O fardo pesava. Os Mágicos Magiares haviam se transformado em passado, diante da repressão soviética à Revolução Húngara de 1956. Puskás, Kocsis e Czibor abandonaram o país e reduziram a qualidade do time. Sem os três craques, a seleção húngara deixava de ser a potência que assombrou o mundo no início da década. Ainda permaneciam grandes jogadores, claro. Mas a fraca campanha na Copa do Mundo de 1958 evidenciava que os novos tempos seriam bem mais duros. A geração dourada estava envelhecida. Era preciso confiar em novas opções. E os húngaros rendem sua gratidão a Florián Albert, um talento digno de seus antecessores, que se tornou a grande estrela da seleção nos anos 1960. Faturou a Bola de Ouro, algo que nem os antigos mágicos tiveram oportunidade.

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Albert cresceu admirando Puskás, o ‘Major Galopante’, e as outras lendas húngaras. Viraria o ‘Imperador’. Iniciou sua carreira nas categorias de base de Ferencvárosi justamente em 1952, quando os magiares despontavam no cenário internacional com a conquista do ouro olímpico. O jovem, entretanto, precisou esperar mais alguns anos para cumprir o seu sonho. Neste intervalo, viu a decepção no Mundial de 1954, a perseguição aos craques e a debandada deles para a Europa Ocidental dois anos depois. O atacante estreou profissionalmente em novembro de 1958, aos 17 anos. A partir de então, virou um fenômeno no futebol local.

O surgimento de Albert ganhou ares de esperança em vários sentidos. Primeiro, para a própria seleção, que precisava urgentemente de novas pernas. Depois, para o Ferencvárosi. Clube mais popular da Hungria, era historicamente ligado ao velho nacionalismo, o que caiu em desgraça com o regime comunista. Não à toa, a ascensão do Honvéd, o time do exército respaldado pelo governo para formar o esquadrão magiar, drenou as forças dos alviverdes. De lá saíram Kocsis, Czibor e Budai, campeões nacionais em 1949 com o clube, mas transferidos obrigatoriamente ao Honvéd. Desde aquela temporada, o Ferencvárosi não conquistara mais a taça.

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Pouco tempo depois de sua estreia, Albert já era reconhecido como um dos melhores jogadores húngaros. Em 1959, ganhou sua primeira convocação à seleção e ganhou os primeiros votos na eleição da Bola de Ouro. No ano seguinte, ajudou o time nacional a conquistar a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Roma. Já em 1962, terminou a Copa do Mundo como um dos artilheiros e também apontado como a grande revelação. Anotou quatro gols em quatro jogos, na campanha que parou nas quartas de final, diante da Tchecoslováquia de Masopust. Gyula Grosics era o único remanescente de 1954 naquele elenco.

albert

Em 1962/63, Albert deu um salto para ser lembrado como o maior ídolo da história do Ferencvárosi. Liderou a campanha do título húngaro, encerrando o jejum de 14 anos. Mais do que isso, os alviverdes iniciariam uma hegemonia que garantiu a conquista mais três vezes até 1968. E o craque fez mais, ao expandir as fronteiras. De 1961 a 1974, o clube disputou competições continentais em 12 temporadas.

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O primeiro título internacional do Ferencvárosi se consumou em 1965, na antiga Taça de Feiras – a atual Liga Europa. Os húngaros eliminaram o Manchester United de Matt Busby na semifinal, antes de baterem a Juventus por 1 a 0 na decisão. Depois da derrota, os bianconeri tentaram levar Albert para Turim, mas o governo barraria a transferência de seu ‘tesouro nacional’. O atacante disputaria ainda mais uma final do torneio, perdendo para o Leeds de Don Revie em 1968. Dois anos antes, foi artilheiro da Copa dos Campeões, quando caiu nas quartas de final para a Internazionale de Helenio Herrera.

Ainda assim, a maior chancela da classe de Albert viria mesmo com a seleção. Em 1964, liderou a campanha rumo às semifinais da Eurocopa, eleito para a seleção do torneio. Uma prévia de suas atuações soberbas na Copa do Mundo de 1966. O camisa 9 deslumbrou na Inglaterra, sobretudo no duelo com o Brasil. O jogo pela segunda rodada teve grande peso na classificação. E, sem o lesionado Pelé, quem reinou no Goodison Park foi o húngaro. Albert dominou o meio-campo e participou das jogadas dos três gols de sua equipe na vitória por 3 a 1. Deixou o gramado ovacionado e com seu nome gritado pelos presentes.

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Aquela partida resume bem o talento de Albert. Alto e imponente, atuava com uma elegância que lhe era peculiar, de cabeça erguida e passadas largas. A capacidade de manter a bola grudada ao pé, mesmo em alta velocidade, impressionava e garantia um grande repertório de dribles ao ambidestro. No célebre esquema dos húngaros, fazia a função tática mais importante, que em outros tempos era do cerebral Hidegkuti: a do atacante centralizado que recuava ao meio, puxando a marcação e ganhando espaço armar. Assim, o camisa 9 aproveitava melhor a sua visão ímpar e a precisão de seus passes.

Obviamente, a Hungria não contava apenas com Albert. O bom time possuía outros jogadores que fizeram seu nome, como Sipos, Bene e Tichy. Nenhum deles, porém, atuou no nível do camisa 9 naquele Mundial. Albert compôs o ataque do time ideal ao lado de Seeler e Eusébio. Só não teve vida muito longa na competição, com os magiares eliminados pela União Soviética nas quartas de final.

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Citado todos os anos entre os melhores da Europa desde 1962, Albert terminou em quinto na eleição da Bola de Ouro em 1966. Ficou atrás apenas de outros quatro destaques da Copa do Mundo: Bobby Charlton, Eusébio, Beckenbauer e Bobby Moore. Entretanto, o maior reconhecimento se deu no ano seguinte. Campeão húngaro com 28 gols em 27 partidas e esbanjando sua magia nos torneios continentais, Albert faturou a Bola de Ouro em 1967. Recebeu 68 votos, 28 a mais que Bobby Charlton. Jimmy Johnstone, Beckenbauer e Eusébio completaram o Top 5. Curiosamente, no início daquele ano, Albert vestira a única camisa de um clube que não fosse a do Ferencvárosi: a do Flamengo. Em visita ao Brasil a convite de um dirigente, defendeu os rubro-negros em um duelo amistoso contra o Vasco. Nutriu um sincero carinho pelo país.

Naquele momento, aos 26 anos, Albert prometia se manter no topo por mais tempo. Mas uma fatalidade atrapalhou decisivamente a sua carreira. Em junho de 1969, durante as Eliminatórias da Copa, sofreu uma fratura na perna. Passou quase um ano afastado dos gramados e nunca mais apresentou o mesmo nível de antes. Sua última aparição em um torneio internacional aconteceu na Euro 1972. Dois anos depois, aposentou-se do Ferencvárosi, em partida na qual saiu carregado nos braços pela torcida.

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A importância de Albert para os alviverdes é tamanha que passou a dar nome ao estádio do clube, de 2007 até 2013, quando acabou demolido. Uma homenagem recebida ainda em vida pelo ídolo. O ex-atacante faleceu em outubro de 2011, aos 70 anos, vítima de complicações em uma cirurgia cardíaca. Deixou uma história incontestável, que merece ser resgatada no dia em que faria 75 anos.

Chamada Trivela FC 640X63