O ataque da Turquia aos curdos no norte da Síria segue tendo repercussão no futebol. Depois da seleção turca demonstrar apoio ao governo Erdogan e ser alvo de uma investigação da Uefa, o jogador turco Cenk Sahin, do St. Pauli, foi dispensado de suas obrigações pelo clube alemão por causa de uma publicação em suas redes sociais apoiando a ação militar turca contra os curdos.

Segunda maior contratação da história do St. Pauli, o ponta-direita publicou uma imagem da bandeira da Turquia em seu Instagram, com uma legenda que demonstrava apoio ao ataque da Turquia contra a população curda no norte da Síria, na fronteira com o país presidido por Erdogan: “Estamos ao lado do nosso exército e nossos militares heroicos. Nossas orações estão com vocês”.

Na última sexta-feira (11), o St. Pauli já havia publicado um comunicado, afirmando que a ação não era condizente com os valores do clube. Torcedores pediram a demissão do jogador, e, após uma investigação interna conduzida ao longo do final de semana, o time de Hamburgo comunicou o desligamento do atleta.

“Após diversas discussões com torcedores, membros do clube e amigos de raízes turcas, ficou claro par anos que não podemos e nem devemos tentar medir as nuances nas percepções e atitudes de outros panos de fundo culturais em detalhes. Entretanto, não cabe dúvida ou discussão que rejeitamos atos de guerra. Esses atos e a expressão de solidariedade a eles vão contra os valores do clube.”

O St. Pauli explicou que os principais fatores por trás de sua decisão foram o “repetido desrespeito do jogador pelos valores do clube” e a necessidade de proteger o próprio atleta.

Enquanto não chega a próxima janela de transferências, em 1º de janeiro de 2020, quando poderá ser negociado, Cenk Sahin permanecerá contratualmente ligado ao clube, mas está liberado para treinar com outros times. O Istambul Basaksehir, clube onde o turco se profissionalizou, abriu as portas para o jogador e até mesmo já postou fotos de Sahin com seu presidente. A equipe faz parte de um projeto político de Erdogan.

Mesmo nesse contexto de oposição da comunidade internacional às ações turcas, o St. Pauli preferiu não entrar em pormenores culturais, atendo-se à expressão de apoio de Sahin a um ato de guerra. Ainda assim, não evitou as críticas de quem vê hipocrisia em sua decisão.

Isso porque, em 2016, o St. Pauli apoiou seu ex-jogador Deniz Naki, então atleta do Amed, da segunda divisão turca, quando o atacante foi condenado a 18 meses de liberdade condicional por supostamente “espalhar propaganda terrorista” do PKK. O Partido dos Trabalhadores do Curdistão começou sua luta de guerrilha em 1984, reivindicando uma região curda autônoma no sudeste da Turquia, onde vivem milhões de curdos, e é considerado um grupo terrorista pelo governo turco.

Apesar da postagem de Cenk Sahin não trazer justificativa para seu posicionamento, os apoiadores dos ataques compram o discurso nacionalista de Erdogan, de que o conflito no norte da Síria com os curdos (que passaram os últimos anos combatendo o Estado Islâmico ao lado dos Estados Unidos no local) é um esforço antiterrorista.

Com a retirada das tropas americanas por Donald Trump na semana passada, a Turquia passou a atacar os curdos da região, causando a evacuação de mais de 130 mil pessoas de cidades sírias próximas à fronteira com a Turquia e levantando medo de um reforço das células do Estado Islâmico nos arredores.

Em partida na última sexta-feira, jogadores da Turquia celebraram a vitória sobre a Albânia, pelas eliminatórias da Euro 2020, fazendo uma saudação militar, em apoio ao exército. O gesto se repetiu contra a França nesta segunda. “As saudações de nossos jogadores não significam que eles concordam com as operações militares, mas o que eles querem dizer é que apoiam os soldados turcos e os respeitam por cumprirem seus deveres, esperando que voltem a salvo. Não há malícia por trás dos gestos”, justificou o técnico Senol Günes.

Hakan Sükür, ídolo do futebol turco e exilado nos Estados Unidos por sua oposição a Erdogan, reiterou no Twitter seu posicionamento contrário ao presidente, sendo uma voz dissonante em meio a figuras do futebol turco – grande parte delas ao lado de Erdogan.