Enquanto crescia na Sérvia, Dusan Tadic sonhava em defender o Ajax. E o que pode parecer apenas um discurso demagógico, tão comum a jogadores de futebol, se mostra verdadeiro através de suas atitudes. Quando estava de saída do Southampton, o atacante deixou claro à diretoria que sua preferência era assinar com os holandeses – o que se cumpriu, graças a uma dívida de gratidão dos Saints, mesmo com propostas maiores de outras partes. Já na última janela de transferências, o valorizado camisa 10 recebeu ofertas suntuosas, não só para voltar à Premier League, como também da China. Poderia ter enchido os bolsos de grana ou retornado em alta a uma liga mais competitiva. Sua opção, entretanto, foi mesmo renovar com os Godenzonen até 2023.

Aos 31 anos, Tadic se reinventou na Johan Cruyff Arena. Transformou-se em jogador de outro patamar e passou a ser considerado até como “revelação”, a despeito de sua idade. O ponta habilidoso apresentou novas virtudes e também passou a jogar como um inteligente homem de referência, pronto a anotar gols, bem como a abrir espaços aos companheiros e fazer a engrenagem funcionar. Nota-se de longe a satisfação do sérvio em vestir a camisa do Ajax – em realizar seu sonho de infância, afinal. Algo que se repete em suas palavras.

“Desde garoto, eu sempre amei o Ajax. Acho que eles precisavam de mim e eu precisava deles. Penso que nós verdadeiramente nos encontramos, um ao outro”, comentou, sem esconder o sorriso, em ótima entrevista concedida ao jornal The Guardian. “Eu tinha expectativas altas, mas não tantas. Depois que o Ajax ficou de fora da fase de grupos da Champions League por quatro anos, ninguém pensaria que nós alcançaríamos as semifinais”.

A forma de Tadic pensar reforça o seu comprometimento com o Ajax. Questionado sobre uma proposta chinesa de €42 milhões em salários, divididos por três anos de futebol, o sérvio confirmou que recebeu uma oferta nestas cifras. Porém, a ele, há outras coisas importantes no futebol: “Foi algo maluco, sim. Você pode simplesmente enlouquecer. Recebi algumas boas ofertas da China, mas você também precisa ouvir seu coração. Acho que o dinheiro não é tudo. A felicidade é algo que não se pode comprar. Por dentro, eu me sinto rico”. Nesta temporada, de quebra, ele herdou a braçadeira de capitão.

Revelado pelo Vojvodina, Tadic começou a ganhar notoriedade em sua carreira no próprio futebol holandês. Teve destaque no Groningen, antes de sua ótima passagem pelo Twente. Foi essa visibilidade que o levou ao Southampton em 2014, transformando-se em ídolo da torcida. Os fortes laços que construiu em St. Mary’s contribuíram para a sua escolha pelo Ajax.

“Muitos clubes realmente estavam interessados na minha contratação, mas eu disse ao Southampton que desejava apenas o Ajax. Talvez eles preferissem que eu fosse a outro clube, mas deixei isso claro de imediato. Disse que era o único time que queria. Realmente aprecio que eles tenham me deixado seguir meus sentimentos, porque provavelmente receberiam mais dinheiro de outras equipes”, comentou.

“Acho que mereci vir para o lugar que desejava, por tudo o que fiz ao Southampton em quatro anos. Antes de sair, tive outras propostas, mas fiquei e assinei um novo contrato. Em 2015/16, nós tivemos uma temporada fantástica. Foram os melhores anos da história do Southampton. É muito bom saber que sempre farei parte disso”, complementou.

Em pouco mais de um ano no Ajax, Tadic viveu muitíssimo. O atacante foi um dos protagonistas na campanha rumo às semifinais da Champions, com atuações fantásticas nos mata-matas – em especial, nas oitavas de final contra o Real Madrid, quando recebeu a rigorosa nota 10 do jornal L’Equipe. O sérvio confessa como a queda contra o Tottenham doeu. Em compensação, avalia o fim daquela temporada como positivo, especialmente pela forma como os Ajacieden se reergueram rapidamente, ao faturarem o Campeonato Holandês e a Copa da Holanda.

“Após a derrota contra o Tottenham, eu nunca tinha visto esse tipo de silêncio, tanto no estádio quanto nos dias seguintes dentro do clube. Parecia que as pessoas não podiam conversar ou comer por alguns dias. Foi uma grande decepção, porque eu acho que nós merecíamos estar na final. Depois, estávamos pensando: ‘Se ganharmos a liga e a copa, então o ano continuará muito bem sucedido’. Se tivéssemos perdido, seria muito pior. No fim, ganhamos e completamos a temporada de uma maneira positiva”, analisou.

Além disso, Tadic preferiu não culpar a postura do time de Erik ten Hag, que seguiu buscando o  ataque e não recuou contra o Tottenham: “O Tottenham nos trouxe muitos problemas com Fernando Llorente. Eles estavam jogando a partir de bolas longas em direção a ele. Se tivéssemos recuado um pouco mais, então acho que teríamos mais problemas, porque ele estaria diretamente na área, com mais bolas longas vindo em sua direção”.

O ponto de vista de Tadic apresenta uma maneira diferente de pensar o futebol. O atacante declara que ama discutir o jogo e seus detalhes. Prova disso é que seu contrato olha ao longo prazo. O veterano mira se tornar assistente do Ajax antes mesmo de pendurar as chuteiras. A admiração não se dá apenas pelos velhos craques ou pelas grandes conquistas vividas pelos Godenzonen, mas também pela maneira como o clube se porta em campo. E isso explica bastante a felicidade nesta história que, aos olhos do sérvio, parece parte do destino.