A fé regeu os passos de quem se dirigiu ao Estádio de Son Moix neste domingo. Era preciso se agarrar à confiança, diante da missão complicada que o Mallorca enfrentaria no jogo de volta da decisão dos playoffs da segunda divisão espanhola. A paixão pelo clube já tinha ajudado os bermellones a encararem provações maiores nos últimos anos. Ainda assim, superar a derrota por 2 a 0 contra o Deportivo de La Coruña na ida dependeria da crença inabalável dos baleares. Uma convicção que se reforçou quando Ante Budimir abriu o placar e que tomou a atmosfera depois do tento de Salva Sevilla. Até que, a oito minutos do final, Abdón Prats fez a certeza transbordar. A vitória por 3 a 0 não apenas confirmou o retorno do Mallorca à elite da Liga após seis anos, com o segundo acesso consecutivo. Ela encerrou um ciclo de penúrias e incertezas. E, prova maior da façanha, desencadeou uma comemoração inesquecível diante da fé recompensada.

A história do acesso do Mallorca não começa neste domingo ou mesmo no início da atual temporada. Ela precisa ser contada desde 2012/13. Os bermellones completavam 15 anos seguidos na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Atravessavam o seu período mais consistente na elite, durante o qual protagonizaram episódios inesquecíveis. As duas vezes em que o time foi terceiro colocado, a decisão da Recopa Europeia e o título da Copa do Rei simbolizavam a força dos baleares naqueles tempos. Porém, a bonança aos poucos se esvaiu. As penúrias resultaram em um rombo financeiro e dificuldades para manter um time competitivo. O preço pago ao final daquela campanha seria doloroso, com o descenso consumado.

Os anos gloriosos do Mallorca, todavia, não possibilitaram o retorno imediato à primeira divisão. Na realidade, o clube se afundou ainda mais em seus problemas. O caixa enxuto na segunda divisão ampliou as dificuldades financeiras e, pior que um figurante, o time se transformou em candidato ao rebaixamento para a terceira divisão. As disputas internas em sua gestão não eram novas, vinham desde anos antes – mesmo quando os desempenhos na elite eram satisfatórios. E o descenso encadeou um ciclo de mudanças de técnicos, quedas de braço na diretoria, instabilidade na presidência. De 2012/13 a 2015/16, foram dez treinadores diferentes e também quatro presidentes diferentes. Até que as promessas de novos tempos se proclamassem com a chegada de um investidor de peso.

Em janeiro de 2016, o Mallorca ganhou um novo acionista majoritário. Robert Sarver já sondava o futebol espanhol e tentou comprar o Levante. O negócio acabou barrado pela própria torcida valenciana, o que levou o magnata a se voltar às Ilhas Baleares. O empresário, contudo, não era um mero aventureiro. Desde 2004, o banqueiro havia acumulado grande experiência no basquete, como dono do Phoenix Suns. Apesar da queda de desempenho nesta década, conduzira a franquia do Arizona a grandes campanhas na NBA. Não à toa, um de seus companheiros no novo projeto era seu antigo craque nas quadras: Steve Nash, reconhecidamente apaixonado por futebol e também um dos donos do Vancouver Whitecaps.

Sarver desembolsou €20,6 milhões para ampliar o capital do Mallorca em sua chegada e aliviou a situação financeira do clube. Esportivamente, entretanto, o trabalho dos novos acionistas precisaria ser mais profundo. “Eu me sinto agradecido e honrado em investir em um clube com história tão rica e creio que aqui se reúnem todos os requisitos para se levar a cabo o grosso de nossos projetos, que também incluem a melhora da infraestrutura”, declarou o empresário, em sua apresentação. “Chegamos com a ideia de retornar à elite o quanto antes, mas sabemos que o dinheiro não garantirá êxito”. De fato, a caminhada seria mais longa do que a prevista. Depois de assegurar a permanência na segundona ao final daquela temporada, os bermellones seriam rebaixados na campanha seguinte.

“O pior que pode acontecer no futebol é ser rebaixado. Estávamos muito decepcionados, mas ao mesmo tempo o clube levava seis ou sete anos em que não trabalhavam bem. Creio que essa foi uma oportunidade para vermos os erros que cometiam há mais tempo, para poder corrigi-los e aprender com eles, para criarmos uma estrutura mais estável”, declarou Steve Nash, em outubro de 2017. “Creio que temos que olhar para muitos clubes que realmente fazem as coisas bem. Temos que pegar estas coisas boas e colocá-las em contexto, porque o que o Barcelona faz talvez não seja possível no Mallorca. Mas há certas coisas que podemos aprender com eles, e existem aspectos de clubes com o nosso tamanho que podemos adaptar”. Desde que se juntou à gestão do clube, como conselheiro, o veterano das quadras faz viagens periódicas a Palma de Mallorca.

As palavras de Nash não eram da boca para fora. O novo Mallorca realmente começaria sua ascensão a partir da terceira divisão do Campeonato Espanhol, em sua primeira passagem pelo futebol semi-profissional desde 1981. Os bermellones realizaram uma modificação profunda em seu elenco e apenas três jogadores permaneceram para a nova empreitada. Deu certo. O clube conquistou o seu grupo regional e, no duelo do acesso com o Mirandés, confirmou o retorno imediato à segundona. Mais do que isso, também ficaria com o título, ao derrotar o Rayo Majadahonda na decisão. Era um bom presságio ao futuro. De qualquer maneira, os passos precisavam ser firmes. Garantir a continuidade na segunda divisão era a prioridade antes de pensar no retorno à elite.

O Mallorca já tinha investido em um elenco forte para a terceira divisão. Trouxe jogadores que pouco antes haviam atuado em La Liga, com Salva Sevilla, Marc Pedraza, Xisco Campos e Manolo Reina. Um grupo que também se mostraria competitivo na segunda divisão, após mais alguns acréscimos. Mantendo o trabalho do técnico Vicente Moreno, que subira com o Nástic de Tarragona, o Mallorca se segurou na parte de cima da tabela durante toda a temporada 2018/19. Além disso, emendou uma ótima sequência a partir de março. A presença nos playoffs soavam como um prêmio e tanto, a quem acabara de subir. O aproveitamento em casa, batendo os 78%, permitia confiar que o novo acesso seria possível. Son Moix viraria uma fortaleza.

O primeiro grande passo do Mallorca viria contra o Albacete. Os baleares começaram as semifinais dos playoffs jogando em casa e venceram por 2 a 0. Leonardo Suárez e Dani Rodríguez anotaram os gols. Assim, a vitória por 1 a 0 na visita aos manchegos já valeu a classificação. O desafio, no entanto, aumentava consideravelmente na decisão da promoção. Que os bermellones jogassem a volta diante de sua torcida, o Deportivo acabara de cair da primeira divisão e contava com um elenco mais qualificado. O encontro no Riazor, diante de um clima quente, já tornou bem mais árdua a tarefa dos visitantes.

O Depor ganhou a ida por 2 a 0. Em uma partida intensa, nem mesmo o corte profundo no rosto do capitão Álex Bergantiños, em lance que rendeu a expulsão de Pedraza, abalou os galegos. Abriram o placar no primeiro tempo e, com um a mais durante toda a segunda etapa, definiram o triunfo nos minutos finais, com um tento que gerou muitos protestos dos baleares. Depois do jogo, ainda aconteceu uma confusão nas tribunas. Salva Sevilla dava uma entrevista quando torcedores do Deportivo passaram a insultá-lo. O meio-campista não se conteve, mas o imbróglio não teve maiores consequências. A vingança se daria em campo.

No Son Moix, o Mallorca tinha um objetivo claro. Precisava vencer por 2 a 0 para forçar a prorrogação e só um triunfo qualquer por três gols de diferença garantiria o acesso. A regra dos tentos fora de casa, ainda assim, deixava sua situação no limite, caso o Deportivo balançasse as redes. Focados, os bermellones partiram para cima durante o primeiro tempo e abriram a contagem logo aos 22 minutos. Com uma pintura. Após uma troca de passes rápida, Ante Budimir aplicou uma caneta no marcador e, da entrada da área, acertou um chute indefensável. Os baleares mantiveram o domínio durante os 45 minutos iniciais e só não ampliaram porque o goleiro Dani Giménez realizou duas grandes defesas na meta do Depor. Os anfitriões tinham motivos para se animar. “Sí se puede, sí se puede”, era o coro nas tribunas.

O Mallorca voltou do intervalo com a faca entre os dentes. Disposto a resolver a partida, o time criou boas ocasiões nos primeiros minutos de jogo, até que Salva Sevilla respondesse aos críticos. Aos 17, o veterano cobrou uma falta perfeita e ampliou a diferença aos bermellones. Neste momento, a prorrogação estava a caminho e um gol faria enorme diferença a qualquer um dos times. O Deportivo esteve a ponto de descontar aos 33. Quique pegou uma bola de primeira na área e o goleiro Manolo Reina realizou uma defesa fantástica à queima-roupa. Manteve a chama viva, até que o Son Moix pegasse fogo quatro minutos depois. O terceiro gol dos baleares foi justamente o mais belo em uma noite de pinturas. Abdón Prats arriscou o tiro do meio da rua e foi extremamente feliz, num petardo às redes.

Naquele momento, a promoção estava nas mãos dos anfitriões, mas os galegos ainda não haviam desistido. E o clímax da noite aconteceu já nos acréscimos. Em uma cobrança de falta levantada na área, Pablo Mari recebeu o cruzamento exatamente em sua cabeça. Estava livre de marcação, quase na risca da pequena área, apenas com Manolo Reina à sua frente. O zagueiro pôde escolher o que fazer. Escolheu errado, cabeceando para fora, a centímetros da trave. Aquele poderia ser o milagre do Deportivo. Transformou-se na confirmação do Mallorca, logo desencadeando a ensandecida invasão de campo no Son Moix.

Nas arquibancadas, um torcedor especial festejava. Nascido nas Ilhas Baleares, Rafael Nadal frequentou o estádio desde pequeno, influenciado por seu tio, o ex-defensor Miguel Ángel Nadal. Embora também seja apaixonado pelo Real Madrid, o tenista chegou a comprar uma parcela das ações do clube (que venderia em 2011) e se disponibilizou a ajudar financeiramente diante da crescente crise financeira. A lenda não escondia a sua euforia com o feito deste domingo. Era mais um no meio da multidão, em êxtase pela maneira como a virada improvável contra o Deportivo se tornou possível.

Dos 11 jogadores que compuseram o time titular do Mallorca na reta final da segunda divisão, sete estavam no elenco desde a terceirona. As contratações foram pontuais, mas cirúrgicas para elevar o potencial. E ficava evidente um comprometimento com o clube, especialmente dos jogadores mais tarimbados, como Salva Sevilla e Manolo Reina. Estavam empenhados em fazer uma agremiação tradicional reviver a sua grandeza. Conseguiram, graças ao futebol objetivo e agressivo praticado sob as ordens de Vicente Moreno. Depois de anos tão difíceis, o horizonte parece amplo aos bermellones. Há um projeto sério por trás, que poderá firmar a equipe novamente na primeira divisão, apesar do desafio que será lidar com o salto precoce. Uma jornada fantástica, que certamente valoriza todos os esforços nestes seis anos distantes da elite.