O fanatismo dos turcos pelo futebol pode ser comparado com pouquíssimos outros povos ao redor do planeta. A atmosfera incendiária nos estádios do país prova tal afirmação com frequência. E uma data especialíssima a esta paixão incontrolável se deu há 20 anos, em 17 de maio de 2000, quando o Galatasaray se tornou o primeiro (e, ainda hoje, o único) clube da Turquia a conquistar uma competição europeia. O título da Copa da Uefa em 1999/00 possui um enredo denso, com histórias de superação, mas também de violência entre torcidas. Mas, ao final, prevaleceu a qualidade de um timaço. Aquele esquadrão dos Leões pode ser considerado o maior do futebol turco em todos os tempos, entre suas estrelas internacionais e seus símbolos nacionais. Não à toa, o sucesso se refletiria na própria seleção da Turquia em 2002.

Uma das forças dominantes do Campeonato Turco desde os primórdios, o Galatasaray possuía um histórico notável nas competições europeias ao longo do Século XX. Os Leões somavam 28 participações nos três torneios continentais, em trajetória que começou na Copa dos Campeões de 1956/57. As campanhas só não costumavam ser muito longas. Durante as primeiras décadas, os melhores desempenhos foram duas aparições nas quartas de final da Champions, em 1962/63 (eliminados pelo futuro campeão Milan) e em 1969/70 (quando caíram para o Legia Varsóvia). O primeiro sinal de que o clube poderia construir uma representatividade continental maior aconteceu em 1988/89. Naquela Champions, os turcos só pararam nas semifinais.

Liderado pelo artilheiro Tanju Çolak e pelo técnico Mustafa Denizli, o Galatasaray eliminou Rapid Viena e Neuchâtel Xamax durante as fases iniciais. O grande feito da campanha ocorreria nas quartas de final, quando os Leões superaram o Monaco. Treinados por Arsène Wenger, os monegascos contavam com uma equipe forte, incluindo Mark Hateley e George Weah no ataque. Os turcos venceram por 1 a 0 dentro do principado, antes de segurarem o empate por 1 a 1 em Istambul. Porém, o sonho se encerraria nas semifinais. O Steaua Bucareste contava com uma equipe fortíssima na época, apoiada pela ditadura romena e que formava a base da seleção. Os campeões europeus de 1986 golearam por 4 a 0 na ida em Bucareste e se confirmaram na decisão graças ao empate por 1 a 1 na Turquia. Gheorghe Hagi brilhou naqueles embates.

A campanha do Galatasaray, além da importância ao clube, também refletia o momento do futebol turco. A seleção seria assumida meses depois por Sepp Piontek, treinador que transformou a Dinamarca em máquina e também lançaria as bases de uma modernização na Turquia, com investimentos em estrutura e olhares mais amplos aos talentos imigrantes. Enquanto isso, o Campeonato Turco se abria mais a destaques estrangeiros, e o intercâmbio beneficiaria os clubes. Contratado pelo Fenerbahçe, Toni Schumacher seria o grande destaque dentre esses reforços. Enquanto isso, o Malatyaspor montou uma colônia brasileira com o goleiro Carlos, Éder Aleixo e Serginho Chulapa.

Neste contexto de crescimento, o Galatasaray emendou uma sequência de participações ininterruptas nas copas europeias a partir de 1991/92. E conseguiu alguns desempenhos destacados. Esta série bem-sucedida começou com a trajetória até as quartas de final da Recopa Europeia em 1991/92. Já o maior feito aconteceu em 1993/94, quando os Leões retornaram à Champions. Com dois empates, os turcos eliminaram o Manchester United na última fase preliminar e se garantiram na fase de grupos pela primeira vez. Seria um embate mítico, especialmente pelo “inferno” criado nas arquibancadas do Estádio Ali Sami Yen para intimidar os Red Devils. Já em 1994/95, os turcos repetiriam a presença na etapa principal da competição, quando chegaram a vencer o Barcelona no grupo, mas sem passar aos mata-matas.

Quarto colocado no Campeonato Turco em 1995/96, o Galatasaray não viu o trabalho de Graeme Souness prosperar e decidiu contratar um novo treinador para a temporada seguinte. E, neste momento, a era vitoriosa começava a ser construída em Istambul. A diretoria acertou o retorno de Fatih Terim, ídolo do clube em seus tempos de jogador. Líbero com nível de seleção, Terim atuou pelos Leões de 1974 a 1985. O curioso é que o antigo capitão nunca pôde erguer a taça da Süper Lig, presente durante quase todo o jejum que perduraria de 1973 a 1987.

Após se aposentar dos gramados, Fatih Terim se tornou assistente de Jupp Derwall, treinador do Galatasaray nos anos 1980. O antigo comandante da seleção alemã-ocidental seria importante para trazer uma visão mais profissional ao clube, ainda se tornando capaz de encerrar a seca de títulos na Süper Lig. Como técnico principal, Terim viveria tímidas passagens por clubes menores, até se tornar justamente o assistente de Sepp Piontek na seleção turca em 1990. O ex-líbero dirigia simultaneamente a equipe nacional sub-21 e, quando o mestre deixou o cargo em 1993, o aprendiz assumiu sua posição. Apesar da experiência relativamente curta na profissão, seria Terim o responsável por levar a Turquia para a Euro 1996 – o primeiro torneio internacional do país em 42 anos. Aproveitou as sementes plantadas por Piontek, bem como a geração que aprimorou desde a base.

Fatih Terim havia acertado com o Galatasaray antes mesmo da Eurocopa. Passou a gerar expectativas imensas no clube, especialmente porque tinha trabalhado com alguns de seus novos atletas na equipe nacional. O atacante Hakan Sükür e o meio-campista Tugay Kerimoglu eram as principais figuras, titulares nas três partidas da campanha europeia. O elenco ainda contava com o atacante Arif Erdem e o zagueiro Bülent Korkmaz, substitutos ocasionais na Euro. E os Leões se mexeram no mercado, trazendo reforços. As atenções se concentravam em Gheorghe Hagi, o velho carrasco da Champions de 1988/89.

Hagi era um craque e quem havia acompanhado suas aparições na Copa do Mundo de 1994 não podia negar isso. Mas também era um jogador de altos e baixos, que não conseguiu se firmar nos grandes centros da Europa. Levado pelo Barcelona depois do Mundial, permaneceria durante dois anos na Catalunha, até ser negociado sem deixar muitas saudades. O Galatasaray ganhava um camisa 10 veterano, mas pronto a fazer o clube subir de patamar. Enquanto isso, o próprio Hagi veria a chance de alavancar a carreira para uma última boa impressão, calando os críticos. O armador era dado como acabado por muitos e até surgiram rumores de que ele, na verdade, era quatro anos mais velho do que seus documentos apontavam. A resposta se deu em campo. Os jovens romenos Iulian Filipescu e Adrian Ilie o acompanhariam.

O Galatasaray de Fatih Terim precisou de uma temporada para emplacar. O sonhado título do Campeonato Turco chegou para o agora treinador logo em 1996/97. Os Leões fizeram uma campanha irreparável, fechando as 34 rodadas com oito pontos de vantagem sobre o vice, o Besiktas. Sükür estava voando e anotou assombrosos 38 gols em 32 aparições. Tão importante quanto, Hagi se mostrou disposto a honrar a camisa 10. Centralizando a armação e dando uma qualidade a mais na definição, o meia de 31 anos contribuiu com 14 gols e 10 assistências – incluindo algumas pinturas e passes magistrais, característicos de sua genialidade. Em um elenco no qual a maioria dos titulares não superava os 25 anos, o sucesso poderia ser maior.

Para a temporada 1997/98, o Galatasaray ficou um pouco mais forte com a contratação de Gheorghe Popescu, outra lenda da seleção romena – por mais que Adrian Ilie tenha sido negociado com o Valencia. A equipe chegou mais uma vez à fase de grupos da Champions League, mas sucumbiu na chave que também contava com Borussia Dortmund e Parma. Ao menos viria o bicampeonato turco, com uma campanha um pouco menos dominante. Sükür, de novo, foi um diferencial ao elenco, com 32 gols na Süper Lig.

Até então, o Galatasaray enfrentava um problema no gol. Mesmo com os dois títulos seguidos na liga, não havia estabilidade na posição. A solução ocorreu após a Copa do Mundo de 1998, quando o clube resolveu contratar Taffarel, que estava no Atlético Mineiro. O brasileiro tinha 32 anos, mas o desempenho na França deixava claro que ele poderia atuar em altíssimo nível. Unia experiência e segurança, além de um poder de decisão mais do que comprovado em grandes competições. Ao seu lado, outra novidade no mercado foi Hasan Sas, atacante de 21 anos que despontava no Ankaragücü e mantinha a política dos Leões em concentrar seus investimentos em jovens talentos locais. Seria também essencial.

Não havia quem desbancasse o Galatasaray na Turquia, tricampeão nacional em 1998/99. De novo a equipe apareceu na fase de grupos da Champions e segurou dois empates contra a forte Juventus, mas sem avançar à próxima etapa. Faltava algo a mais, mas o time se aprimorava gradualmente. A presença de Taffarel motivaria a contratação de mais brasileiros no verão de 1999, com as chegadas de Capone e Márcio Mixirica, cheios de moral após a surpreendente conquista da Copa do Brasil pelo Juventude. Bruno Quadros também veio do Flamengo, mas acabou emprestado por causa do limite a estrangeiros. Ao lado de outros reforços pontuais, terminariam de alavancar os turcos no cenário europeu.

Quando iniciou a temporada de 1999/00, o Galatasaray tinha uma mescla muito interessante entre a experiência internacional dos medalhões de seu elenco e o sangue jovem que representava a ascensão do futebol turco. Taffarel mantinha a titularidade absoluta no gol. A defesa contava com a liderança de Popescu e também de Bülent Korkmaz, zagueiro que estava no elenco desde as semifinais da Champions de 1988/89 e usava a braçadeira de capitão. Capone chegou como zagueiro, mas costumava ser utilizado na lateral direita. As laterais, aliás, estavam muito bem servidas. Fatih Akyel, Ergün Penbe e Hakan Ünsal eram alternativas que figuravam constantemente na seleção e disputariam a Copa do Mundo.

O meio-campo também era repleto de selecionáveis. Fatih Terim costumava desenhar um losango com quatro jogadores no setor, posicionando Hagi atrás dos atacantes. Na rotação também entravam Suat Kaya, Okan Buruk, Ümit Davala e Emre Belözoglu – este, despontando aos 18 anos. O volante Tugay Kerimoglu seria outro mundialista por ali, mas deixaria o Galatasaray em janeiro de 2000, ao aceitar uma proposta do Rangers. Já na linha de frente, muitas opções à dupla principal. Hakan Sükür era praticamente intocável, com sua fase inspiradíssima. Hasan Sas e Arif Erdem ofereciam diferentes combinações, entre a energia do primeiro e a presença de área do segundo. Já Márcio Mixirica era bastante utilizado a partir do banco de reservas, no segundo tempo dos jogos.

Com um elenco muito forte, o Galatasaray tinha fôlego de sobra para encarar a dupla jornada, entre o Campeonato Turco e a Liga dos Campeões. A equipe começou eliminando o Rapid Viena nas preliminares do torneio continental. Contudo, a primeira metade da temporada seria agridoce no Estádio Ali Sami Yen. Na Süper Lig, os Leões eram devastadores. Apesar da derrota para o Gaziantepspor na estreia, o time não perdeu mais durante o primeiro turno. Seriam 13 vitórias, que permitiriam o simbólico “título de inverno” com 11 pontos de vantagem sobre o vice-líder Besiktas. O problema estaria mesmo na Champions, em grupo bastante cascudo.

O Galatasaray encarou Hertha Berlim, Milan e Chelsea naquela primeira fase. Os turcos iniciaram a jornada com um empate em casa contra os alemães, 2 a 2, precisando buscar o prejuízo após sofrerem dois tentos logo de cara. Na visita ao San Siro, Leonardo e Andriy Shevchenko construíram o triunfo italiano por 2 a 1. E a viagem a Stamford Bridge também seria infeliz, com o gol de Dan Petrescu no 1 a 0 do Chelsea. Mas nada comparado com os 5 a 0 enfiados pelos Blues no próprio Estádio Ali Sami Yen. Tore André Flo e Gianfranco Zola comandaram o massacre dos ingleses. Suspenso, Taffarel não atuou. Alguns jornais já pediam a demissão de Fatih Terim.

Com apenas um ponto, o Galatasaray não conseguiria mais a classificação às oitavas de final nas duas últimas rodadas. Todavia, aquela temporada oferecia uma sobrevida à equipe. A Uefa havia realizado uma grande reforma nas competições europeias para 1999/00. A Liga dos Campeões ampliou sua fase de grupos e passou a abrigar mais equipes por liga nacional; a Recopa Europeia foi extinta; já a Copa da Uefa também se ampliou significativamente. O torneio passou a absorver não apenas os vencedores das copas nacionais, mas também começou a repescar os eliminados na fase de grupos da Champions. Os Leões se beneficiariam do processo.

Assim, a conquista da Copa da Uefa teve seu ponto de partida na reação para evitar o desastre na Champions. Na quinta rodada, o Galatasaray goleou o Hertha por 4 a 1, com dois tentos de Sükür no Estádio Olímpico de Berlim. Já a “decisão” aconteceu contra o Milan, em Istambul. Os rossoneri tinham chances de avançar aos mata-matas da Champions, mas para isso precisavam vencer e torcer para que o duelo entre Chelsea x Hertha não terminasse com empate. No fim das contas, os Leões ganharam o emocionante duelo por 3 a 2, abocanharam a terceira colocação e deixaram os italianos na lanterna do Grupo H.

George Weah abriu o placar para o Milan aos 20 minutos. Logo depois, Shevchenko saiu na cara do gol, mas Taffarel salvou o segundo com uma defesaça. Capone trouxe alívio e empatou ao Galatasaray na sequência, até que Federico Giunti retomasse a vantagem dos visitantes no início do segundo tempo, permitindo por ora a classificação aos milanistas. Os Leões precisaram perseverar e seriam capazes do milagre apenas no fim. A reação heroica se desencadeou a partir dos 42, com Sükür anotando um gol de cabeça. Já aos 45, Davala converteu o pênalti que confirmou o agônico triunfo, botando os turcos na Copa da Uefa. Aquela vitória rendeu uma celebração tremenda em Istambul. Os torcedores do Galatasaray pareciam pressentir algo. “Nunca vi uma festa como aquela. Não conseguíamos chegar em casa, porque todo mundo saiu para a rua”, afirmou Márcio Mixirica, em entrevista à Placar na época.

Assim como os demais repescados da Champions, o Galatasaray entraria diretamente na terceira fase, equivalente aos 16-avos de final. E o primeiro desafio aconteceu pouco depois da vitória sobre o Milan, em novembro de 1999. O Bologna seria mais um italiano no caminho de Fatih Terim. Treinados por Francesco Guidolin, os rossoblù tinham uma equipe bastante tarimbada na época – que venceu um jogo-desempate contra a Internazionale na Serie A anterior para se classificar à Copa da Uefa. Gianluca Pagliuca era o goleiro e Giuseppe Signori comandava o ataque, enquanto o meio-campo reunia Klas Ingesson e Zé Elias.

O Galatasaray voltou satisfeito da Itália, com o empate por 1 a 1. Signori abriu o placar no segundo tempo, enquanto Sükür empatou com mais uma cabeçada. Os rossoblù ainda poderiam ter marcado o segundo tento nos acréscimos, não fosse a bola salva em cima da linha por Capone. A volta contou com uma atmosfera incendiária no Ali Sami Yen. O primeiro gol do Galatasaray se deu logo aos cinco minutos. Okan Buruk fez jogadaça pela direita e cruzou. Hasan Sas dominou com estilo e bateu com o peito do pé para vencer Pagliuca. A resposta do Bologna seria imediata, com o empate de Nicola Ventola. Mas a vitória por 2 a 1 teria sua definição aos 30 do primeiro tempo. Emre lançou e Davala escorou na área, com um chute cruzado. Taffarel seria bastante exigido no fim, contendo a pressão do Bologna, que ainda terminou com um homem a menos.

Classificado às oitavas de final, o Galatasaray precisou esperar um bom tempo para seguir sua vida na Copa da Uefa. A próxima fase aconteceria apenas no início de março. Quando o torneio continental recomeçou, os Leões seguiam sobrando na Süper Lig, com os mesmos 11 pontos de vantagem na liderança e uma invencibilidade que durava 21 rodadas. O oponente no torneio europeu era um velho conhecido: o Borussia Dortmund, que atravessava um momento de transição. Jürgen Kohler e Lars Ricken eram os remanescentes do time campeão europeu em 1997. Jens Lehmann, Evanílson, Dedê e Victor Ikpeba ampliavam destaques do período.

A Muralha Amarela do Westfalenstadion não intimidou o Galatasaray no primeiro jogo. Pelo contrário, os imigrantes e descendentes turcos na região dominaram as arquibancadas, espalhados por todos os cantos. “Pedimos um espaço no estádio para nossos torcedores, mas o Dortmund rejeitou. Ofereceu apenas um pequeno setor atrás do gol. Antes da partida, olhei em volta e notei algo: estávamos cercados pelos turcos, todos carregando bandeiras da Turquia e do Galatasaray. Soubemos mais tarde que nossos torcedores pagaram duas ou três vezes mais para conseguirem ingressos com os sócios-torcedores, apenas para essa partida”, contou Mehmet Cansun, ex-dirigente do clube, em documentário sobre o título. Segundo a revista Placar, mais de 30 mil espectadores de origem turca estiveram presentes naquele duelo.

Empurrados pelos “anfitriões”, o Galatasaray venceu por 2 a 0 e amassou o Dortmund desde o primeiro tempo. Depois de várias boas chances, o primeiro gol saiu aos 32 minutos. Sükür dominou na área e mandou um foguete contra as redes. E o craque da noite apareceria pouco depois, para ampliar. Comendo a bola naquela partida, Gheorghe Hagi passou no meio de dois e contou com um desvio na marcação para vencer Lehmann. O romeno seguiu infernizando a zaga com seus dribles durante o segundo tempo, mas sem aumentar a contagem. Já o apito final rendeu uma cena emblemática: centenas de torcedores turcos invadiram o campo e deram uma volta olímpica com bandeiras de seu país. No retorno a Istambul, prevaleceu o empate por 0 a 0, em que Lehmann evitou um prejuízo maior aos alemães.

O adversário nas quartas de final era menos tradicional, mas inspirava seus cuidados. O Mallorca vinha do vice-campeonato na última edição da Recopa Europeia e fazia boas campanhas no Campeonato Espanhol. Léo Franco, Miguel Ángel Nadal, Paco Soler, Laurén e Diego Tristán formavam a espinha dorsal dos bermellones. Mas aquela não seria a jornada mais feliz aos ibéricos. O Galatasaray dominou as duas partidas e começou a encaminhar sua classificação fora de casa, com uma goleada por 4 a 1 no Estádio Son Moix.

Léo Franco sofreria naquela noite. Arif Erdem abriu o placar com um golaço por cobertura no fim do primeiro tempo. Já na volta do intervalo, Emre fez ainda mais bonito, com outro chute por cima do arqueiro argentino. O terceiro? Por cobertura, em contra-ataque arrematado por Sükür. E no quarto, Okan driblou o goleiro, antes de bater às redes vazias. Laurén só descontou depois disso. A volta, novamente com festa no Sami Ali Yen, seria mais tranquila. Os Leões ganharam por 2 a 1. Capone inaugurou o marcador na primeira etapa, antes de Sükür deixar o seu no segundo tempo. Carlitos descontou ao Mallorca, que só não sofreu outra goleada porque os turcos desperdiçaram vários contra-ataques no final.

A semifinal colocaria o Leeds United no caminho do Galatasaray. Era um adversário de peso, que naquele momento ocupava a segunda colocação da Premier League, embora distante do líder Manchester United. O ponto forte da equipe de David O’Leary era a defesa, com vários jogadores de seleções. Nigel Martyn vestia a camisa 1, com o ídolo Lucas Radebe e Jonathan Woodgate formando a dupla de zaga. Lee Bowyer e Harry Kewell eram jovens valores no meio-campo. E o comando de ataque ficava sob a responsabilidade de Michael Bridges. Aqueles embates, entretanto, seriam bem mais marcados pelo que ocorreu fora de campo.

A primeira partida aconteceu na Turquia e o risco de brigas entre as torcidas levou mais de 4 mil policiais a ocuparem as ruas. Ainda assim, durante a véspera, houve um grande confronto quando torcedores do Leeds saíam de um bar na Praça Taksim – a principal de Istambul. Dois torcedores ingleses morreram esfaqueados, atacados por um torcedor turco que acabaria condenado a 15 anos de prisão – embora só tenha cumprido quatro anos de pena. Cerca de 15 minutos antes da partida, os nomes de ambos os mortos seriam anunciados nos alto-falantes do Estádio Sami Ali Yen, mas não ocorreu um minuto de silêncio oficial, apesar do luto guardado pelos jogadores dos Whites em campo. O Galatasaray, por sua vez, ofereceu condolências.

“As únicas opções que tínhamos era seguir em frente com o jogo ou paralisar a competição. Depois de consultarmos a Uefa e a FA, decidimos seguir em frente. Foi difícil focar e nos sentimos entorpecidos. O jogo não tinha muito sentido. Você não pode comparar duas vidas com uma partida de futebol”, declarou o presidente do Leeds, Peter Risdale. Quando a bola rolou, as duas equipes fizeram uma partida nervosa, mas sem incidentes. O Galatasaray venceu por 2 a 0. Sükür marcou o primeiro aos nove minutos, subindo livre na área para cabecear. Aos 44, uma bola alçada na área permitiu mais um gol de Capone. Já no segundo tempo, os Whites poderiam ter descontado, mas pararam em Taffarel.

O reencontro, logicamente, seria envolto pela apreensão. O Leeds proibiu a torcida visitante em Elland Road, uma medida ratificada pela Uefa e acatada pelo Galatasaray. Já nas tribunas, os torcedores ingleses hostilizavam os jogadores adversários, por mais que eles tentassem demonstrar sua solidariedade. Neste contexto, o duelo se tornaria ainda mais pegado. Hagi ampliou a vantagem dos Leões com o primeiro gol, cobrando pênalti aos cinco minutos. Eirik Bakke empatou aos 15, completando de cabeça uma cobrança de escanteio. E a virada não saiu porque Taffarel operaria seus milagres. O goleiro fez uma defesa incrível em cabeçada de Ian Harte, rumo ao chão, e depois ainda desviou com o joelho uma pancada de Bakke à queima-roupa. Abriu alas para que os turcos retomassem a dianteira no marcador.

Sükür anotou um golaço aos 43 minutos, em rápido contra-ataque do Galatasaray. Lançado por Hagi, o centroavante disparou e, dentro da área, deu um corte seco em cima do marcador ao ajeitar a bola. Livrou-se de mais um adversário na sequência e, num movimento difícil, conseguiu chutar no cantinho de Nigel Martyn. Antes do intervalo, duas faltas duríssimas resultaram em vermelhos para Kewell e Emre. O Leeds aumentou a pressão no segundo tempo, mas Taffarel continuava colecionando defesaças. Porém, uma saída errada do arqueiro culminou no empate de Bakke, aos 22. Durante os minutos finais, Taffarel se redimiu com intervenções seguras, enquanto seus companheiros também prendiam a bola na frente. O apito final seria seguido de sonoras vaias da torcida em Elland Road: com o empate por 2 a 2, os turcos avançavam à final.

A decisão estava marcada para quatro semanas depois. Neste intervalo, o Galatasaray voltou sua cabeça ao futebol doméstico. A invencibilidade na Süper Lig havia sido encerrada com uma derrota no clássico para o Fenerbahçe em março e os Leões passaram a acumular empates. Apesar disso, por mais que a concorrência reduzisse a diferença, a taça coroou mesmo o inédito tetracampeonato no país. O Galatasaray perdeu seu compromisso na penúltima rodada para o Altay, sua terceira derrota na campanha. Acabaria ajudado pelo próprio Fener, que venceu o Besiktas dois dias depois e encerrou as chances matemáticas dos alvinegros. Antes disso, os comandados de Fatih Terim haviam levado também a Copa da Turquia, batendo por 5 a 3 o Antalyaspor, em final que se estendeu até a prorrogação.

Com duas novas taças no bolso, o Galatasaray viajou a Copenhague para a decisão da Copa da Uefa. Enfrentaria o Arsenal, que também sucumbiu na fase de grupos da Champions, antes de embalar no torneio secundário – deixando pelo caminho fortes equipes do Deportivo de La Coruña e do Lens. Arsène Wenger, derrotado pelos turcos com o Monaco em 1988/89, teria a sua chance de revanche. E os Gunners eram bem mais qualificados à missão. David Seaman era o goleiro, em defesa liderada por Tony Adams. Patrick Vieira e Emmanuel Petit fechavam o meio-campo, com Ray Parlour e Marc Overmars abertos nas pontas. E o ataque reunia dois ídolos: o consagrado Dennis Bergkamp e o novato Thierry Henry, em seu primeiro ano com os londrinos. No banco, ainda havia as opções de Davor Suker e Nwankwo Kanu.

Fatih Terim confessa que seguiu com dúvidas sobre sua escalação até horas antes do pontapé inicial. “Aquele jogo era como uma guerra. Uma guerra tática. Na minha opinião, aquele era um dos melhores times do Arsenal, um dos melhores do mundo nos últimos 20 anos. Antes da final, assisti a um jogo deles contra o Chelsea em Highbury. Disse à minha mulher: ‘Eles são muito bons! Como vamos conseguir vencer? Como vamos marcá-los? Todo mundo precisa marcar’. Nós tínhamos apenas uma escolha: jogar a partida”, contou o treinador, à revista Blizzard. Terim chegaria a fazer um treino tático na tarde da final, de tão preocupado.

Todavia, o treinador não abria mão de sua mentalidade ofensiva. Os ensinamentos que tomou de Piontek eram visíveis no Galatasaray: uma equipe dinâmica, que iniciava sua pressão no campo de ataque e era muito rápida nas transições, atacando em blocos. Os Leões não mudavam sua postura, mesmo quando atuavam fora de casa. E não seria a constatação sobre a qualidade do Arsenal que alteraria a filosofia de Fatih Terim – o comandante meticuloso em suas estratégias, que fazia a equipe cheia de individualidades e personalidades fortes se portar muito bem coletivamente. O time da final entrou com Taffarel no gol. A defesa contou com Capone, Popescu, Bülent Korkmaz e Ergün Penbe. No meio, Suat Kaya fazia a proteção na cabeça de área, com Ümit Davala e Okan Buruk abertos dos lados. Hagi era o armador centralizado, distribuindo os passes a Hakan Sükür e Arif Erdem na frente.

Antes que a bola rolasse no Estádio Parken, a violência das torcidas também marcaria a decisão. Os ingleses queriam vingança. As firmas de torcedores do Arsenal viajaram a Copenhague “reforçadas” por hooligans de outros clubes – do próprio Leeds United, bem como de Chelsea, Rangers, Cardiff e Swansea. Já os ultras do Galatasaray contaram com o apoio de imigrantes turcos vivendo na região. O policiamento dinamarquês estava reforçado por agentes turcos e britânicos, o que não evitou novos conflitos. Quatro pessoas foram esfaqueadas, 19 terminaram machucadas e a polícia prendeu 60 torcedores. Comércios também foram danificados, inclusive turcos, enquanto uma família de refugiados kosovares foi ameaçada por engano pelos ingleses. O Arsenal baniria 37 indivíduos de suas arquibancadas por envolvimento nos confrontos.

O Estádio Parken, ao menos, se viu livre da violência – com uma baita festa dos turcos em seu setor nas arquibancadas. E a bola rolou para um duelo intenso entre duas boas equipes, embora o empate por 0 a 0 não tenha saído do placar. O Galatasaray fez um primeiro tempo mais agressivo e criou mais chances de gol, embora Taffarel tenha realizado uma grande defesa aos 35 minutos. Overmars bateu no cantinho e o brasileiro foi buscar, espalmando para escanteio. De qualquer maneira, os Leões perderiam a oportunidade mais clara antes do intervalo. Sükür passou a Arif Erdem e Tony Adams vacilou na linha de impedimento, deixando o adversário em posição legal. Sozinho dentro da área, o atacante mandou para fora.

Logo aos três minutos do segundo tempo, o Galatasaray ainda mandou uma bola na trave, com Sükür. A etapa complementar seria mais aberta, com os dois times se soltando. Martin Keown jogou fora um lance precioso ao Arsenal, ao receber na risca da pequena área e pegar por baixo da bola, isolando. Se de um lado os turcos viam seus contragolpes serem travados pela defesa, do outro faltava um pouco mais de precisão e força nos arremates dos ingleses. A última esperança de evitar a prorrogação caiu nos pés de Sükür, aos 41, quando o artilheiro recebeu um lançamento nas costas da zaga. Contudo, escorregou na hora de arrematar e facilitou a Seaman. Seriam jogados mais 30 minutos, com a regra do gol de ouro.

O primeiro tempo extra não começaria bem ao Galatasaray. Hagi não fazia uma partida muito efetiva e, pior, prejudicou o time aos quatro minutos. O camisa 10 se enroscou com Tony Adams em uma disputa de bola e acertou o zagueiro nas costas: recebeu o vermelho direto, enquanto o capitão do Arsenal ganhou apenas o amarelo. Em vantagem numérica, os Gunners aumentaram seu ritmo para evitar os pênaltis. Depois de um jogadaça de Henry, Overmars pôde finalizar em ótima posição. Pressionado pela marcação, acabou atirando para fora. Como se não bastasse, com as três substituições realizadas pelos turcos, o capitão Bülent Korkmaz precisou jogar os minutos finais no sacrifício. O zagueiro deslocou o ombro e terminou enfaixado para o segundo tempo da prorrogação, com o braço imobilizado sob a camisa.

O lance mais lembrado daquela noite em Copenhague ocorreria nos 15 minutos finais. O cruzamento de Parlour veio na medida para Henry. Livre no segundo pau, o craque desferiu a cabeçada fulminante na quina da pequena área. O gol de ouro não saiu. Incrivelmente, o gol não saiu. Taffarel reagiu a tempo e saltou no vazio para espalmar a bola que tinha endereço certo, realizando seu maior milagre com a camisa do Galatasaray. “Foi quando Taffarel fez aquela defesa inacreditável contra Henry que eu pensei que realmente iríamos ganhar o título”, declararia Fatih Terim, à Blizzard, anos depois. Taffarel ainda negaria duas vezes o tento a Kanu, em dois chutes consecutivos dentro da área. Os Leões não se limitaram à retranca e atacaram algumas vezes com menos perigo. Ainda assim, os pênaltis viriam em boa hora.

Com Taffarel no gol, especialmente em uma noite tão inspirada, era de se imaginar que o Galatasaray tivesse alguma vantagem na marca da cal. Entretanto, os turcos nem precisaram se valer da especialidade de seu camisa 1. Ergün Penbe tirou a bola do alcance de Seaman na primeira cobrança, antes que Suker mandasse no pé da trave. Sükür, Parlour e Davala converteram na sequência, até Vieira pegar a bola. O volante encheu o pé e acertou a parte interna do travessão. Bastava um gol para os Leões ficarem com a taça. E ele veio no arremate de Popescu, acertando o canto e fazendo explodir a massa turca que se encontrava logo atrás da meta. A história estava escrita. Ajudado pelo vice-capitão Hakan Sükür, Bülent Korkmaz ergueu o troféu com seu ombro machucado. Taffarel, merecidamente, recebeu o prêmio de melhor em campo.

A manchete de um dos principais jornais turcos da época dizia: “A Turquia entrou para a União Europeia através do futebol”, aludindo às negociações para que o país integrasse o bloco. A conquista teria um significado nacional muito forte, principalmente em tempos difíceis à população. No início daquela temporada, em 17 de agosto de 1999, a cidade de Izmit foi o epicentro de um dos terremotos mais destrutivos das últimas décadas. O tremor de 7.6 de magnitude durou 37 segundos durante a madrugada, devastando também distritos de Istambul. Os números oficiais falam em 17 mil mortos, mas as estimativas apontam para mais de 45 mil. Cerca de 20 mil construções foram danificadas, com 250 mil desabrigados.

Após a partida, Fatih Terim dedicou o título aos seus compatriotas: “Muitas pessoas sofreram com aquele terrível terremoto no último ano e, se essa vitória traz alguma felicidade de volta às suas vidas, então os jogadores e eu ficamos contentes. Estamos muito orgulhosos de poder ajudar o povo turco de uma pequena forma e essa vitória é para todo o país, assim como para todos os torcedores turcos. Acredito que eles estavam unidos por nós”. Na volta a Istambul, uma ensandecida festa tomou as ruas. O elenco ganharia condecorações de Ahmet Necdet Sezer, então presidente da Turquia. Semanas depois, nove jogadores daquele Galatasaray (mais Tugay Kerimoglu, vendido ao Rangers) estariam presentes na Euro 2000. A equipe treinada por Mustafa Denizli (o comandante do Gala na Champions 1988/89) superou Bélgica e Suécia para ficar com a segunda colocação de seu grupo, caindo apenas a Portugal nas quartas de final.

O ápice, no entanto, também iniciaria o desmanche daquele Galatasaray. Aclamado, o “Imperador” Fatih Terim aceitaria uma proposta da Fiorentina para a temporada seguinte. Seria substituído por Mircea Lucescu. Sükür também fechou com a Internazionale e, para seu lugar, os turcos não economizaram ao tirar Jardel do Porto. O novo ano começou de maneira histórica, com uma atuação decisiva do centroavante na conquista da Supercopa Europeia sobre o Real Madrid. Os Leões enfim avançaram na Champions. Passaram por Monaco, Sturm Graz e Rangers na primeira fase de grupos, antes de superarem a chave contra Milan, Deportivo e PSG na segunda fase de grupos. Cairiam apenas nas quartas de final, superados pelo próprio Real Madrid. Só não seria possível levar o penta na Süper Lig. O Fenerbahçe venceu o clássico a quatro rodadas do fim e ultrapassou os rivais para botar a faixa no peito.

Já na temporada de 2001/02, o elenco do Galatasaray se desfez. Taffarel, Popescu, Akyel, Davala, Emre, Buruk, Jardel e Márcio Mixirica aproveitariam a repercussão para acertar com times das principais ligas da Europa. Hagi também se foi, ao pendurar as chuteiras. Com uma equipe praticamente nova, Lucescu levou os Leões à segunda fase de grupos da Champions, além de reconquistar a Süper Lig. Bülent Korkmaz, Hasan Sas e Arif Ardem eram as referências à nova geração. O último feito internacional daquele Galatasaray, em partes, ficaria reservado à Copa do Mundo de 2002. Senol Günes se valeu bastante do trabalho de Fatih Terim e 11 dos 23 convocados ao Mundial participaram daquela conquista da Copa da Uefa, enquanto o zagueiro Emre Asik chegou logo depois. A medalha de bronze na Coreia do Sul e no Japão seria a prova definitiva da grandeza dos Leões naquela época.