Uma das marcas do Stoke City comandado pelo técnico Tony Pulis era um futebol inglês à antiga: 4-4-2 ortodoxo, com duas linhas de quatro, muita bola longa e cruzamentos para a área. O time não jogava um futebol lá muito vistoso, mas era eficiente. Teve até um momento de consagração do meio-campista Rory Delap, um jogador medíocre com a bola nos pés, mas excelente em cobrar laterais para a área. Foi assim que o time subiu para a Premier League em 2007/08 e passou a figurar na primeira divisão. Desde então, nos acostumamos a ver um time muito duro, mas difícil de ser batido em Stoke-on-Trent. Mas nas últimas temporadas, isso mudou, mesmo mantendo alguns jogadores associados a esse jogo físico e duro, como o centroavante Peter Crouch.

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Nesta temporada, o Stoke terá três ex-jogadores do Barcelona no elenco: o zagueiro Marc Muniesa, o atacante Bojan Krkic e nesta janela contratou o meio-campista Ibrahim Afellay. Além deles, o time ainda tem Joselu, atacante que passou pelo Real Madrid, mas não foi aproveitado pelo time principal. Trouxe ainda o holandês Marco van Ginkel, emprestado pelo Chelsea e considerado um jogador com potencial. Mas o que leva um time como o Stoke, que tinha um estilo tão duro, a ter jogadores com estilo tão diferente?

As duas últimas temporadas mostraram um Stoke cada vez menos no estilo de Tony Pulis, de futebol direto, força física, bola aérea e insistência em bolas paradas, e cada vez mais um time de toque de bola. Não por coincidência, contratou jogadores com mais característica técnica, alguns deles vindo diretamente do Barcelona, como Muniesa e Bojan.

O ambiente do estádio Britannia, de uma torcida apaixonada e que pressiona os rivais, não mudou. Continua sendo um dos campos mais duros de se jogar na Premier League – o Liverpool que o diga depois de tomar um 6 a 1 no último jogo de Steve Gerrard pelo clube, na última rodada da Premier League da temporada passada. Mas se o ambiente não mudou, o estilo do time sim. Saem Delap e seus cruzamentos ruins com os pés e magníficos com as mãos para um time que gosta de ter a bola.

Estatísticas do Squawka mostram uma mudança de estilo significativa no time. Na temporada 2012/13, a última sob o comando do antigo técnico, o time teve uma média menor de gols marcados do que um por jogo (0,89). Nas duas temporadas seguintes, já com Mark Hughes no banco de reservas, o time pulou para 1,18 em 2013/14 e 1,26 e 2014/15.

O time também passou a trocar mais passes. Em 2012/13, o time teve 315,97 passes por jogo; em 2013/14, 393,79; em 2014/15, 386. O índice de acerto de passe subiu de 70% em 2012/13 para 78% nas duas temporadas seguintes. Uma mudança que levou o time a estar nas suas melhores posições na tabela desde que subiu da segunda divisão: nono lugar tanto em 2013/14 quanto 2014/15. Desde que voltou à primeira divisão, a melhor posição do time tinha sido em 2009/10, quando terminou em 11º.

Futebol é muito legal porque permite diversas formas de jogar e era legal ver o Stoke, mesmo sem jogar um futebol bonito, complicar os jogos contra os grandes times ingleses (o Arsenal que o diga). Mas é legal também ver que o time não é escravo de um só estilo e pode tentar jogar mais. Ainda mais quando isso traz resultados em campo que fazem o time jogar mais e melhor.

É claro que o dinheiro monumental dos direitos de TV transforma o pequeno Stoke em um time com força para contratar até jogadores de times médios e grandes de outros países (vale lembrar que o time chegou a acertar a compra de Shaqiri, da Internazionale, mas o jogador não aceitou a transferência). De qualquer forma, o mais interessante é ver que um time como o Stoke e o seu futebol incrivelmente direto e tosco tenha se inspirado em um estilo como o do Barcelona. Mas dá um certa saudade do Delap e daquele jogo tosco em Stoke-on-Trent.