As dificuldades enfrentadas pelo Olimpia na campanha rumo à final da Libertadores foram marcantes, mas nada suficiente para deixar o Rey de Copas pelo caminho. Os franjeados tiveram boa parte do elenco montado às vésperas do torneio, viveram uma mudança na presidência durante a campanha, atravessam meses sem ter os salários pagos e alguns jogadores até bancaram do próprio bolso alguns custos. Porém, nada tão doloroso e tão fortificante quanto a saída de Sebastián Ariosa.

O baque aconteceu em maio, logo após o empate por 0 a 0 contra o Fluminense, no jogo de ida das quartas de final. Peça fundamental no Olimpia desde 2011, ajudando a quebrar o jejum de mais de uma década sem títulos no Campeonato Paraguaio, o ala esquerdo foi diagnosticado com câncer. ‘El Trufa’ interromperia a carreira, o sonho de conquistar a América, para iniciar uma luta pela vida.

Ariosa já tinha uma trajetória marcada por percalços e superações. Em 2007, quando ainda atuava pelo Defensor, foi pego no doping por cocaína e foi suspenso por seis meses. Deu a volta por cima a ponto de ser convocado por Óscar Tabárez, às vésperas da Copa de 2010. Há um ano, já no Olimpia, foi colocado na lista de transferências pelo técnico Gerardo Boca Arias. Acabou bancado pelos franjeados. Em janeiro, Ever Hugo Almeida quase o dispensou, ao se atrasar na reapresentação. Resolvido o imbróglio, colocou-se como um dos pilares do técnico no ótimo arranque na Libertadores.

Ariosa, contra o Tigre, um de seus últimos jogos
Ariosa, contra o Tigre, um de seus últimos jogos

O histórico de indisciplina colocou o atleta em xeque uma inesperada viagem ao Uruguai antes da partida contra o Fluminense. O problema, no entanto, era bem mais sério. Dias depois, Ariosa revelou aos companheiros a descoberta do câncer no mediastino, próximo ao coração. Por conta da doença, o defensor teve sangramentos após o confronto com o Tigre, nas oitavas, precisando ser tratado nos vestiários. Depois disso, a comissão técnica o ordenou a passar por exames mais rigorosos, chegando ao diagnóstico.

A intenção de Ariosa era manter o problema longe da mídia e do público. Todavia, o presidente Oscar Caríssimo Netto acabou abrindo a questão em entrevista a uma rádio. Causou a revolta do elenco e do próprio uruguaio, que confirmou a história à imprensa e ressaltou que não recebia seus salários havia nove meses. Pouco depois, o Olimpia se comprometeu a pagar a dívida e também custear os gastos médicos.

Força e fé do Decano

A partir de então, mais do que a honra de ser campeão, a campanha do Olimpia na Libertadores passou a ser uma dedicatória a Ariosa. “Já chorei tudo o que tinha que chorar, agora começo a dar duro”, prometeu o técnico Ever Hugo Almeida. Na partida de volta contra o Fluminense, os jogadores foram a campo com a camisa 4, número do uruguaio. E, confirmada a classificação, as homenagens a Trufa continuaram evidentes.

Enquanto o Olimpia se preparava para as semifinais, Ariosa iniciava o tratamento. Recebeu a visita de alguns colegas, entre eles Juan Manuel Salgueiro e Carlos Humberto Paredes. “Meus companheiros estão cientes do meu estado de saúde e de ânimo. Isso se valoriza muito”, contou o uruguaio, em junho. “Estou contente por formar este elenco do Olimpia e me alegro que vá bem na Copa. Eu me sinto mais um. Vivi o dia do jogo contra o Fluminense como se estivesse em campo”.

Torcedores do Olimpia homenageiam 'Trufa' Ariosa
Torcedores do Olimpia homenageiam ‘Trufa’ Ariosa

E a luta de Ariosa reflete diretamente no elenco do Olimpia. Após a classificação para a final, no sofrido jogo contra o Independiente Santa Fe, os gritos nos vestiários eram de “ole, ole, ole, ole,Trufa, Trufa”. Já na última quarta, a partir da vitória sobre o Atlético Mineiro, o meio-campista Eduardo Aranda prometeu que, “se o Olimpia obtém a quarta Libertadores, vai ao Uruguai para dedicar e mostrar a taça a Sebastián”. Hospitalizado, o uruguaio acompanhou o jogo no Defensores del Chaco através do celular de sua esposa.

Ariosa ainda manifestou o desejo de estar presente no Mineirão. Quem sabe, para fazer como Eric Abidal na decisão da Liga dos Campeões de 2011, que recebeu dos companheiros a chance de levantar a taça, enquanto lutava contra um câncer. Entretanto, apesar dos esforços do Olimpia, os médicos vetaram sua saída do hospital. O defensor terá que assistir ao capítulo final dessa história de seu leito. O que não diminui sua importância dentro da campanha do Olimpia, principalmente sobre o espírito do time nesta reta decisiva da Libertadores.