A extensa lista de problemas disciplinares de Joey Barton ganhou mais um capítulo. O jogador do Burnley recebeu uma suspensão de 18 meses por ter realizado 1,260 apostas em jogos de futebol entre março de 2006 e maio de 2016, inclusive em partidas em que ele esteve em campo e contra o seu próprio time. Pelas regras da Federação Inglesa, os atletas das oito primeiras divisões do país são proibidos de apostar em qualquer jogo de qualquer competição.

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Ano passado, o controverso meio-campista havia sido investigado pela Federação Escocesa por ter apostado enquanto era jogador do Rangers. Depois de ter seu contrato rescindido com o clube escocês, por uma confusão durante o treinamento, foi sancionado com um jogo de suspensão. Barton admitiu que violou mesmo as regras sobre apostas na Inglaterra, mas acredita que a punição foi pesada demais, uma vez que a própria comissão que o investigou afirmou que não houve nenhuma indicação de “manipulação de resultados”.

E olha que ele apostou que o próprio time seria derrotado diversas vezes. No entanto, alega que sequer ficou no banco de reservas nessas partidas e que “não tinha mais habilidade de influenciar o resultado do que quando apostava em dardos, sinuca ou críquete” e que nunca apostou contra sua equipe estando em campo. “Não conseguiria viver comigo mesmo, ou encarar meus colegas e os torcedores dos clubes que defendi, se eles realmente pensassem que eu apostaria para o meu time perder um jogo em que eu poderia influenciar o resultado”, afirmou, em um longo comunicado em seu site.

Barton publicou a lista de apostas que fez em partidas envolvendo as equipes que defendia e, no total, perdeu mais de £ 3 mil. Falando a verdade ou não, ele não chegou a lucrar nesses jogos. “Tenho que acrescentar que em algumas dessas ocasiões, colocar uma aposta para meu próprio time perder foi uma manifestação de raiva e frustração por não ter sido escolhido para o jogo ou por não estar em condições de jogar. Eu entendo que as pessoas vão entender que isso foi infantil e egoísta e não conseguiria discordar delas”, disse.

A mais problemática aposta foi em uma partida do Manchester City contra o Fulham, em 2006, quando apostou que faria o primeiro gol do duelo. Richard Dunne acabou abrindo o placar, em cobrança de falta do próprio Barton. No entanto, ele também havia apostado que Samaras não seria o primeiro a marcar no cotejo, e o grego estava na área no momento em que o meia cobrou a falta. Teria isso influenciado a sua decisão de lançar a bola na segunda trave, em vez do meio da área, onde estava Samaras? Provavelmente não, e o gol saiu do mesmo jeito, mas esse é o tipo de conflito de interesse ao qual ele sujeitou ao longo de uma década.

Barton é viciado em apostas. Entregou um relatório médico à comissão da Federação Inglesa que o investigou e se diz decepcionado por isso não ter sido levado em consideração. O seu vício – mais de 15 mil apostas em todos os esportes – tem menos a ver com a vontade de ganhar dinheiro e mais com o prazer de vencer e tentar prever o resultado de eventos esportivos. “Para o jogador de futebol moderno, o descanso é importante e passo boa parte do meu tempo fora dos treinamentos em frente à TV, torcendo por vários esportes e apostando no resultado das partidas. Considerando que somos privilegiados de ganhar o que ganhamos como jogadores de futebol, minhas apostas são relativamente pequenas (média de £ 150). Eu odeio perder mais do que gosto de vencer, e esse pensamento ajudou a prevenir que eu fizesse grandes apostas, com medo de perder muito”, afirmou.

Cultura de apostas

Barton contou que desde criança produzia cupons de apostas e pedia para os membros mais velhos da sua família colocarem dinheiro por ele em corridas de cavalo. Isso pertence ao ambiente em que ele cresceu, comum a muitos britânicos, e é uma cultura incentivada pela Federação Inglesa, pela Premier League e pelos clubes. A Ladbrokes é parceira da FA e dez clubes da primeira divisão são patrocinados por casas de aposta. Inclusive o Burnley.

O questionamento interessante que fez é que, se a Federação Inglesa está tão preocupada em atacar a cultura de apostas no futebol, deveria olhar para sua própria dependência financeira dessa indústria, e para o papel que ela desempenha no esporte e nas transmissões.

“Graças ao dinheiro no jogo e a explosão de apostas no esporte, eu entendo por que as regras precisam ser rígidas e aceito que eu as violei. Mas certamente eles precisam aceitar que há um grande conflito entre suas regras e a cultura que envolve o jogo moderno, no qual todo mundo que assiste ao futebol na TV ou no estádio é bombardeado com propagandas e patrocínios de empresas de apostas e em que muito da cobertura, na Sky, por exemplo, é entrelaçada com os interesses de apostas da própria transmissão”, escreveu.

“Isso tudo significa que não é um ambiente fácil para alguém tentar parar de apostar ou mesmo encorajar as pessoas do esporte que apostar é errado. É como pedir que um alcoólico passe todo o seu tempo em um bar. Se a FA fala sério sobre o combate às apostas, eu pediria que reconsiderasse sua própria dependência da indústria. Eu digo isso sabendo que todas as vezes em que eu coloco a camisa do meu time, eu estou anunciando uma empresa de apostas”, completou.

Barton, 34 anos, afirmou que uma suspensão de 18 meses, neste momento, significaria uma “aposentadoria precoce” para ele e prometeu apelar da decisão para tentar reduzir o tempo da sentença.