O Colón promete realizar uma invasão inédita na final da Copa Sul-Americana. A Conmebol, afinal, pode dizer que deu sorte com a classificação dos sabaleros à partida única na Olla Azulgrana. Os santafesinos já vinham se mobilizando massivamente ao longo da campanha, a ponto de colocarem 10 mil pessoas no Centenario para um duelo da segunda fase. Já na decisão, o clube deve levar mais de 40 mil pessoas ao Paraguai, com cerca de 32 mil presentes nas arquibancadas. O próprio Guinness Book está atento para confirmar o que pode ficar registrado como o “maior êxodo de torcedores para um jogo internacional”. São mastodônticas as dimensões do compromisso deste sábado contra o Independiente del Valle. O Colón joga por toda a sua história – e por toda a sua paixão.

O técnico Pablo Lavallén definiu muito bem a ocasião: “Esta final é uma partida sem amanhã. É a oportunidade única de ser campeão, algo que não é fácil. Eu joguei 17 anos, em equipes importantes, e só consegui quatro vezes. O Colón levou toda a sua vida para isso. Então, é uma partida única. Uma partida que os jogadores sabem que, se tivessem que fazer uma infiltração, fariam. Seria como jogar a final da Copa do Mundo, você faz tudo o que precisa para chegar até lá. Por isso, é sem amanhã. Logicamente, a vida segue e o Colón continuará jogando. Mas essa é a grande oportunidade que todos os torcedores sonhavam, uma oportunidade que atravessa gerações. Os jogadores precisam sentir que é um privilégio poder escrever como protagonistas a página mais importante da história do Colón”.

E o tamanho da ocasião se sente ao observar a própria história do Colón, um clube da nona cidade mais populosa do país e que possui sua tradição no Campeonato Argentino, mas nunca conquistou um título de elite. Em 40 temporadas na primeira divisão, os sabaleros possuem como melhor campanha um vice no Clausura 1997. Devoção não falta nas arquibancadas, em fanatismo vivido à flor da pele na cidade interiorana. Por isso mesmo, na sexta participação internacional dos santafesinos, a torcida abraçou tão forte a causa. A fidelidade dos torcedores foi uma marca do clube desde sempre nesta memorável caminhada.

Após eliminar o Deportivo Municipal na primeira fase, o Colón sentiu que este poderia ser o seu momento, contra os uruguaios do River Plate. Como se previssem a campanha, os torcedores viajaram aos milhares a Montevidéu, para acompanhar o empate por 0 a 0 na partida de ida. Foram retribuídos com a vitória por 3 a 1 no jogo de volta, dentro do Cemitério de Elefantes. Os sabaleros também seriam capazes de superar o Argentinos Juniors nos pênaltis, antes de despacharem o Zulia de virada nas quartas de final. Por fim, o Atlético Mineiro proporcionou a oportunidade inigualável na semifinal. A torcida santafesina comemorou a vitória por 2 a 1 no Cemitério de Elefantes e compareceu em massa para ver o milagre no Mineirão. De novo nos pênaltis, o Colón chegava à sua primeira decisão continental.

A Copa Sul-Americana se tornou assunto inescapável em Santa Fe. E a mobilização atingiu o seu ápice nesta semana, onde nada mais importava. A despedida no aeroporto na última quarta colocou milhares de pessoas para uma serenata ao time. Durante os últimos dias, engarrafamentos se formaram nas estradas rumo ao Paraguai, assim como filas na fronteira e na balsa de Assunção. Segundo o jornal El Litoral, cerca de 7 mil torcedores já tinham chegado à cidade da final nesta manhã. Às 19 horas, o número saltou para 20 mil. E outros 20 mil devem aparecer em terras guaranis até o pontapé inicial, às 17h30 deste sábado.

Se os carros e os ônibus são os transportes preferidos dos torcedores do Colón, em uma viagem estimada de 11 horas, há também gente viajando de avião e até de bicicleta, como narra o La Nación. O Olé conta que a cada esquina pululam os fanáticos sabaleros. “A cada passo que você dá, a cada lugar que você vai, há um torcedor com a camisa do Colón e uma música que se faz hino: ‘Ponga huevo, sabalero, que te quiero ver campeón'”, relata o repórter Demian Meltzer. Eles ocupam diferentes cantos de Assunção, acampados sobretudo às margens do Rio Paraguai, enquanto também abundam comércios e pontos turísticos. O local maior de peregrinação é a Olla Azulgrana, o campo que pode se tornar sagrado aos sabaleros. Coincidentemente, o jardineiro do Cerro Porteño encarregado de cuidar do gramado é santafesino e torcedor dos finalistas.

O hotel onde o elenco do Colón está hospedado também é um ponto de encontro. No fim da tarde desta sexta, cerca de 1,5 mil torcedores realizaram um ‘banderazo’ para homenagear os jogadores. A equipe vive um clima mais familiar, com filhos e esposas presentes no local. Mas nem todas as famílias estão presentes. Craque do time, Pulga Rodríguez levaria 22 familiares a Assunção. Entretanto, eles decidiram não ir. Preferiram permanecer em Tucumán, cidade do camisa 10, para fazer um grande churrasco e assistir em telões. Assim permanecerão muitos santafesinos que não poderão completar a travessia.

O próprio Colón tomou suas medidas para reunir esses torcedores que ficarão em casa. O clube irá instalar dois telões, um na esplanada do Cemitério de Elefantes e outro no campo auxiliar. O evento deverá receber mais alguns milhares de sabaleros, em número que deverá aumentar muito mais em caso de título. Ali, os santafesinos esperam iniciar sua concentração para receber também os campeões.

Dentro de campo, o Colón contará com os seus principais heróis. Decisivo contra o Atlético Mineiro, o goleiro Leonardo Burián comanda a defesa. No meio, os experientes Fernando Zuqui e Marcelo Estigarribia são peças importantes. Mais à frente, as esperanças se concentram na categoria de Pulga Rodríguez e no faro de gol do colombiano Wilson Morelo. Uma base com rodagem nas competições continentais e que garante força aos sabaleros, mesmo que não apresentem um futebol de tanta qualidade. A única notícia ruim ficou para a ausência de Rodrigo Aliendro, outro jogador notável, que se lesionou no último treino ao participar das cobranças de pênalti. Ao menos, os santafesinos se inflarão com a multidão do lado de fora.

Até pelo nível de imprevisibilidade desta Copa Sul-Americana, é difícil fazer qualquer prognóstico sobre a decisão. O Independiente del Valle apresentou um futebol mais vistoso, mas não se pode descartar o Colón, com jogadores mais renomados. E, sobretudo, por causa da torcida que lotará as arquibancadas. Os santafesinos sabem muito bem o valor deste momento, mesmo que esta seja a primeira participação do time em uma final continental. A um clube que nunca precisou de grandes títulos para viver de paixão, e que viu sua torcida resistir mesmo nas provações do descenso ou de uma quase falência, a Olla Azulgrana é o palco ideal para exibir toda essa fidelidade. Quem sabe, com um título, que premiaria tamanha devoção.