A temporada 2011/12 do Campeonato Suíço entra para a história por motivos bem distintos. Um deles é a espetacular campanha do Basel, que foi campeão com 20 pontos de vantagem sobre o Luzern e, literalmente, sobrou na competição. Mais uma mostra de que os RotBlau estão bem acima de seus concorrentes – seja em nível técnico, estrutural ou de organização –, o que deve causar preocupação aos dirigentes do futebol do país, que certamente preferem um campeonato mais equilibrado.

O outro fator que marcou a Super League foi a quantidade de assuntos extracampo, na sua maioria envolvendo donos de times. Um deles, Bulat Chagaev, até foi preso, acusado de falsificar documentos para comprovar que poderia tirar o Xamax da falência. Não tirou, e o clube acabou eliminado. Outro, Christian Constantin, do Sion, desafiou Uefa e Fifa e acabou vendo seu clube punido e quase rebaixado. Há quem diga que ele até tinha razão na briga, mas o temperamento nada convencional de Constantin colaborou demais para a punição. E ainda houve o Servette, que só não faliu porque um empresário apareceu para salvar a pátria.

Assim, o Suição 2011/12 será lembrado por muito tempo como o campeonato que mostrou um ótimo time e cartolas à beira do caos. Motivos não faltam para a Suíça repensar a estrutura do seu futebol interno.

 

E com este balanço da temporada helvética, despeço-me da coluna Áustria/Suíça, pois a partir da próxima quinta-feira passo a assinar a coluna de Portugal, aqui na Trivela.

Quero agradecer, claro, a todo o pessoal da Trivela, mas de maneira especial quero agradecer aos leitores que durante um ano e dois meses foram fiéis à coluna, que até passou de quinzenal a semanal. De minha parte, posso garantir que fiz o melhor para deixá-los bem informados sobre o que acontece naquele cantinho da Europa, quase alternativo em se tratando de futebol.

A prioridade sempre foi contar as histórias humanas, os dramas, os bastidores. Fatos que vão muito além dos meros resultados de um campeonato de futebol. E que mostram que esse tal jogo de bola vai muito além de 22 homens correndo atrás da dita cuja.

Nos vemos em Portugal, ora pois!

Confira abaixo o desempenho de cada equipe no Suição 2011/12.

BASEL
Colocação final
: campeão, com 74 pontos
Técnico: Thorsten Fink (11ª rodada), Heiko Vogel
Maior vitória: 6×0 Lausanne (9ª rodada)
Maior derrota: 3×1 Luzern (6ª rodada)
Competição continental: eliminado nas oitavas de final da Liga dos Campeões
Principal jogador: Xherdan Shaqiri
Decepção: Radoslav Kovác
Artilheiro: Alexander Frei (24 gols)
Nota da temporada: 9,5

A temporada 2011/12 ganhou espaço especial na história do Basel. O time foi campeão com todos os méritos, com uma campanha excelente: 22 vitórias, oito empates e quatro derrotas. Somente na Super League, chegou a ficar invicto por 26 jogos. Também ganhou a Copa da Suíça e, como cereja do bolo, chegou às oitavas da final da Liga dos Campeões eliminando o Manchester United – e derrotou o Bayern Munique no jogo de ida. A temporada esteve a perigo logo no começo, quando o técnico Thorsten Fink deixou o clube para acertar com o Hamburg. Aí apareceu a figura cativante de Heiko Vogel, até então assistente técnico, que dominou um elenco recheado de estrelas. Nesta temporada, ficou bem claro que o Basel está muito acima de seus concorrentes suíços.

LUZERN
Colocação final
: vice-campeão, com 54 pontos
Técnico: Murat Yakin
Maior vitória: 3×0 Neuchâtel Xamax (1ª rodada)
Maior derrota: 3×1 Thun (15ª rodada), 3×1 Basel (23ª rodada)
Competição continental: não disputou
Principal jogador: David Zibung
Decepção: Hakan Yakin
Artilheiro: Nelson Ferreira (7 gols)
Nota da temporada: 8

Considerando que o Basel está em outra dimensão dentro do futebol suíço, pode-se dizer que o Luzern foi o “campeão” da temporada. Líder em nove das 36 rodadas, o time foi desbancado no 13º giro e, na disputa que realmente empolgou, sustentou o segundo lugar até o fim. A boa campanha – que incluiu também o vice da Copa da Suíça – já é fruto do dinheiro injetado pelo milionário egípcio Samih Sawiris, que comprou 12,5% das ações do clube antes da temporada. Além de ter sido o primeiro entre os times “normais”, o Luzern ainda comemorou o fato de ter a melhor defesa do campeonato, muito graças ao goleiro David Zibung, que atuou em todas as partidas e sofreu 32 gols, um a menos que o Basel.

YOUNG BOYS
Colocação final: 3º lugar, com 51 pontos
Técnico: Christian Gross (31ª rodada), Erminio Piserchia
Maior vitória: 4×0 Thun (26ª rodada)
Maior derrota: 3×1 Lausanne (28ª rodada)
Competição continental: playoffs da Liga Europa
Principal jogador: Alexander Farnerud
Decepção: Nassim Bem Khalifa
Artilheiro: Emmanuel Mayuka (9 gols)
Nota da temporada: 6

O terceiro lugar foi muito pouco para as pretensões anunciadas pelo Young Boys no início da temporada. O clube entrou no campeonato acreditando que poderia acabar com a hegemonia do Basel, apostou na contratação do técnico Christian Gross, mas passou muito longe disso. Tanto que não esteve líder em nenhuma rodada sequer da competição, muito graças ao excesso de empates (foram 12 no total). O jejum de títulos, que agora dura 26 anos, pesou bastante.

SERVETTE
Colocação final
: 4º lugar, com 48 pontos
Técnico: João Alves (16ª rodada), João Carlos Pereira (30ª rodada), João Alves
Maior vitória: 4×0 Sion (7ª rodada)
Maior derrota: 5×0 Basel (26ª rodada)
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Goran Karanovic
Decepção: Carlos Saleiro
Artilheiros: Goran Karanovic e Ishmael Yartey (8 gols)
Nota da temporada: 7

O Servette chegou muito perto de um final desastroso de temporada. Mesmo sendo um tradicionalíssimo clube suíço e dono de uma torcida apaixonada, esteve a ponto de falir. Aliás, chegou até a decretar a falência, mas houve tempo para recuperação. Hugues Quennec, um empresário do ramo de investimentos, que já era dono do time de hóquei de Genebra, apareceu como salvador da pátria. Com uma proposta diferente da maioria dos donos de clubes (ele foi buscar investimentos ao invés de colocar dinheiro do bolso), os Grenats se reergueram e, dentro de campo, os jogadores deram a resposta. Uma vitória sobre o Basel na última rodada deixou o Servette em quarto lugar na Super League, com vaga na Liga Europa. Presentão para quem, mesmo com toda a crise, conseguiu colocar mais de 10 mil pessoas por jogo no estádio.

THUN
Colocação final:
5º lugar, com 43 pontos
Técnico: Bernard Challandes
Maior vitória: 5×2 Lausanne (5ª rodada)
Maior derrota: 4×0 Neuchâtel Xamax (11ª rodada), 4×0 Young Boys (26ª rodada)
Competição continental: eliminado nos playoffs da Liga Europa
Principal jogador: Christian Schneuwly
Decepção: Milaim Rama
Artilheiro: Christian Schneuwly (8 gols)
Nota da temporada: 5

Em sua segunda participação desde que retornou à Super League, o Thun repetiu a campanha da temporada anterior, terminando em quinto lugar. Tudo rigorosamente dentro do planejado. O time não correu riscos em momento algum do campeonato – jamais frequentou a parte de baixo da tabela de classificação e até chegou a liderar, no início. Se não foi uma campanha de fazer o torcedor suspirar, pelo menos o Thun mostra que está no caminho certo, se estruturando e sem dívidas. E teve Christian Schneuwly, o jogador que mais deu assistências no campeonato (oito), excetuando-se os do campeão Basel.

ZÜRICH
Colocação final
: 6º lugar, com 41 pontos
Técnico: Urs Fischer (24ª rodada), Harald Gämperle
Maior vitória: 6×0 Grasshopper (4ª rodada)
Maior derrota: 5×1 Basel (33ª rodada)
Competição continental: eliminado nos playoffs da Liga dos Campeões e eliminado na fase de grupos da Liga Europa
Principal jogador: Adrian Nikci
Decepção: Armine Chermiti
Artilheiro: Adrian Nikci (6 gols)
Nota da temporada: 4

Envolvido numa grave crise financeira, o Zürich amargou mais uma temporada ruim, em que somente conseguiu estar entre os quatro primeiros numa rodada. Tudo muito diferente do passado recente – na década passada, o time monopolizava com o Basel o futebol suíço. Em 2011/12, o FCZ perdeu demais: foram 15 derrotas em 34 jogos. E com um elenco limitado, chegou ao final da temporada com a sensação de que não dava para fazer melhor.

LAUSANNE
Colocação final
: 7º lugar, com 30 pontos
Técnico: Martin Rueda
Maior vitória: 3×1 Servette (27ª rodada), 3×1 Young Boys (28ª rodada)
Maior derrota: 6×0 Basel (9ª rodada)
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Jocelyn Roux
Decepção: Júnior Negão
Artilheiro: Matt Moussilou (8 gols)
Nota da temporada: 4

O Lausanne entrou no Campeonato Suíço com o objetivo de não ser rebaixado e, no fim das contas, conseguiu bem mais do que isso, terminando em sétimo lugar. A campanha foi bem fraca, é verdade: mais derrotas (20) do que vitórias e empates somados (oito e seis, respectivamente). O que salvou a temporada foi a reação na virada do ano: dos 30 pontos ganhos ao longo do certame, 19 foram conquistados em 2012.

GRASSHOPPER
Colocação final
: 8º lugar, com 26 pontos
Técnico: Ciriaco Sforza (29ª rodada), Ulrich Forte
Maior vitória: 2×0 Lausanne (1ª rodada), 2×0 Young Boys (25ª rodada)
Maior derrota: 6×0 Zürich (4ª rodada)
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Frank Feltscher
Decepção: Roman Bürki
Artilheiro: Steven Zuber (8 gols)
Nota da temporada: 2

A torcida do Grasshopper sabia desde o início que a temporada seria dura. Mas não imaginava o tamanho do vexame. Os gafanhotos, maiores vencedores da história do Suição, só não foram ao playoff do rebaixamento por causa da falência do Neuchâtel Xamax e da perda de pontos do Sion. O time teve a pior defesa da competição, com 1,94 gol sofrido por partida, em média. E a decepção não esteve somente dentro de campo. Fora dele, os ultras foram notícias ao atacarem, encapuzados, os torcedores do Zürich. E a média de público, 5.658 torcedores por partida, só foi melhor que a do Xamax.

SION
Colocação final:
9º lugar, com 17 pontos
Técnico: Laurent Roussey (30ª rodada), Sebastien Fontbonne
Maior vitória: 3×0 Neuchâtel Xamax (3ª rodada), 3×0 Thun (8ª rodada)
Maior derrota: 4×0 Servette (7ª rodada)
Competição continental: eliminado nos playoffs da Liga Europa
Principal jogador: Andris Vanins
Decepção: Christian Constantin (dono/presidente)
Artilheiro: Vilmos Vanczak (9 gols)
Nota da temporada: 5

O Sion é mais um caso da temporada suíça em que fica impossível analisar o que o time fez dentro de campo sem olhar também para fora das quatro linhas. Acusado de ter inscrito irregularmente seis jogadores, foi punido pela Uefa e eliminado da Liga Europa (havia obtido a vaga para a fase de grupos). Seu dono, o polêmico Christian Constantin, foi para a Justiça Comum. Como retaliação a Fifa obrigou que a Federação Suíça descontasse 36 pontos da equipe. O time era bom, especialmente do meio de campo para trás e, não fosse o imbróglio, terminaria o campeonato em terceiro lugar. Mas acabou em nono e precisou disputar o playoff do rebaixamento, passando pelo Aarau (vice-campeão da segunda divisão) e mantendo-se na Super League.

NEUCHÂTEL XAMAX
Colocação final
: excluído do campeonato por falência
Técnico: François Ciccolini (2ª rodada), Joaquín Caparros (7ª rodada), Victor Muñoz
Maior vitória: 4×0 Thun (11ª rodada)
Maior derrota: 4×1 Young Boys (9ª rodada)
Competição continental: não disputou
Principal jogador: Kalu Uche
Decepção: Bulat Chagaev (dono/presidente)
Artilheiro: Kalu Uche (6 gols)
Nota da temporada: 0

É impossível analisar o Neuchâtel Xamax somente com o que o time fez dentro de campo. Entregue a um magnata checheno cuja fortuna, se é que existe, tem origem incerta, o clube foi à falência e só pôde disputar a primeira metade do campeonato. As trapalhadas cometidas por Bulat Chagaev fizeram o Xamax ser excluído da competição e, ele próprio, preso preventivamente acusado de falsificar documentos. Pelas regras do futebol suíço, o time terá de jogar as últimas divisões, que são regionalizadas. Sem Chagaev por perto, um grupo de torcedores está agora tentando reeguer o Xamax para, literalmente, começar do zero.