Durante o próximo sábado, Verona e Juventus se enfrentarão no Estádio Marcantonio Bentegodi, pela Serie A. E a partida terá uma iniciativa pioneira no país para tentar combater o racismo: os stewards responsáveis pela segurança nas arquibancadas usarão uma câmera acoplada no uniforme. O equipamento visa facilitar a identificação dos torcedores, caso algum tipo de manifestação preconceituosa aconteça.

A medida indica a gravidade do problema no futebol italiano, quando apenas uma ameaça de punição efetiva parece ter efeito. No entanto, também é importante para atribuir as responsabilidades individuais e não restringir as sanções de maneira generalizada às torcidas, o que não resolve. Diante do crime que tantas vezes ocorre impunemente nos estádios de futebol, as câmeras podem realmente combater o racismo. Mas isso dependerá também de uma postura incisiva das autoridades – o que não vinha acontecendo nos últimos tempos.

A ideia parte do Verona. No início de novembro, torcedores do clube entoaram gritos racistas contra Mario Balotelli. O jogo diante do Brescia precisou ser paralisado e o atacante se revoltou, mas acabou convencido a continuar em campo. Nos dias seguintes, uma série de declarações deploráveis normalizava o caso. O presidente gialloblù disse que os torcedores eram “irônicos, não racistas” e que podia “confirmar que nada aconteceu”. O treinador da equipe e o líder dos ultras também endossavam o discurso repugnante. Ao menos, o clube depois tomou suas atitudes. Baniu o líder dos ultras, assim como um torcedor identificado pelos insultos.

Com as câmeras acopladas aos coletes dos stewards, o Verona pretende apontar os indivíduos responsáveis em possíveis novos episódios, evitando uma generalização do racismo. A torcida dos gialloblù está entre as mais envolvidas com episódios racistas no futebol italiano. Antes do jogo contra a Juventus, o clube fez testes com as câmeras durante o compromisso com o Lecce e avaliou que a tecnologia está apta a ser aplicada de maneira recorrente no Marcantonio Bentegodi.

Conforme as informações da Gazzetta dello Sport, ainda não se sabe o número de câmeras que os stewards usarão e nem em quais os setores do estádio o recurso será acionado. De qualquer maneira, há uma mudança de postura importante, após os insistentes negacionismos e reducionismos que imperam no Calcio. Mudanças recentes nas normas da federação forçam medidas mais ativas dos clubes contra o racismo. As agremiações precisam aumentar a vigilância nos estádios e disponibilizar os meios para identificar os indivíduos nas arquibancadas.

Ministro da Juventude e do Esporte, Vincenzo Spadafora também anunciou o uso de novas tecnologias nos próximos meses. Segundo o político, os estádios italianos deverão contar com radares sonoros e sistemas de vídeo que contribuem ao reconhecimento facial. A intenção é implantar os equipamentos ao menos até a Euro 2020, que terá o Estádio Olímpico de Roma como uma de suas sedes. “Dentro de algumas semanas, poderemos testar pela primeira vez em nosso país, nos principais estádios, as novas tecnologias para ajudar o trabalho dos policiais. Esperamos poder usá-las na primeira partida da Eurocopa, no próximo 12 de junho”, declarou.

“No nosso sistema jurídico, não existem isenções aos estádios por comportamentos abusivos ou difamatórios. Você não se torna racista no estádio, mas se mostra como é quando se sente ainda mais livre e se vale dos modelos que sempre acabaram consentidos nas arquibancadas. Deveríamos trabalhar com ferramentas inovadoras, para evitar qualquer atenuação desses casos, e também com campanhas de conscientização, especialmente entre os jovens, para atuar sobre o seu nível cultural”, complementou Spadafora. Enfim, declarações pertinentes para atacar o racismo. Aguarda-se, agora, o empenho nas ações e nas reações.