O futebol de seleções é bacana porque sempre nos proporciona heróis que nunca teriam a mesma relevância internacional apenas em seus clubes. São os caras que honram a camisa de nações menosprezadas futebolisticamente e não precisam de uma Copa do Mundo para serem venerados. Sunil Chhetri é um desses. A Índia pode não ligar muito para o futebol, mas o veterano acaba sendo o nome que carrega as esperanças (em teoria) de mais de um bilhão. Em sua pequenez, faz o que pode para oferecer algum destaque à seleção indiana. Pois nesta Data Fifa, longe dos holofotes, o camisa 11 se tornou um grande personagem. Merece aplausos, mesmo que quase ninguém vá contar essa história.

Na semana passada, Chhetri postou um discurso apaixonado nas redes sociais. O capitão urgia aos compatriotas para que abraçassem a seleção. Agradecia o apoio daqueles que foram assistir à goleada sobre Taiwan em Mumbai, mas seu recado ia aos demais, que não estiveram nas arquibancadas esvaziadas. “Eu vou falar e fazer um apelo a todos vocês que não vieram. A todos que não gostam de futebol, por favor venham e nos assistam por duas razões. Primeiro que este é o melhor esporte do mundo. Depois, que jogamos por nosso país. Temos certeza que, quando vocês vierem nos assistir, não serão a mesma pessoa ao voltarem para casa. Quero dizer que não é legal criticar ou abusar na internet. Venha ao estádio. Faça isso na nossa cara. Grite, nos xingue. Quem sabe, um dia isso pode mudar e vocês irão nos apoiar. A todos que não vieram, por favor venham e nos assistam nas arquibancadas. Vocês não têm ideia de como são importantes para nós”, afirmou o veterano.

Suas palavras fizeram efeito. Se apenas 2,5 mil pessoas tinham ido ver o duelo contra Taiwan, nesta segunda a Índia recebeu o Quênia no mesmo estádio diante de 18 mil compatriotas – capacidade máxima da Mumbai Football Arena. E o capitão seria protagonista de qualquer maneira. Chhetri completava seu 100° jogo pelos Tigres Azuis. Anotou dois gols na vitória por 3 a 0. No primeiro, converteu uma cobrança de pênalti. No segundo, deu uma cavadinha desconcertante sobre o goleiro adversário. Ovação merecida àquele que é o recordista em aparições e tentos pela equipe nacional.

“Nós prometemos a vocês que, se tivermos este tipo de apoio todas as vezes em que jogarmos pela seleção, daremos nossas vidas em campo. Índia, essa noite foi especial porque nós estávamos nisso juntos. Aos que estiveram nas arquibancadas gritando e àqueles em casa torcendo, meu muito obrigado”, declarou o capitão, após a partida, em suas redes sociais.

Chhetri tem uma carreira modesta por clubes. Sua maior oportunidade aconteceu no Sporting B, com o qual disputou apenas três partidas. Também se aventurou no antigo Kansas City Wizards, sem sucesso. No mais, a trajetória se concentra nos times locais, com a honra de ter sido vice-campeão da Copa AFC 2016 (segundo torneio mais importante do futebol de clubes asiático) com o Bengaluru, sua equipe atual. Mas não foi jogando por clubes que o camisa 11 ganhou a oportunidade de poder ser comparado com os melhores do mundo. Atualmente, ele possui 61 gols pela Índia, terceira maior marca entre os atletas que seguem em atividade por suas seleções. Fica atrás apenas de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Com os dois tentos sobre os quenianos, superou David Villa. Agora, está a um de alcançar Ronaldo Fenômeno.

Obviamente, a perspectiva de Chhetri acaba sendo outra, longe dessas lendas de Copa do Mundo. Mas não se nega a relevância local ao herói marginalizado. Seus desafios são claros. Se em 2011 ele manteve a dignidade da seleção indiana em seu retorno à Copa da Ásia após 27 anos de ausência, anotando gols contra Bahrain e Coreia do Sul, em janeiro de 2018 retoma a empreitada. Os Tigres Azuis voltam ao torneio continental, que será realizado nos Emirados Árabes Unidos. Graças ao camisa 11, por seus gols ou sua liderança, os jogadores podem esperar um pouco mais de apoio na jornada.