Qual o tamanho do orgulho daquelas crianças, ao verem seu antigo professor no primário se tornando ‘mestre’ de todo um país? Ao verem ele se eternizando como um dos maiores técnicos do futebol de seleções? Óscar Tabárez lecionou logo após pendurar as chuteiras, encerrada sua trajetória como defensor de pouca relevância. A sala de aula sempre foi uma de suas paixões. Assim como o futebol. El Maestro largaria a lousa para passar a ensinar à beira do campo. Para construir uma carreira vitoriosa como poucos no futebol uruguaio. Nesta semana, mesmo sem grandes efeitos, completou uma marca de enorme simbolismo: 167 partidas à frente da Celeste, igualando o recorde do lendário Sepp Herberger no comando da Alemanha. São os dois treinadores na história com mais jogos à frente de uma mesma seleção nacional.

Tabárez possui um passado respeitável com os clubes. Levou o Peñarol à conquista da Libertadores em 1987; faturou o Apertura com o Boca Juniors em 1992, encerrando o jejum de 11 anos do clube; pôde dirigir um timaço do Milan em 1996, embora não tenha durado muito no cargo. Todos esses feitos, entretanto, parecem pouco diante daquilo que foi capaz de fazer pela seleção uruguaia. O Maestro conseguiu resgatar o orgulho charrua e tornar a Celeste novamente temida. Marcou época, reafirmando a grandeza de uma das camisas mais pesadas do futebol internacional.

A primeira passagem de Tabárez pelo Uruguai foi mais modesta, a partir de 1988. Conhecido desde a seleção sub-20, o Maestro assumiu a preparação rumo à Copa do Mundo. Contava com um elenco fortíssimo, estrelado por Enzo Francescoli, mas também recheado por grandes jogadores da estirpe de Hugo de León, Rubén Sosa, Carlos Aguilera, entre outros. Terminou com o vice-campeonato na Copa América de 1989, antes de cair nas oitavas de final no Mundial de 1990. Perder para a Itália não surpreendeu, mas o problema esteve no desempenho abaixo do esperado durante a primeira fase. Após a competição, o técnico deixou o cargo. O reencontro aconteceria em 2006.

Na ocasião, Tabárez chegou escolhido a dedo. O Maestro comandaria a reestruturação da Celeste, ausente na Copa do Mundo daquele ano. O início do ‘Processo’, como ficou conhecido o seu projeto integrando não apenas a equipe principal, mas também as seleções de base. O técnico criou uma espinha dorsal de trabalho, compartilhando métodos e filosofias. Passou a investir mais no desenvolvimento dos jogadores mais jovens. Formou um grupo forte, que teve suas dificuldades para ir ao Mundial de 2010, mas fez uma campanha inesquecível na África do Sul. A garra charrua se uniu aos talentos individuais e ao forte coletivo montado por Tabárez. Recolocou os uruguaios em uma semifinal de Copa, o que não acontecia desde 1970. Mais do que isso, rendeu a brilhante conquista da Copa América de 2011, na Argentina.

Que o momento esplendoroso não tenha se mantido, o nível da seleção uruguaia se mantém relativamente estável desde que Tabárez chegou. A presença de jogadores acima da média, como Luis Suárez e Diego Godín, o ajuda bastante. Mas não dá para negar o domínio que o Maestro possui sobre a Celeste, assim como sua capacidade de reinvenção, apesar das opções limitadas. Nos últimos tempos, nem as condições debilitadas (por conta de uma síndrome que afeta seu sistema nervoso) serviram de desculpa, com o professor resistindo à beira do campo. Ensinando seus pupilos. E, ao que tudo indica, ele deve colocar os uruguaios em mais uma Copa do Mundo, desta vez sem nem precisar passar pela provação da repescagem.

A derrota para o Chile, logicamente, não agradou. Mas foi nela que Tabárez completou sua marca notável: 167 jogos à frente da Celeste – segundo a conta oficial da federação uruguaia, embora outras adicionem amistosos extraoficiais. São 81 vitórias conquistadas, além de 13 competições disputadas. Números grandiosos, mas que ainda assim não representam a importância de sua figura aos uruguaios. O que aconteceu entre 2010 e 2011 permanecerá por muito tempo impregnado no imaginário coletivo do país. Os meses em que a nação enlouquecida por futebol, enfim, pôde extravasar a sua paixão outra vez. Obra do Maestro, cujo legado deve perdurar.

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