Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu em 1914, os civis britânicos que tiveram o azar de estarem na Alemanha no momento, seja de férias, a trabalho ou estudando, foram levados para o campo de concentração de Ruhleben, no distrito de Spandau, próximo a Berlim. Entre esses priosioneiros de guerra esteve Steve Bloomer, capturado na noite de 5 para 6 de novembro daquele ano, há exato um século. Uma lenda na história do Derby County, Bloomer havia encerrado sua carreira como profissional naquele ano e se mudado para a Alemanha para iniciar a trajetória como técnico no Britannia Berlin 92. Não teve tempo para isso, e, três semanas após chegar, o conflito se iniciou. Depois de alguns meses, começaram as internações dos britânicos em Ruhleben. Mas isso não afastou o antigo artilheiro do futebol.

VEJA TAMBÉM: Essa narração de rádio fez bruxaria no Flamengo?

Bloomer foi um dos maiores nomes do futebol inglês em suas primeiras décadas de profissionalização. Com mais de 300 gols em competições nacionais, maior parte deles com a camisa do Derby, mas também com a do Middlesbrough, pelo qual jogou por cerca de quatro anos, era um atacante de ponta. Destacou-se também pela seleção, tomando para si o recorde de maior número de gols na equipe, com 28 em 23 jogos. Antes dele, o recordista era Tinsley Lindleys, com 14. Com a experiência que conseguira durante os 22 anos de carreira, entre 1892 e 1914, foi para a Alemanha iniciar o trabalho como técnico. Pelas circunstâncias sob as quais logo se encontraria no país, deu uma estendida no tempo de atividade como atleta mesmo.

Em vez de ficarem ociosos no campo de concentração, os civis britânicos presos em Ruhleben desenvolveram uma comunidade bastante ativa. Mas como é que, em um campo de concentração, conseguiram tal coisa? Segundo o biógrafo de Bloomer, Peter Seddon, os britânicos levados para lá estavam na Alemanha por seus talentos. Eram músicos, cientistas, atores, empresários, acadêmicos e, como o artilheiro, jogadores de futebol de talento. Os próprios internos pediram permissão para que comandassem a vida dentro do campo de concentração, e, talvez pelo status com que chegaram ao país, como conclui Seddon, conseguiram a permissão.

Combinado inglês de Ruhleben (Foto: National Army Museum, London)
Combinado inglês de Ruhleben (Foto: National Army Museum, London)

Logo, surgiram clubes de artistas, grupos de encenação de peças teatrais, aulas de literatura e, claro, futebol. Além de Bloomer, Ruhleben tinha algumas dezenas de atletas profissionais britânicos, entre eles alguns nomes notórios da época do futebol inglês, como os colegas de seleção inglesa Samuel Wolstenholme e Fred Spiksley, Fred Pentland, com quem Bloomer jogou no Middlesbrough, John Cameron (ex-seleção escocesa) e Edwin Dutton, nascido na Inglaterra, criado na Alemanha, com passagem pela seleção alemã, mas que ainda assim também foi para o campo de concentração.

Estima-se que o campo de concentração tinha entre 4 e 5,5 mil pessoas. Com uma organização exemplar, incluindo a criação de uma federação de futebol, torneios e copas, esses atletas disputavam partidas usando nomes de tradicionais clubes de sua terra-natal, como Tottenham XI e Oldham Athletic XI – além de disputas entre “seleções”, e os duelos chegavam a ter mais de mil pessoas, o que dá uma boa dimensão do que o esporte representou para essas pessoas que se viram vítimas do conflito.

Prévia de uma partida entre irlandeses e escoceses
Prévia de uma partida entre irlandeses e escoceses

Em 22 de novembro de 1918, após o fim da Grande Guerra, Bloomer retornou a Derby, encontrando sua família ainda na estação de trem. De lá até sua morte, em 1938, recontou muitas vezes sua história, e talvez as palavras mais bonitas, citadas por seu biógrafo, tenham sido essas que usou para definir o significado do futebol para aqueles civis.

“Em Ruhleben, éramos todos irmãos. Fizemos uma vida pra nós mesmos a partir do nada. Sempre compartilharemos um parentesco e nunca nos esqueceremos. Houve tempos terríveis. Sem dúvidas, meninos se tornaram homens em Ruhleben. Mas é muito mais agradável relembrar os bons tempos, quando íamos jogar críquete e futebol. Esses eram os dias em que os homens se tornavam meninos novamente.”