Svoboda, o improvável herói tcheco em Moscou-1980

Esta coluna é uma parceria da Trivela com o OlimpCast, que trará toda semana um texto relembrando algum fato marcante dos torneios olímpicos de futebol. Leia mais colunas aqui e ouça o podcast Olimpicast.

Quantos minutos são necessários para fazer de alguém um herói olímpico? Para um maratonista, são cerca de duas horas. Um velejador precisa de muito mais, várias regatas com mais de três horas de duração acumulando pontos por mais de uma semana. Para um velocista, bastam 10 segundos, até menos. Já no futebol, cujo caminho para o ouro passa por seis jogos de 90 minutos, eventualmente 120, às vezes um jogador precisa de pouquíssimo tempo para se tornar um herói.

Foi o caso de Jindřich Svoboda, o autor do gol que deu à Tchecoslováquia a medalha de ouro nos Jogos de Moscou-1980, encerrando o período de domínio dos países do bloco comunista, onde o futebol não era oficialmente profissional e que, por isso, podiam levar o que tinham de melhor para um torneio que era, nas letras da lei, amador. Mas Svoboda estava longe de ser exatamente o que os tchecos tinham de melhor naquele momento. No período mais vitorioso do futebol no país, ele foi uma figura secundária, de pouco brilho – que acabou lembrado por estar no lugar certo, na hora certa. Coisas do futebol.

Para saber mais sobre os Jogos de Moscou-1980, do boicote dos Estados Unidos ao ouro que os juízes roubaram de João do Paulo, ouça abaixo o episódio 23 do OlimpCast.

Jindrich nasceu na pequena Adamov, cidadezinha no sul da Morávia, e no fim da adolescência mudou-se para Brno, a principal cidade de sua região, para servir o Exército. Lá mesmo, aos 19 anos, acertou com seu primeiro clube, o Dukla Brno. Depois de dois anos, foi para o Zbrojovka Brno, principal time da cidade, que disputava a liga tcheca e tentava se meter entre os então gigantes Sparta Praga, Dukla Praga e Slovan Bratislava.

Em 1975, Svoboda teve sua primeira chance na seleção tcheca, convocado pelo técnico Vaclav Jezek para jogos pelas Eliminatórias da Eurocopa. Chegou a entrar alguns minutos na goleada por 5 a 0 sobre Portugal, mas não foi lembrado para os mata-matas contra a União Soviética, já em abril de 1976, nos quais os tchecos garantiram vaga na fase final, disputadas então por apenas quatro seleções. O atacante viu pela TV, provavelmente, à vitória da seleção sobre a Alemanha Ocidental, com o pênalti decisivo cobrado pelo lendário Panenka.

Dois anos depois, ele comandou o ataque do Zbrojovka Brno em sua maior glória, a conquista do Campeonato Tchecoslovaco. O time eliminou o Újpest, da Hungria, na primeira fase da Copa dos Campeões, e depois caiu diante do Wisla Cracóvia, da Polônia, eliminado nos gols fora de casa após empates por 2 a 2 em casa e 1 a 1 fora. E Svoboda seguiu fora do radar da seleção até 1980.

Naquele ano, a agenda da seleção estava pesada. Depois de passar por um grupo com Suécia e França nas Eliminatórias, os tchecos garantiram presença na primeira Euro com oito seleções na fase final, que seria disputada em junho, na Itália. Enquanto isso, uma equipe secundária iria a Moscou, em julho, para tentar a segunda medalha olímpica da seleção, que havia sido prata com a derrota para a Hungria em Tóquio-1964.

Na Euro, a “seleção A” da Tchecoslováquia perdeu na estreia para a Alemanha Ocidental por 1 a 0, na revanche da final de quatro anos antes, e acabou em segundo lugar no Grupo A. O torneio não teve semifinais: os alemães foram direto para a decisão enfrentar e vencer a Bélgica, líder da outra chave, e restou aos tchecos tirar da anfitriã Itália o terceiro lugar com uma vitória por 9 a 8 na interminável disputa de pênaltis após o empate por 1 a 1 nos 120 minutos de bola rolando.

Menos de um mês depois, um time alternativo, com alguns remanescentes da Euro, foi à União Soviética para uma Olimpíada esvaziada pelo boicote dos Estados Unidos. Nem o técnico era o mesmo: Jozef Venglos, que dirigiu o time na Euro, deu lugar a Frantisek Havranek, então o manager da federação, que acabou assumindo o comando direto da equipe.

E lá se foi Svoboda na sua condição de figurante. Entrou no segundo tempo na estreia, 3 a 0 sobre a Colômbia. Foi titular no 1 a 1 com a Nigéria, mas não marcou gol, e nem entrou no 0 a 0 com o Kuwait, que selou o primeiro lugar do grupo e a vaga nas quartas de final – disputadas contra Cuba, uma vitória por 3 a 0 em que Svoboda mais uma vez não saiu do banco.

Nas semifinais, nosso herói voltou a aparecer. Os tchecos venceram a Iugoslávia por 2 a 0 e Svoboda entrou no segundo tempo, no lugar de Licka, que havia marcado o primeiro gol – Sreiner fechou o placar e garantiu a Tchecoslováquia em sua terceira final olímpica. A primeira foi contra a Bélgica, em Antuérpia-1920, e já contamos aqui que a seleção ficou sem medalha porque abandonou o campo irritada com a arbitragem que considerou tendenciosa a favor dos donos da casa.

Na outra semifinal, zebra: a União Soviética, dona da casa e favorita ao ouro, levou 1 a 0 da Alemanha Oriental, para espanto dos 95 mil torcedores que lotaram o Estádio Olímpico. Os anfitriões tiveram de se contentar com o bronze, após um 2 a 0 contra os iugoslavos. Na decisão, em 2 de agosto, debaixo de uma tempestade, um duelo truncado, com muitas faltas e encontrões que pode ser visto na íntegra neste link. Aos 28 minutos do segundo tempo, o técnico chamou Svoboda para entrar no lugar do contundido Vizek, artilheiro da equipe nos Jogos, com quatro gols, e que havia estado no elenco da Eurocopa.

Então, aos 32 minutos, Nemec, outro dos que estavam na seleção desde a Euro, recuperou uma bola no meio e foi derrubado, na enésima trombada da noite. Ele se levantou rápido e enxergou Stambacher escapando pela esquerda em velocidade. O camisa 16 – o único em Moscou que havia feito parte do elenco campeão europeu em 1976 – avançou, olhou e cruzou na medida para Svoboda, que cabeceou forte, para o chão. O goleiro Rudwaleit bateu roupa, e o centroavante, ainda se reequilibrando da cabeçada, acertou um chute forte e abriu o placar.

Os tchecos se defenderam bem e conseguiram segurar o ímpeto dos alemães orientais, que tentaram principalmente na base do chuveirinho, sem sucesso. A Tchecoslováquia somava o ouro olímpico a seu respeitado cartel, e a partir da Olimpíada seguinte os Jogos mudariam de regulamento, enfim com a presença de profissionais, desde que não tivessem jogado a Copa do Mundo.

Svoboda seguiu jogando no Zbrojovka Brno até 1984 e ainda teve fôlego para mais dois anos no Svit Gottwaldov, que depois mudou de nome e hoje é o Fastav Zlin. Aposentou-se aos 34 anos e não há mais registros de envolvimento com futebol depois disso – meses atrás, na celebração dos 40 anos do ouro olímpico, deu entrevista a este site tcheco contando um pouco de sua vida após a bola, que incluiu trabalhos em usinas nucleares e processadoras de café. Hoje, aos 68 anos, cuida de quadras de tênis em Brno e joga pouco futebol por causa de dores nos joelhos. Uma vida calma para quem precisou de apenas quatro minutos, e dois toques na bola, para se tornar um herói olímpico.