A classificação da Etiópia para a Copa Africana de Nações deste ano, após 31 anos de ausência, já simbolizava o desenvolvimento do futebol no país. Na última semana, no entanto, outra façanha ratificou essa ascensão. E desta vez foi um clube local a fazer história: o Saint George, clube mais vitorioso da Etiópia, eliminou o favorito ENPPI, do Egito, e garantiu classificação para a fase de grupos da Copa das Confederações da África (uma espécie de Liga Europa do continente), tornando-se assim no primeiro clube etíope a disputar a fase de grupos de uma competição continental.

Verdade seja dita, a façanha por pouco não foi ainda maior. Campeão nacional na temporada passada, o Saint George chegou a disputar a fase preliminar da Liga dos Campeões neste ano, mas acabou eliminado na última fase eliminatória. O algoz foi o tradicional Zamalek, que não venceu nenhum dos dois jogos (1 a 1 na Etiópia e 2 a 2 no Egito) e só se classificou com um gol aos 42 minutos do segundo tempo. “Rebaixados” para a Copa das Confederações, os etíopes passaram pela fase preliminar e caíram no Grupo A, ao lado de Stade Malien (Mali), Enugu Rangers (Nigéria) e Étoile du Sahel (Tunísia).

A classificação do Saint George possui um significado inestimável para o futebol etíope, que caminha para o profissionalismo. O feito coincide com um momento no qual a liga local passa a movimentar uma quantia considerável de dinheiro e os clubes começam a buscar formas de se tornarem autossustentáveis.

Tomemos como exemplo o próprio Saint George, que trabalha na construção de um novo estádio, com capacidade para 22 mil pessoas. A construção foi possível graças ao Sheik Mohammed Hussen Ali Almoudin, homem mais rico da Etiópia e torcedor do clube. Ele contribuiu com 80% do valor total, que é aproximadamente 18 milhões de dólares. Os outros 20% foram bancados por um grupo de investimento dos torcedores do clube. Como tem sido praxe na África, o estádio foi erguido por uma empresa chinesa.

A “ressurreição” da seleção etíope, uma das fundadoras da Copa Africana de Nações, possibilitou uma enorme valorização do campeonato nacional. A liga recentemente assinou contratos de patrocínio com a Heineken e com a empresa de telecomunicações MTN. Os próprios clubes já começam a vivenciar uma nova realidade financeira. Jogadores e treinadores passaram a ganhar mais, porém os valores estão longe de serem exorbitantes – são até irrisórios comparados a outros centros. Swenet Bishaw, treinador da seleção etíope, tornou-se o técnico mais bem pago do futebol local em toda a história. O seu salário? Pouco mais de mil euros.

Mesmo os jogadores da seleção da Etiópia admitem que não conseguem sustentar suas famílias apenas com os seus respectivos salários. A perspectiva de evolução nesse sentido deve ser vista com ressalvas: aproximadamente 75% dos clubes locais ainda dependem do governo para sobreviver. A estrutura dos clubes também não é a ideal – muitos deles, por exemplo, treinam em locais alugados. Falta mentalidade empresarial aos dirigentes, que não conseguem gerir seus clubes visando o lucro.

A Federação Etíope de Futebol (EFF) também precisa se organizar de forma mais profissional. A criação de um site oficial da entidade foi um passo importante, porém o fluxo de informações ainda é pequeno. Outro ponto negativo é que os funcionários da federação, incluindo até o presidente, trabalham de forma voluntária. De qualquer forma, tudo que já foi feito no tocante à estrutura e administração do futebol local já está rendendo frutos. A seleção etíope faz ótima campanha nas eliminatórias para a Copa e os clubes locais, como o Saint George, começam a almejar um espaço no cenário continental. E esse é só o começo.

Curtas

– Em preparação para a Copa das Confederações, a Nigéria enfrentou o México em Houston e ficou no empate em 2 a 2. Bom teste para as “Super Águias”, que não contaram com Obi Mikel – além de Moses e Emenike, já cortados da Copa das Confederações por lesão. Jogando no 4-3-3, a seleção teve como destaque os homens de meio-campo – John Ogu, Sunday Mba e (principalmente) Ogenyi Onazi.

– As equipes classificadas para a fase de grupos da Copa da Confederação Africana foram definidas neste fim de semana e o chaveamento já está definido. Além do supracitado Grupo A, temos ainda o Grupo B, no qual o Mazembe desponta como o grande favorito. A chave é traiçoeira. O FUS Rabat (que eliminou o rival FAR Rabat), o Bizertin e o ES Sétif (que tinha apenas 11 jogadores de linha disponíveis para o jogo de volta contra o US Bitam, do Gabão) são adversários duríssimos.

– Em resposta a um pedido da Fifa, a nova data para as eleições da Fecafoot (Federação Camaronesa de Futebol) é 11 de junho. Por conta de “razões de segurança”, as eleições haviam sido suspensas no dia 25 de maio. Iya Mohammed, que preside a federação há mais de uma década, é acusado de corrupção e sua elegibilidade ainda é contestada.

– Jorvan Vieira, luso-brasileiro que faz boa temporada no comando do Zamalek, não renovará seu contrato com o clube egípcio, que expira no dia 30 de junho. O treinador reclama de salários atrasados – situação recorrente no clube, que vive uma grave crise financeira.

– Faltando uma rodada para o fim do 1º turno do Campeonato Angolano, o invicto Kabuscorp nada de braçada na ponta. Com a vitória sobre o Santos por 3 a 2, o ex-time de Rivaldo pulou para 36 pontos, sete a mais que o vice-líder, Primeiro de Agosto.