Quando o Ajax contratou Dusan Tadic, tinha uma clara intenção com o negócio atípico aos padrões de seu mercado. O atacante de 30 anos chegava para dar experiência a um time talentoso, mas pouco calejado em grandes competições. Era um reforço com rodagem na Eredivisie, algo útil ao grupo que fizera uma temporada abaixo do esperado em 2017/18. Que não viesse com o rótulo de craque, seria alguém para assumir o protagonismo e ajudar na ascensão do jovem elenco dirigido por Erik ten Hag. Poucos meses depois, os €11,4 milhões pagos ao Southampton já soavam como uma pechincha. O sérvio não vinha em grande fase na Premier League, mas se reinventou em Amsterdã e viu suas virtudes aflorarem. Algo evidente ao longo da campanha na Liga dos Campeões e que atingiu nível estratosférico no Estádio Santiago Bernabéu. Faltam adjetivos para definir a exibição do atacante na goleada por 4 a 1 sobre o Real Madrid. Honrou sua camisa 10 como se fosse a 14 dos Godenzonen, completo e incontrolável no triunfo memorável.

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As boas atuações de Tadic nesta Liga dos Campeões, afinal, começaram ainda nas preliminares. Se o Ajax caiu cedo nas competições continentais durante a temporada passada, desta vez não deu margem à desconfiança. Eliminou de maneira contundente Sturm Graz, Standard Liège e Dinamo Kiev. Uma constante era o poder de decisão do camisa 10, tão deslumbrante quanto letal. Os três gols e três assistências em seis jogos já transformavam o sérvio em nome a se observar. Algo reforçado semana após semana, seja na Champions ou no Campeonato Holandês.

Que a campanha na Eredivisie possua as suas oscilações, Tadic é forte candidato a ser eleito o melhor da liga. Raros foram os jogos em que passou em branco. Somando 16 gols e sete assistências em 23 atuações, mantém uma produtividade ofensiva altíssima. Algo notável também na fase de grupos da Champions. A classificação do Ajax contou com grande forma do camisa 10, sobretudo na reta final. Ele garantiu o importante empate contra o Benfica e anotou os dois gols na vitória sobre o AEK Atenas na Grécia. Por fim, diante do Bayern de Munique, ofereceu uma prévia de sua fase arrebatadora dentro da Johan Cruijff Arena. Dois gols e o empate por 3 a 3 aumentavam a confiança dos Ajacieden rumo aos mata-matas. Rumo ao Real Madrid.

O ponta incisivo, no Ajax, se transformou muitas vezes também em um centroavante decisivo. Escalado como homem centralizado no ataque por Erik ten Hag, Tadic agrega bastante ao time nesta função. Ainda é um jogador de mobilidade enorme, o que beneficia os companheiros que chegam de trás. Usa a sua criatividade para abrir espaços e dar passes açucarados. Mas também sabe definir. Foi utilizado assim no primeiro duelo pelas oitavas de final da Champions. Por mais que se contribuísse para a marcação incansável, não fez uma partida tão brilhante, eclipsado por Hakim Ziyech e David Neres. Era mais um coadjuvante do que um protagonista. Até que assumisse o jogo para si no Bernabéu.

A atuação de Tadic nesta terça-feira acaba sendo difícil de dimensionar. O exagero da descrição não cabe para definir o que foi grandioso por si. Os olhos são as mais fiéis testemunhas do que impressiona por aquilo que é, não pelo que se traduz com palavras. Mas, na impossibilidade de resumir apenas com imagens, os adjetivos precisam ser escolhidos meticulosamente. Necessitam da precisão de Tadic em seus passes, da classe do sérvio em seus movimentos, da forma soberana como fazia os adversários orbitarem ao seu redor, da confiança com que colocava o Real Madrid em seu bolso. O camisa 10 parecia pressentir que este era o jogo de sua vida, tamanha altivez e segurança em seus gestos. Seria. Magnífico, soberbo, sublime.

Há recortes do que foi a magistralidade de Tadic no Bernabéu. E acaba sendo difícil escolher um só lance. No primeiro gol, ele exibiu a paciência na definição da jogada e a plasticidade do movimento no passe rumo a Ziyech. No segundo, a mais pura destreza. Uma zona magnética tomou o sérvio intocável naquele momento, para que os adversários se perdessem, para que ele dominasse os espaços. Livrou-se dos marcadores desnorteados, até o giro que fez Casemiro sair dos eixos. Magia em forma de drible. E o desfecho não poderia vir de melhor maneira, com outra assistência, agora para David Neres concluir com categoria. Por fim, o terceiro gol, o seu, aquele necessário para coroar a partidaça. O domínio dentro da área, a visão para encontrar a brecha diante dos marcadores, a frieza para mandar a bola no ângulo sem que Courtois esboçasse reação. Lasse Schöne completou a contagem, mas o espetáculo do camisa 10 estava completo.

Os números, gélidos em sua análise, podem ajudar a dimensionar a grandeza do que fez Tadic. Finalizações, dribles e (principalmente) passes decisivos exaltam a noite de gala. Uma exibição como a do camisa 10, no entanto, precisa do calor. Da energia que sua apoteose provoca. A energia do coração que bate mais forte com o gol, a energia da voz que sai incontrolável da garganta após um drible fascinante, a energia das mãos que não cessam de aplaudir. E se o sérvio não terminou ovacionado no Bernabéu, este é apenas um detalhe por conta das circunstâncias. Ante aquilo que desmoronava, a torcida do Real Madrid permaneceu mais preocupada em vaiar e acenar panos brancos contra o seu time. Não que Tadic tenha jogado menos que outros gênios capazes de fazerem as arquibancadas merengues se renderem. O atacante está distante de possuir o nível de um Maradona, de um Ronaldinho, de um Iniesta – não é essa a questão. Mas, por uma noite, ele não ficou devendo nada a outros jogadores históricos. A história, afinal, se cumpriu muito graças à sua inspiração. E isso já é enorme, para ele e para uma casa de craques como o Ajax.