Por Raul Andreucci*

Quer coisa pior do que ser rebaixado? Pois tem. Cair no pior campeonato estadual entre aqueles que foram palco da Copa do Mundo no Brasil. Tá bom pra você? Não, né? Que tal tudo isso na partida derradeira do torneio, sem torcida, como último colocado, brigando com a polícia, trancado no vestiário e sem ter no horizonte a chance de retornar na temporada seguinte?

O Sul América, coitado, tem em sua história não só as glórias, restritas aos títulos amazonenses de 1992 e 1993, mas também o drama de 2014, quando foi rebaixado. Esse causo, digno de contos de futebol, aconteceu de verdade.

Essa história foi encontrada durante a pesquisa do livro “A selva do futebol”, em co-autoria com Tulio Kruse. O livro acabou de ser lançado pelo BRIO,  uma nova plataforma de jornalismo narrativo. A obra fala sobre como a Arena da Amazônia, que recebeu até Inglaterra e Itália na Copa do Mundo de 2014, é um símbolo poderoso de um país em que o futebol reflete nossas maiores glórias – e nossos problemas mais profundos.

E a história do Sul América é uma dessas que te deixam pensando se o Brasil é mesmo o país do futebol. É um time rebaixado para lugar nenhum. Como o Campeonato Amazonense não tem segunda divisão, o Sul América ficou na expectativa de ter algum torneio para jogar e, quem sabe, voltar no ano seguinte. É uma situação estranha mesmo: o time é rebaixado, mas não há uma divisão inferior em 2015, como havia até 2014.

No regulamento do Campeonato Amazonense de 2015, constava que os times rebaixados jogariam uma copa preliminar, que serviria como segunda divisão – mas ela ainda precisava ser regulamentada… Por isso, no jogo final em 2014, o Sul América jogava para não cair. Mas cair era um verbo impreciso. Cair para onde? Ainda não se sabia, mas o time iria para o limbo.

A preleção do Sul América antes do jogo decisivo (foto: Raul Andreucci)
A preleção do Sul América antes do jogo decisivo (foto: Raul Andreucci)

“Larga essa cachaça de ontem”

Em Rio Preto da Eva, uma cidadezinha a 80 km de Manaus (AM), nada chamava mais a atenção naquele duelo entre Holanda, dono da casa, e Sul América, do que os berros do presidente visitante. Com um vasto repertório de palavrões, Luiz Costa se fazia ouvir num estádio vazio (o pouco conhecido Chicão, ou, oficialmente, Francisco Garcia). Jogadores, rivais, arbitragem, ninguém escapava. A participação era tão efusiva que, na reunião do intervalo, no gramado mesmo, passou por cima do técnico Conrado, cobrou o grupo e avisou a um cidadão, assim mesmo: “Larga essa cachaça de ontem, porra, e vamos jogar!”.

O gol suado no fim coroou a tática. No vestiário, comemoração digna de título. Com direito a música, dancinha em roda e até balde de água fria em cima do artilheiro. Foi assim como conheci aquele time, montado por indicações de empresários, conhecidos, gente que, segundo o próprio cartola, nem sabia o que era uma bola. De nome pomposo, internacional, e potencial para deixar varzeanos no chinelo (em termos de precariedade).

O Trem da Colina fazia parte dos meus planos para entender melhor a realidade do futebol manauara e está lá no livro publico pelo BRIO, A Selva do Futebol, mas insistia, de alguma forma maluca, em aparecer aonde não era chamado. Naquele dia, 6 de abril de 2014, o foco era o Holanda. Dias depois, num treino do Fast, bem, era o Fast. Bisonhamente, lá estava o Sul América mais uma vez, para uma atividade conjunta e amistosa. Ele é insistente.

O Sul América vivia de um canto a outro, procurando espaço para treinar. No seu campo, incrustado no meio do bairro, disputava espaço com urubus em cima de lixo, cachorro, e corria-se o risco de contusões, exatamente por ser um chão de terra batida, seco e duro. Nesse reencontro, de tanto bater papo com os atletas, que até brincaram com a máquina fotográfica, ficou claro que tinha algo ali. Decidi, primeiro, que faria uma visita ao alojamento, diante de tantos convites simpáticos e sinceros, e, segundo, acompanharia o clássico Galo Preto (assim chamado justamente pelo enxame de macumbas e trabalhos nas vésperas dos jogos entre os dois).

Ingresso do Campeonato Amazonense (A preleção do Sul América antes do jogo decisivo (foto: Raul Andreucci)
Ingresso do Campeonato Amazonense (foto: Raul Andreucci)

Goleiro esquecido

Por volta do meio-dia daquele 13 de abril, um domingão ensolarado, lá estava eu na sede do clube. Cheguei no fim do almoço e, apesar da gentileza de alguns para comer um bocado do que sobrara, a ameaça de Luiz Costa antes das fotos, como conto no livro, tiraram o apetite. Não que houvesse um banquete. Macarrão à bolonhesa e refrigerante. Na despensa, alguns pães mais duros do que pedra. Era hora de todos ouvirem o presidente antes de arrumar o material e partir. De todo aquele discurso motivacional, o que restou no burburinho das rodinhas era a promessa do bicho de R$ 500.

Com galões de água vazios e baldes de materiais de construção, Welsey, Bruno, Pelé e Aécio fizeram da pracinha em frente palco de música. O quarteto carregou a animação para o microônibus. Uma das canções, claro, não podia deixar de ser aquela da barata da vizinha, perguntando a cada um dos viajantes o que iam fazer para se defender. A única mulher presente, uma espécie de faz tudo do clube, respondeu que “ia ficar pelada para todos”. Uivos, risadas e medo. Parecia excursão. Até esqueceram dos goleiros! A ausência foi notada, curiosamente, ao passar em frente à sede do São Raimundo, principal rival exatamente por serem praticamente vizinhos.

No estádio do Sesi, o Roberto Simonsen, aos poucos, cada um iniciava seu ritual. Seja de silêncio, parado, ou de brincadeira e companheirismo. Aprontam-se do jeito que dá. Natan fica envergonhado quando o repórter clica sua meia, rasgada pela metade. Pelé até tenta ajudar e chama o roupeiro. Almir responde que não tem jeito, vai ter de ser com aquela, sem dar atenção, como quem dissesse: “Até parece que você não sabe”. Saio para meia hora de almoço antes de a bola rolar. Um cachorro-quente horroroso enquanto a ambulante vende ilegalmente cerveja (o Estatuto do Torcedor não permite bebida alcoólicas). Rumino uma das frases finais de Conrado, chamando todos aos brios: “Vocês são jogadores de futebol porque fizeram uma opção de vida. Tem que fazer sempre o seu melhor”. Questiono tudo aquilo em volta.

A polícia na porta do vestiário do Sul América A preleção do Sul América antes do jogo decisivo (foto: Raul Andreucci)
A polícia na porta do vestiário do Sul América (foto: Raul Andreucci)

Talvez inspirado pela seleção brasileira na vitoriosa campanha da Copa do Mundo de 1994, o Sul América entra em campo de mãos dadas. Sem torcida, diante de torcedores fanáticos do adversário, capazes de ofuscar os berros guturais do presidente, era realmente a única coisa que restava: união. O jogo era tão ruim que aventei a possibilidade de rebaixamento duplo. Apesar de desperdiçar um pênalti, o São Raimundo fez o gol salvador. Enquanto tentava registrar gente cruzando o gramado ajoelhado, arrancando a roupa do goleiro, jogador subindo no alambrado, notei a confusão no meio do campo, onde estava o túnel comum que leva aos vestiários dos times e da arbitragem. Bicho, música, carreira, toda a inspiração anterior foi para o espaço.

O goleiro Nilson perdeu a cabeça. Correu para o trio de arbitragem querendo tirar satisfação e deu um empurrão justo na bandeirinha. O batalhão de choque chegou junto, tentando montar aquele escudo em volta dos donos do apito. Jogadores e membros da comissão técnica do Sul América não colaboraram. Amontoaram-se ao redor, apontando o dedo na cara, gritando impropérios e incessantemente furando a barreira. No corredor que liga aos vestiários, estreito, os policiais deram prioridade aos ameaçados e bloquearam a passagem. Alex, atacante reserva, cheio do gás que não pode gastar nos 90 minutos, peitou um dos oficiais, forçando a entrada. O filho de Luiz Costa e, vejam vocês, também vice-presidente do clube, tentou ganhar ao menos essa – e perdeu mais uma.

Rebaixado e preso

Quando finalmente permitiram a entrada, no curto caminho por debaixo das arquibancadas do estádio, a mulher que se dispôs a ficar pelada filmava tudo aos berros, denunciando o que considerava abuso de autoridade. Os policiais não estavam nem aí. Os 16 destacados para o policiamento daquele dia prostraram-se em frente à porta como se estivessem fazendo homenagens aos ex-zagueiros Ricardo Rocha e Ronaldão, xerifões do futebol brasileiros. Queriam o Sul América na delegacia para responder por agressão e desacato. Luiz Costa conseguiu a liberação com o argumento de que precisavam ao menos tomar banho. Lá dentro, de celular na orelha, tentava reverter o quadro. Recebeu, minutos depois, a visita do Tenente Marcelo Arruda, o único calmo por ali. Argumentou que seu rebento estava disposto a se retratar, pediria desculpas, e o arqueiro, você sabe, é caboclo, já chorou, bom menino. Nada feito.

Torcedores e jogadores do São Raimundo celebram a vitória sobre o Sul América A preleção do Sul América antes do jogo decisivo (foto: Raul Andreucci)
Torcedores e jogadores do São Raimundo celebram a vitória sobre o Sul América (foto: Raul Andreucci)

O cenário era desolador. Todos de cabeça baixa, sem forças até para ir ao chuveiro. Não sabiam o que era pior digerir: a derrota, o rebaixamento, a confusão ou a prisão temporária. Esgotadas as opções naquela hora, estava definido: todos sairiam juntos. Wesley e seu abatimento chamaram minha atenção. De lado, sozinho, sem piscar, como alguém que acaba de presenciar uma tragédia. Era um dos mais empolgados na concentração. Durante o aquecimento, inclusive, pediu que eu levasse ingressos de cortesia no portão para sua esposa, o cunhado e alguns amigos. Perguntei como estava. Um pouco triste, admitiu. Queria ter entrado, dado algo mais, ensaiou aquelas aspas prontas, repetidas pelos famosos e desconhecidos da bola a cada fim de partida. Parou. Inspirou todo aquele silêncio da sala numa sorvida só e expirou, num soluço. As lágrimas e as palavras escorreram, sincopadas:

– O primeiro clube da minha vida… E me acontece isso… Nem pude fazer nada… Ser rebaixado assim é meio… Constrangedor… Você traz a sua família pro estádio, vê sua esposa, os colegas e não pode falar nada… Só olhei pra eles, de longe, e baixei a cabeça… Não pude… Não consegui falar nada, né…

De última hora, Luiz Costa conseguiu que apenas Nilson e Alex seguissem para a delegacia. Alívio das famílias, sem notícias, esperando do lado de fora no escuro. Dou adeus a quem consigo encontrar. Não parecia uma boa hora pra nada. Sem a perspectiva de segunda divisão neste ano, o Sul América também dá adeus. Ele se despede do drama de tentar existir como clube de futebol, num país que a gente mal conhece, esse sem a glória de um Neymar.

Raul Andreucci é jornalista e colaborador do BRIO 

Jogador do Sul América entra em campo com meião aos fiapos  (foto: Raul Andreucci)
Jogador do Sul América entra em campo com meião aos fiapos (foto: Raul Andreucci)