ao Flecha Negra e ao Olímpico. Quando estava próximo de sair ao Fluminense, questionado por uma fase ruim, o centroavante foi convencido por Telê Santana a ficar. Apesar de sua relutância, para não roubar o lugar do amigo Zequinha na equipe, voltou a ser deslocado como ponta direita. Aproveitou o máximo de sua velocidade para abrir rombos nas defesas, também com muita precisão nos cruzamentos e desenvoltura nas jogadas de linha de fundo. Atingiu o ápice de sua carreira.

O atacante começou a infernizar até mesmo o algoz Internacional. Não tinha muitos triunfos para se gabar contra os rivais, em suas duras batalhas com Figueroa. “Às vezes a arma era o cotovelo de Figueroa, que cansou de me acertar na cara”, contou, certa vez à Placar. Sofrendo com as marcações especiais para contê-lo, Tarciso até cogitou deixar a Azenha, pela sequência de frustrações no clássico. Mas a quem marcara apenas um gol em Gre-Nais durante suas primeiras quatro temporadas no clube, os três tentos assinalados durante três vitórias em 1977 mudaram seu espírito. E o melhor viria em setembro, no jogo extra da decisão do Campeonato Gaúcho.

Tarciso não conseguiu ser tão efetivo naquele encontro com o Internacional, perdendo um pênalti quando o placar ainda estava zerado. Recebeu o consolo do velho amigo Tadeu Ricci e de André Catimba, outros símbolos daquele timaço. Vinte minutos depois, o Flecha Negra participou da construção da jogada que resultou no gol do próprio Catimba. O tento que definiu a vitória por 1 a 0 e encerrou a seca gremista de oito anos no estadual, todos eles vendo os colorados triunfarem. “Aquele título nos deu o sonho. Aquele sonho de criança, em que tu vai em busca do cavalinho do Papai Noel. Pensamos que ‘se somos campeões gaúchos, podemos ser campeões brasileiros’. E a Libertadores seria um salto enorme na frente do rival”, afirmou ao Globo Esporte.

O Flecha Negra, inclusive, sequer conseguiu comemorar aquele título. Em campo, teve seu uniforme arrancado pelos torcedores que invadiram o gramado. Só de calção, chegou ao vestiário e mal tinha espaço no local, abarrotado por dirigentes e conselheiros. Com uma toalha sobre a cabeça, a passos mansos, passou desapercebido pela multidão e só parou de caminhar quando chegou ao apartamento onde morava. Só então celebrou com os seus, como contou à Rádio Gaúcha.

O momento de Tarciso era tão iluminado que seu sucesso não se conteve ao Grêmio. Em março de 1978, durante a preparação à Copa do Mundo, seu talento foi reconhecido por Cláudio Coutinho com as primeiras convocações à seleção brasileira. O Flecha Negra disputou seis amistosos com a camisa 7, mas não foi incluído no elenco final que viajou à Argentina. Disputaria ainda mais dois jogos pela Canarinho, incluindo o que marcou a estreia de Telê Santana no comando da equipe nacional, em 1980. No entanto, o mineiro não prosperaria com o antigo treinador.

Não que a Seleção tenha representando grande lacuna na carreira de Tarciso. O Grêmio era o seu universo, e por lá ele seguia fazendo história, por todo o seu esforço, por toda a sua qualidade, por todos os seus gols. O Flecha Negra conquistou o bicampeonato gaúcho em 1979 e 1980. Já outro momento inigualável aconteceu em 1981, quando o Tricolor faturou seu primeiro título no Campeonato Brasileiro. O ponta teve papel fundamental naquela campanha, autor de sete gols em 22 jogos. O mais importante veio nas semifinais, contra o timaço da Ponte Preta. Os paulistas eram favoritos em Campinas, mas os gaúchos abriram caminho à decisão com a vitória por 3 a 2. Tarciso deu a assistência para Tadei no segundo, antes de fechar a conta em um raro chute de canhota, que valeu ouro aos gremistas. Na final, festejou a façanha em cima do São Paulo. Ajoelhado no gramado do Morumbi, não escondeu as lágrimas, de quem sabia o valor daquela jornada.

“O que se passava pela cabeça de Tarciso era o mesmo que se passava pela cabeça de todos os gremistas: alívio, pelo fim de um longo tempo de angústias, e uma imensa vontade de chorar. Jogador mais antigo do elenco, testemunha e personagem de oito anos desse tempo, ele era a própria alma do Grêmio”, descreveu a Placar, na época. Ou como analisou Tarciso: “Este ano começamos mal, querendo misturar caviar no feijão com arroz, e foi ótimo que as críticas recaíssem sobre gente experiente, como eu e Leão, pois os guris foram poupados. Mas na hora do pega, todo mundo correu de uma forma emocionante. Dizem que nos jogos finais, joguei como nunca, e eu concordo. É pra isso que serve a experiência”.

Tarciso ainda encararia outros momentos de desconfiança no Grêmio. Já acima dos 30 anos, aturava as críticas da imprensa, ouvindo que estava velho. A irregularidade em suas atuações se tornavam um problema. Por isso mesmo, passou a considerar uma proposta do Palmeiras, para onde seguiria ao lado de Emerson Leão, um dos amigos que fez no Olímpico. Os rumos só mudaram a partir da chegada de Valdir Espinosa, que havia jogado com o ponta na década de 1970. “Preciso de ti”, ouviu do comandante, que insistiu na permanência. “Eu respondi que o Palmeiras iria me pagar um valor x e que o Grêmio não precisava cobrir, bastava pagar igual que eu ficava. Afinal, eu já tinha criado raízes, jogava havia dez anos no Grêmio, gostava daqui, meus filhos estudavam aqui. Eu já amava o Grêmio, que representava quase tudo pra mim. No outro dia, acertamos o meu novo contrato com o presidente Fábio Koff”, contou ao Perspectiva Online.

Apesar da firmeza transmitida por Espinosa, o treinador deixou claro que Tarciso seria reserva. O comandante contava com a experiência do medalhão dentro do elenco, mas tinha que dar espaço a um guri que começava a fazer estrago no time principal: um tal de Renato Portaluppi. “O ponta-direita Tarciso chega ao Olímpico em sua comportada Caravan branca. O ponta-direita Renato estaciona o seu incrementado Puma verde conversível, adquirido recentemente, o som a todo volume. Tarciso veste roupas discretas, calça e camisa beges, sapatos marrons. Renato está de jeans, camisa floreada e tênis”, traçava um paralelo a revista Placar, em outubro de 1982. “Resignado com o que chama de lei da natureza, Tarciso chega a ser poético: ‘As plantas nascem, florescem e morrem. Não estou triste, porque a explosão do Renato, um ex-júnior, significa que algumas das muitas árvores que o clube plantou já estão dando frutos’. Renato, ao contrário, confessa que às vezes se entristece: ‘Ver o Tarciso no banco… Sabe como é… Ele é um monumento do clube, um cara que merece jogo de despedida, placa, festa e tudo mais'”.

A torcida do Grêmio, empolgada com Renato, relegava Tarciso ao esquecimento. A história não era suficiente, diante do frenesi provocado pelo garoto. O Flecha Negra até confessou à Placar que repensava sua longa trajetória no Olímpico: “Se pudesse começar de novo, não jogaria dez anos aqui. É um desgaste mental muito grande. Cada ano te exigem mais, e a tua cabeça vai entrando em parafuso. É assim a vida: se as coisas vão mal, o culpado é quem está ali há mais tempo”. A transição na camisas 7, entretanto, deixaria suas marcas profundas – e sem que Tarciso caísse necessariamente no ostracismo. O símbolo maior deste momento aconteceu em plena Copa Libertadores.

Reserva de Renato, Tarciso tinha participado de alguns jogos da primeira fase, na qual o Grêmio terminou com a liderança de sua chave e avançou ao triangular semifinal. Fazia diferentes funções na equipe, a partir do banco de reservas. Já a estreia na segunda etapa do torneio guardava uma pedreira: o Estudiantes visitava o Estádio Olímpico. Noite que ia mal aos tricolores, diante do empate que se arrastava, com a defesa pincharrata se protegendo muito bem. No segundo tempo, Espinosa resolveu mudar o seu time. Chamou o Flecha Negra no banco. Quem sairia? Renato. Uma mudança surpreendente porque, mesmo sem viver uma exibição inspirada, o jovem era a principal alternativa ofensiva dos gaúchos.

“O Espinosa me chama e diz: ‘Vai encarar?’. E eu respondi: ‘Claro, estou aqui para isso. Se chamar de burro, vão chamar os dois’. Aí apareci lá em cima para aquecer e a vaia pegou. Começaram a gritar ‘burro, burro’… E eu pensei: ‘Para mim? Mas eu nem joguei…’. (Risos) Aí eu vou ao banco e pergunto ‘quem sai?’ e dizem que é o Renato. Pergunto se tem certeza, e a resposta é sim. Vou assinar a súmula, os repórteres me cercam perguntando quem ia sair e eu pensei: ‘Vou ter que falar agora’. Respondi e os repórteres gritam no microfone: ‘Saaaaai Renato!’. E o estádio vem abaixo”, relembrou ao Perspectiva Online. Ao menos, não demoraria para Tarciso contrariar a massa. A cinco minutos do fim, Caio fez uma baita jogada. Driblou três marcadores, com direito a um chapéu, e cruzou à meia altura. O Flecha Negra invadiu a área e mandou a bola para dentro. A vitória por 2 a 1 se tornou crucial.

“Tarciso pode não ter sido o melhor jogador do Grêmio, até porque atuou menos tempo – apenas 33 minutos. Mas sua velocidade foi fundamental para confundir a defesa bem organizada do adversário. E, para completar, marcou o gol que garantiu a vitória do Grêmio. Nota 7”, avaliou o Zero Hora. O ídolo, aliás, apaziguou qualquer rusga em sua entrevista na saída do estádio: “Venho falando que o Grêmio é um grupo unido. Não quero levar todas as honras pela vitória, pelo amor de Deus! A torcida aplaudiu o Renato quando ele saiu de campo, é isto que deve ser feito. Nunca me senti humilhado por estar na reserva do Renato, ao contrário, tenho orgulho disso, pelo valor do seu futebol. Vejam só, estas vitórias aparecem quando se acredita no trabalho; seja jogando ou permanecendo no banco. Este jogo serviu de exemplo para todos que consideram o Grêmio desunido”.

Tarciso não balançou as redes, mas fez outra grande partida duas rodadas depois, na visita ao temível América de Cali. Na semana do jogo na Colômbia, Espinosa se reuniu com os líderes do plantel e decidiu que o veterano seria o titular. Mas na ponta esquerda, no lugar de Tonho. Pois ele fez a diferença, invertendo de posição com o centroavante Caio e confundindo a marcação alvirrubra. A vitória por 2 a 1 foi mais um passo rumo à decisão. “Tarciso foi a surpresa de Valdir Espinosa, que deixou Tonho no banco e acertou na modificação. Comprovou que está em uma fase técnica excelente. Nota 8”, avaliou o Zero Hora. E o veterano também participou da famosa Batalha de La Plata, o violento empate por 3 a 3 que concluiu a participação gremista no triangular semifinal. Puxando contra-ataques, o Flecha Negra deu o passe para o primeiro gol na Argentina, antes de ser substituído por Tonho durante o tumultuado segundo tempo.

Por fim, a decisão contra o Peñarol. Tarciso foi vital à ideia de jogo aplicada por Espinosa. Mais recuado, ajudava a bloquear os ataques dos carboneros pelos flancos. Em Montevidéu, o gol de Tita no empate por 1 a 1 nasceu a partir de um escanteio cobrado pelo Flecha Negra, servindo o meia. Já no Olímpico, o veterano atuou ao longo dos 90 minutos. Representava uma importante válvula de escape ao time por sua velocidade, em amarrado duelo. Embora tenha cometido a falta que originou o gol de empate dos aurinegros, sua movimentação já tinha aberto um rombo para o primeiro gol tricolor. E no segundo, sua aparição pela ponta direita valeu bastante, ajeitando para Renato cruzar e César fuzilar às redes. O Grêmio era campeão da América. Tarciso, renascido com o clube a partir de 1977 e também durante a competição, eternizava ainda mais seu nome.

Na decisão do Mundial, contra o Hamburgo, Tarciso atuou como centroavante. Brigava por cada bola e comandava a linha de frente, acompanhado por Renato e Mário Sérgio. Durante o segundo tempo, Caio também entrou, no lugar de Paulo Cézar Caju. E a parceria do Flecha Negra com o companheiro voltou a fluir, sobretudo na prorrogação. O segundo gol no triunfo por 2 a 1, que valeu o título ao Grêmio, contou com a participação do veterano. A partir de um cruzamento de Caio, ele deu uma casquinha na bola para Renato resolver. E a energia do medalhão não se esgotou nem nos minutos restantes. Já com 32 anos, Tarciso puxava os contragolpes, aproximava os tricolores do terceiro tento. Não foi nem necessário. O planeta se pintava de preto, branco e azul.

Naquela época, a lei do passe vigente declarava que os jogadores acima dos 32 anos poderiam ficar livres para assinar com quem bem entendessem. Até cogitou-se que Tarciso buscasse novos ares, mas não era o seu desejo e nem o do Grêmio, depois de um ano tão vitorioso. O veterano seguiu no clube até 1986. Conquistou ainda mais dois títulos no Campeonato Gaúcho, cinco no total. Anotou 212 gols, segundo maior artilheiro gremista, abaixo apenas de Alcindo. Completou 721 partidas, vestindo o manto tricolor mais do que qualquer outro. E o honrou como ninguém, também por tudo o que sua trajetória simbolizava.

Tarciso jogou profissionalmente até 1990. Passou por Goiás, Cerro Porteño (onde anotou o gol do título nacional em 1987, encerrando um jejum de 10 anos), Coritiba, Goiânia e São José-RS. Chuteiras penduradas, voltou a Porto Alegre e fixou residência na cidade para a nova fase da vida. Criou uma escolinha de futebol para crianças carentes, de grande importância social. Depois, entrou para a vida pública, eleito vereador no município por três mandatos, de 2008 a 2016. Uma lenda reconhecida nas ruas pelos torcedores gremistas, e ainda com seus lampejos. Em 2009, aos 58 anos, o Flecha Negra voltou a campo no Olímpico. Participou do jogo comemorativo na despedida de Danrlei. Pois o veterano impressionou os 30 mil presentes nas arquibancadas com sua vitalidade, disparando feito um guri. Ficou a certeza de que nenhum outro preencheria tão bem as laterais daquele estádio. Que mesmo com o peso da idade, nenhum outro correria tanto quanto o velho ídolo.

Na madrugada desta quarta, veio a triste notícia. Aos 67 anos, Tarciso enfrentava um tumor ósseo. Todavia, de maneira repentina, precisou ser internado às pressas e não resistiu. As condolências ao Flecha Negra são amplas, sobretudo dos gremistas, mas também de adversários e rivais. São os torcedores que tornam sua memória eterna. Após 13 anos de serviços prestados, não existe camisa do clube sem um pouco da alma que o atacante dedicou a ela. A verdadeira alma tricolor.