Paris foi vítima de atentados que mataram 129 pessoas e deixaram mais de 300 feridos. Cenas que começaram longe do centro da cidade e, na verdade, fora dos limites do município, no subúrbio norte, em Saint Denis. Uma região, alias, cheia de imigrantes e seus descendentes, capaz de simbolizar o retrato de um país marcado por diferentes culturas, etnias e influências. O Stade de France, que fica ali e foi construído como o estádio mais importante para a Copa do Mundo de 1998, tornou-se palco de uma das tentativas mais ousadas de atentado já vistas, ao tentar explodir uma bomba em um estádio com mais de 80 mil pessoas e com as seleções da França e da Alemanha se enfrentando em um amistoso. Uma tentativa que tinha um alvo claro e causou, como esperado, terror. Mas que também conseguiu deixar terroristas frustrados porque justamente ali, onde havia o maior potencial de estrago, o plano não se realizou por completo. E isso tem tudo a ver com futebol e com esporte.

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A sexta-feira 13 já teve um episódio bastante tenso durante aquela manhã. A seleção alemã foi obrigada a evacuar o Hotel Molitor, onde estava hospedada, por algumas horas. O motivo: uma ligação anônima avisou sobre a ameaça de bomba. Eram 9h50 da manhã. Curiosamente, exatamente 12 horas antes de uma das explosões no Stade de France, onde a Alemanha enfrentou a França. Durante o período fora do hotel, os jogadores ficaram em Roland Garros, onde é disputado o Aberto da França de tênis. Às 14h, os alemães retornaram ao hotel, depois da polícia usar cães farejadores, isolar a área do hotel e descartar qualquer possibilidade de bomba ali. Só que aquele seria o menor dos acontecimentos do dia. O menos grave também.

O jogo amistoso entre Alemanha e França foi disputado às 20h45, no horário local. Às 21h20 (horário de Paris, 18h20, horário de Brasília), explode a primeira bomba no lado de fora do estádio. A explosão aconteceu perto do portão D e dois corpos foram encontrados: do suicida e de uma vítima da explosão. A segunda explosão veio às 21h30, próxima ao portão H. Às 21h53, veio a terceira, a cerca de 400 metros do estádio. O corpo do suicida deste terceiro ataque também foi encontrado. Segundo as autoridades, três pessoas morreram nos ataques. As três explosões foram do lado de fora do estádio, mas em áreas próximas a ele (veja no mapa) e foi possível ouvi-las de dentro do estádio, mas no momento que aconteceram, os torcedores não sabiam do que se tratava. Mesmo que desconfiassem.

Os torcedores, aliás, comemoraram, gritaram olé com a vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha, cantaram e comemoraram a vitória. Em jogos com grande concentração de pessoas como o do Stade de France, o sinal de celular é ruim e, com isso, as informações demoraram a chegar. “Nós ouvimos as explosões, mas nós pensamos que eram fogos de artifício feitos em casa. [Ao final do jogo] nós preferimos ficar dentro de campo, que foi onde nos sentimos mais seguros”. A impressão não foi por acaso.

As explosões no Stade de France
As explosões no Stade de France
O dilema dos técnicos

No intervalo da partida, quando a França vencia por 1 a 0, os dois técnicos foram informados sobre a situação. Joachim Löw, da Alemanha, e Didier Deschamps, da França, foram avisados por autoridades francesas sobre a crise e que havia episódios violentos acontecendo perto do estádio e em diversos pontos de Paris. Àquela altura, o presidente François Hollande já tinha sido retirado do estádio em uma operação de emergência para tomar as medidas contra a onda de violência e lidar com os ataques que o país sofria naquele momento.

Os técnicos precisavam decidir se contavam ou não aos jogadores sobre o que acontecia naquele momento. Uma dúvida que certamente deve tê-los atormentado naqueles minutos. Segundo um funcionário da FFF, que não quis se identificar porque não estava autorizado a falar publicamente sobre o assunto, Deschamps considerou seriamente a possibilidade de contar aos jogadores o que acontecia. Decidiu não fazer isso porque nem ele sabia a extensão do problema naquele momento. Löw fez o mesmo com a seleção alemã. Os jornalistas, porém, com acesso à internet e reportando o que acontecia do estádio, já tinham informações sobre os atentados.

Ilha de medo

O segundo tempo seguiria normalmente. As autoridades decidiram por continuar o jogo porque sentiram que era mais seguro manter os torcedores dentro do estádio, onde a segurança estava garantida, do que do lado de fora, onde não se sabia com clareza o que acontecia e a extensão do problema. O estádio, mesmo sendo um alvo, como os terroristas tinham deixado claro, era também um dos lugares mais seguros de Paris naquele momento.

Com isso, o ambiente se tornou uma ilha em meio ao caos. Os torcedores cantavam, gritavam e comemoravam os lances normalmente, sem ter plena consciência do que acontecia do lado de fora. Os jogadores atuavam também da mesma forma, inclusive com um gol no final do jogo, de André-Pierre Gignac, muito comemorado por ele e pelos jogadores, além, claro, dos torcedores nas arquibancadas. Naquele momento, estavam todos anestesiados em meio a uma situação de terror. Enquanto Paris vivia a violência e morte em ao menos cinco pontos da cidade, os torcedores ainda sorriam com uma bela vitória da França sobre os campeões do mundo. Vitória que se tornaria irrelevante em instantes.

“Foi muito estranho”, afirmou Cyril Olivès-Berthet, jornalista do L’Equipe, o mais importante jornal de esportes da França. “Os jogadores estavam correndo e fazendo o seu jogo e os torcedores estavam cantando normalmente ‘Aux Armes, Aux Armes’, um canto típico que é uma coisa de guerreiro sobre pegar em armas e ir para a guerra. Quando a França marcou o segundo gol, no final do jogo, os torcedores balançavam as suas bandeiras e os jogadores comemoravam como sempre fazem“, contou o jornalista.

Só depois do jogo é que a maioria ficou sabendo da situação. Foi pedido que os torcedores saíssem calmamente do estádio pelo lado oeste, “por causa de eventos do lado de fora”, sem especificar o que acontecia exatamente. A multidão, então, caminhava, assustada, se abraçando e olhando seus telefones para ver as últimas notícias sobre a violência. Não quer dizer que não houvesse desconfiança antes daquele momento que algo estava errado. “Nós ouvimos alguma coisa que parece uma bomba explodindo, assim como tiros”, contou Agnès Dupont ao New York Times. Ela estava no Stade de France com o marido e os dois filhos pequenos.

Ao final do jogo, as pessoas foram instruídas a usarem apenas duas saídas, o que criou uma aglomeração de pessoas. Andreas Berten, jornalista do Funke Mediengruppe, disse que ele e outros jornalistas estavam esperando por um elevador para descer aos vestiários, quando “subitamente centenas de torcedores voltaram correndo dos portões em direção ao gramado”. Parecia, para o jornalista, que os torcedores corriam de medo. Medo de algo que estava invadindo o estádio, talvez. “Nós pensamos que talvez houvesse terroristas entrando no estádio com armas”, contou. O que tinha acontecido, na verdade, era que a polícia mudou o protocolo naquela área e muitos torcedores não souberam o que fazer, então correram para o gramado. O estádio só foi evacuado uma hora e meia depois da partida – normalmente isso é feito em 15 minutos.

“Nós preferimos ficar no gramado, foi onde nos sentimos mais seguros”, contou Frederic Lavergne, que estava no jogo, à agência de notícias Associated Press. “Nós tivemos dificuldade para entender as explicações dadas dentro do estádio”. Depois do jogo, os torcedores foram autorizados a deixar o estádio em pequenos grupos. Todos os eventos esportivos programados para acontecer em Paris no fim de semana foram adiados, incluindo partidas das fases preliminares da Copa da França, além de outros eventos culturais e esportivos.

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Seleções presas no estádio

Quando o juiz apitou pela última vez na partida, os jogadores alemães saíram do gramado e, no túnel, viram na televisão o noticiário que informava sobre os atentados. Olharam, atônitos, as notícias que aterrorizavam o mundo naquele momento. No vestiário da França, o responsável por contar aos jogadores o que acontecia foi Thierry Braillard, secretário francês de esporte. Foi só então que os jogadores franceses souberam o que realmente acontecia na capital do seu país, a poucos quilômetros dali.

Lass Diarra, que já foi acusado de ser jihadista, confirmou que perdeu uma prima nos ataques. Antoine Griezmann, um dos principais jogadores da seleção francesa, ficou desesperado. Sua irmã estava no Bataclan aquela noite para o show, o local onde homens armados atiraram aleatoriamente nas pessoas, fizeram reféns e mataram ao menos 80 pessoas. Tentou contato com ela, sem sucesso. Depois, o atacante da seleção francesa postou no Twitter que a sua irmã estava no show, mas escapou com vida. “Que Deus proteja minha irmã e o resto da França”.

Todo o protocolo depois do jogo, com entrevistas coletivas e zona mista, foi cancelado. A polícia informou aos times que não podia garantir a segurança dos ônibus das equipes. Os jogadores dos dois times, então, foram para os andares mais baixos do estádio, com a maioria deles sentados em frente à televisão, atordoados. Mulheres e filhos de alguns jogadores receberam permissão para ficarem em uma sala perto de onde estavam os jogadores para esperar também o que fazer. “Nós estávamos todos em choque”, afirmou Joachim Löw à rede de televisão alemã ARD. “Todos nós no banco de reservas estávamos um pouco assustados”.

Pouco antes das 3h manhã, a seleção francesa foi autorizada a sair, de ônibus, para se dirigir ao seu centro de treinamento, a cerca de 65 quilômetros do estádio. A seleção alemã foi instruída a não deixar o estádio, porque poderia ser um alvo. O ônibus da Alemanha era pintado e identificava a delegação. Em solidariedade, os franceses resolveram continuar no Stade de France até que os alemães também pudessem deixar o local. Foi só às 7h que a seleção alemã deixou o estádio em diversas minivans que os levaram diretamente ao aeroporto. A delegação desembarcou em Frankfurt cerca de 10h da manhã. Os franceses ficaram concentrados no seu centro de treinamento, em Clairefontaine.

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Os responsáveis

A polícia ainda não revelou os nomes de todos os envolvidos nos ataques a Paris e as informações sobre os responsáveis ainda são preliminares. O que se sabe, porém, é que ao menos um dos homens-bomba que fizeram os ataques suicidas próximos ao estádio era francês, como a maior parte dos identificados até aqui. Segundo a polícia, um francês que morava em Bruxelas, na Bélgica. Não foi revelado o seu nome, só que ele tinha apenas 20 anos.

Outro homem-bomba foi encontrado com um passaporte sírio ao seu lado, que pertence a Ahmed Almohamed, de 25 anos, e que, segundo o governo grego, entrou por uma rota de refugiados no país, a ilha de Leros, no dia 7 de outubro. A polícia francesa, porém, desconfia que o homem que explodiu a bomba seja mesmo Ahmed. Uma desconfiança que parece fazer sentido.

A suspeita é que o passaporte tenha sido levado para atribuir o crime a um refugiado e, além de criar mais problemas para os que fogem do Estado Islâmico rumo à Europa, ainda despistar os investigadores sobre a verdadeira identidade de quem detonou os explosivos. Afinal, por que o homem levaria o passaporte ao local onde iria explodir uma bomba? A polícia francesa ainda não deu informações se as impressões digitais do homem que cometeu o ataque suicida batem com a pessoa do passaporte. Fazer com que um atentado como esse seja atribuído a um refugiado, que entrou no continente pelas vias de fuga da Síria, é de interesse do Estado Islâmico. O grupo quer impedir que as pessoas sob seus domínios fujam.

O homem que é apontado como arquiteto da noite de terror em Paris está foragido. Abdelhamid Abaaoud é belga, ligado ao Estado Islâmico e a diversas acusações de envolvimento em atos terroristas. Abaaoud ainda teve contato com um dos terroristas que atuou em Paris, Ibrahim Abdeslam, o que só o torna um alvo ainda maior das investigações e das suspeitas das autoridades. Segundo relatos do Guardian, a polícia chegou a parar Abaaoud, que teria fugido para a Bélgica. Ele foi liberado porque o seu nome não estava na lista de suspeitos naquele momento. Tanto Abaaoud quando Abdeslam foram acusados juntos por um crime menos em 2010, na Bélgica. Apesar do estrago e das dezenas de mortes, os terroristas tinham planos de serem ainda mais letais. Não foram porque subestimaram um dos alvos.

O mapa dos ataques a Paris
O mapa dos ataques a Paris
Simbólico: segurança no estádio frustou terroristas

Nos planos dos terroristas, só uma coisa deu errado: o ataque a Saint Denis. Não conseguiram seguir o que queriam logo onde havia o maior potencial de morte, o Stade de France. Podemos discutir muitas medidas de segurança adicional que serão tomadas após os atentados a Paris, especialmente pensando na Eurocopa de 2016 e nos próximos eventos que Paris for receber – como a cúpula que discutira o clima, no final deste mês. Certamente este será um tema muito quente nas próximas reuniões sobre a Eurocopa e sobre qualquer evento esportivo não só na França, como em todo o Ocidente e, talvez, em todo o mundo. Mas há um simbolismo positivo muito forte sobre o que não aconteceu na noite de sexta-feira no Stade de France.

Apesar do caos e do terror que se instaurou na cidade, as autoridades resolveram manter os mais de 80 mil torcedores e as duas seleções dentro do estádio. Inicialmente, essa poderia parecer uma má ideia. Afinal, em uma momento de diversos ataques terroristas simultâneos e que não se tinha dimensão total do problema e nem se haveria novos episódios, por que manter tantas pessoas juntas, como um alvo? Um alvo, aliás, que naquele momento as autoridades já sabiam que tinha sido um objetivo dos terroristas. A resposta na verdade é muito simples. Rob Hughes escreveu sobre isso para o New York Times.

“Há uma razão sonora, e também triste, de por que os ataques que trouxeram uma carnificina a Paris na noite de sexta não terem entrado pelos portões do Stade de France no subúrnio norte de Saint Denis. É a mesma razão por que a seleção alemã escolheu ficar dentro do estádio depois de jogar contra a França, ao invés de arriscar ir de ônibus até o coração de Paris no seu hotel. Em uma palavra, é segurança. Futebol – na verdade, todos os esportes – foram forçados ao longo dos anos a adotar medidas de segurança pensadas para prevenir desastres como o pisoteamento de Heysel, na Bélgica, e o de Hillsborough na Inglaterra nos anos 1980, ou o ataque terrorista contra a delegação israelense nas Olimpíadas de Munique em 1972. Dois agressores tentaram entrar no estádio na noite de sexta antes de detonarem suas bombas perto dos portões. Eles nunca conseguiram passar pelos guardas”.

Rob Hughes argumenta que isso de de suma importância pensando que a França irá sediar a Eurocopa de 2016, que, além de tudo, será maior do que jamais foi. Pela primeira vez, terá 24 participantes, e não os 16 das últimas edições. Serão 51 jogos disputados em 10 estádios diferentes pelo país. O que aconteceu no Stade de France, para ele, é um motivo que mostra que os eventos esportivos são, na verdade, preparados para esse tipo de ameaça como outros locais não são. Isto é algo muito importante e é uma mensagem forte também pensando naqueles que tentam causar o terror com ataques como esses.

Tente lembrar um ataque terrorista a estádio de futebol. É muito raro, justamente porque são eventos visados e, portanto, com uma segurança treinada ao longo da história para prevenir esse tipo de situação. Rob Hughes fala que é uma história triste porque o aprendizado para chegar ao nível de segurança atual veio com o sangue de muitas vítimas, como as que ele citou em Heysel, em 1985 (que completou 30 anos em maio e contamos aqui como aconteceu), Hillsborough, a maior tragédia do futebol inglês, em 1989 (e que contamos por que aconteceu neste especial), e na Olimpíada de Munique, em 1972. Explodir um estádio causaria um dano enorme, mas é uma tarefa quase impossível, mesmo para grupos ricos e bem organizados como o Estado Islâmico.

Em uma noite triste como a de sexta-feira, este foi um motivo para comemorar. Provavelmente milhares de vidas foram salvas porque o Stade de France estava preparado para impedir um atentado de proporções gigantescas. As medidas de segurança que serão discutidas tendem a tornar a vida dos terroristas que pensam em usar a Eurocopa como alvo ainda mais difíceis. A humanidade sofreu uma grande derrota na noite de sexta, com tanta barbaridade. Mas os terroristas também tiveram que contar uma derrota. Uma derrota imposta pela alta preparação do esporte para lidar com ameaças como as que eles representavam.

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