Raras são as mulheres ocupando cargos de direção no futebol. E, quando existem, muitas vezes acabam tratadas mais como um “fato curioso” do que com sério interesse por seus trabalhos. No entanto, esta percepção ganha um exemplo notável para se transformar. Susan Whelan não é dona dos milhões de libras e nem possui influência sobre elenco. No entanto, a irlandesa teve um papel fundamental na escalada do Leicester rumo ao título da Premier League. Terceira na hierarquia administrativa das Raposas (primeira logo após os donos), a chefe-executiva serviu de elo entre o presidente Vichai Srivaddhanaprabha e Claudio Ranieri. Responsável pelo modelo de gestão aplicado no Estádio King Power, pode muito bem ser colocada como uma das mulheres mais importantes do futebol mundial. Uma dirigente discreta, mas de trabalho impecável.

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Susan Whelan desembarcou em Leicester meses após a compra do clube pelo empresário tailandês. E, antes de sua contratação, não tinha quaisquer credenciais dentro do futebol. A administradora cresceu na profissão cuidando da joalheria de sua família, em Dublin. Depois, passou a atuar em um grupo ligado à gestão de free-shops em aeroportos. Assim, passou por diferentes países até parar na Tailândia, entrando em contato com o Grupo King Power. “Ela é agradável, muito eficiente e tem uma grande personalidade. Susan possui um grande talento para melhorar as coisas. Ela não seria a melhor pessoa para ensiná-los a chutar uma bola, mas sabe muito bem desenvolver as finanças”, opinou Liam Skelly, antigo chefe da dirigente, em entrevista ao jornal Independent.

Diante destes predicados, ficou claro o que Vichai esperava de sua nova CEO. Embora não fosse profunda conhecedora do futebol, Susan Whelan dominava a gestão de pessoas e de recursos. Além disso, estava pronta para ignorar barreiras. “Eu vejo muitos jogos. Não sou especialista, mas gosto da atmosfera dos dias de jogo. Não há nada mais mágico que a empolgação antes da partida. Eu quero garantir a euforia dos torcedores. Além do mais, estou apoiada por um bom treinador e por um bom diretor esportivo. Meu trabalho será o de otimizar as finanças e desenvolver o clube”, afirmou durante sua chegada, em entrevista ao Leicester Mercury. “Não importa se sou mulher. Estou aqui para fazer o meu trabalho, não é uma questão de gênero. Creio que não terei problema”. Declarações para rebater quem pensava que ela seria uma fria executiva, pronta para transformar o clube em multinacional.

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A partir de então, Whelan começou a cuidar de um time recém-chegado da terceira divisão, mas que contava com força financeira para brigar pelo acesso na Championship. Durante os seus anos na segundona, a chefe-executiva precisou lidar com o balanço entre contas no vermelho e investimentos altos para assegurar um lugar na Premier League o quanto antes. Já depois da conquista, seu desafio não era mais com os débitos, registrando o maior lucro da história das Raposas. Ela precisaria organizar um clube competitivo em meio à enxurrada de dinheiro da TV, mas aquém das receitas da maioria dos adversários. Em duas temporadas, cumpriu as metas com um sucesso surpreendente.

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“Tem sido incrível: investimos no recrutamento de jogadores e na ciência esportiva, bem como temos feito parte do cotidiano da cidade de Leicester, desempenhando o nosso papel na comunidade. E, para mim, isso tem sido a parte realmente interessante; o poder positivo do esporte e, em particular, do futebol”, afirmou a dirigente, ainda em 2014. Hoje, considerando as chaves da façanha do Leicester, sua declaração parece até mesmo premonitória. “Havia algo sobre o qual eu estava absolutamente certa quando cheguei a Leicester: o clube possuía um grande patrimônio. Ele tem 130 anos, uma base de torcedores fantástica, uma história rica e também está inserido em uma cidade de rica cultura, incluindo a esportiva”.

As ações fortalecendo a relação do Leicester com a população, portanto, não podem ser consideradas apenas como benfeitorias do dinheiro dos donos tailandeses. Susan Whelan teve o seu papel ao investir nestes laços, seja em eventos do clube junto à comunidade ou mesmo nos agrados distribuídos no Estádio King Power – como as cervejas gratuitas e a manutenção no preço dos ingressos. Não à toa, foi a chefe-executiva quem anunciou a doação de £2 milhões aos hospitais da cidade feita pelos tailandeses após o título.

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Em cinco anos de clube, Susan Whelan também aprendeu a lidar com os mecanismos do futebol. E a construção do elenco campeão teve seu dedo especialmente na chegada de Claudio Ranieri. Ao final da temporada, ela teve voz ativa na demissão do técnico Nigel Pearson, apesar de sua importância na incrível arrancada para se manter na primeira divisão em 2014/15. Defensor da equipe, o filho do treinador se envolveu em um escândalo durante turnê à Tailândia, participando de uma sex tape racista ao lado de outros dois atletas. O Leicester optou por punir os responsáveis com a demissão, assim como rompeu o vínculo com Pearson diante da situação insustentável.

Em público, Whelan agradeceu ao treinador pelos serviços e logo pediu para os torcedores olharem para o futuro, com Claudio Ranieri: “Eu li os jornais, então sei que há críticas em algumas áreas, mas creio que os torcedores seguem entendendo. Demonstramos consistentemente durante os últimos cinco anos que sempre tentamos fazer o nosso melhor pelo Leicester e mantemos o clube como nosso objetivo em qualquer decisão. Eu entendo que há alguma frustração, mas eu penso que os torcedores sabem que este é nosso jeito de trabalhar. Nós contratamos um técnico que possui conhecimento, paixão e determinação para continuar o desenvolvimento e buscar o sucesso do clube”. Apesar dos resultados modestos do italiano em seus trabalhos anteriores, a chefe-executiva confiou em um perfil de gestão de elenco e enfrentou o ceticismo, ao lado do diretor esportivo Jon Rudkin. O resto virou história.

Para a próxima temporada, a missão de Susan Whelan se transforma. Ela precisará gerir um clube que sofreu uma expansão notável em suas finanças durante pouquíssimo tempo, tentando tornar o crescimento sustentável. Além disso, também lidará com a nova realidade de ambições, a partir da entrada na Liga dos Campeões. Capacidade para o trabalho ela já demonstrou em diversos momentos, e conta com a confiança dos donos do clube. O Leicester e a própria cidade têm muito a agradecer à dirigente. Tanto por sua visão de negócio quanto por sua percepção sobre tudo aquilo que envolve o futebol, incluindo aí a paixão.