O elenco do Vitória de Setúbal, décimo colocado do Campeonato Português, foi afetado por um surto de gripe esta semana. Segundo seu presidente, mais de 80% dos jogadores estão doentes e mais de um treino teve que ser cancelado. Naturalmente, o clube pediu o adiamento da sua rodada do fim de semana, neste sábado, às 17h30, contra o Sporting, mas não ficou nada satisfeito com a recusa dos Leões. A liga convocou uma reunião para esta sexta-feira para tentar resolver a questão.

Na quinta-feira, o presidente Vítor Hugo Valente estava esperançoso. “A liga diz, e bem, que os dois clubes têm que estar de acordo, mas estamos crentes que o Sporting é sensível a isto. Em situação semelhante, o Vitória seria o primeiro a mostrar solidariedade”, disse, ao jornal A Bola. “O presidente do Sporting (Frederico Varandas) é nosso amigo, é um clube amigo e ele é médico, tem especial sensibilidade para este tipo de situação. Sugerimos datas que não interferem com nenhuma das competições em que o Sporting está inserido”.

Mas o Sporting alegou incompatibilidade de datas. O Vitória de Setúbal sugeriu a semana das semifinais da Taça de Portugal, da qual ambos já estão eliminados, no começo de fevereiro, mas os Leões não gostaram da ideia. O treinador dos Leões, Silas, afirmou que, nesse caso, seria imposta ao time uma maratona de muitos jogos com poucos dias de descanso entre eles.

O Sporting enfrenta o Benfica, em 17 de janeiro, e faz a semifinal da Taça da Liga, na terça seguinte (21/01), contra o Braga. Caso vença, terá a decisão no fim de semana (25/01). Depois, encara Marítimo (29/01) e Braga (01/02) pela liga portuguesa. Viria então o espaço proposto para o jogo adiado contra o Vitória de Setúbal, antes de jogar contra o Portimonense (08/02).

“Falamos do nosso calendário. Na data proposta para o jogo, poderemos vir a ter o sexto encontro com apenas dois ou três dias de descanso”, justificou Silas. “Ou seja, há um perigo de lesão no que diz respeito aos nossos jogadores. A data proposta não me parece viável. Não vejo nenhum problema em adiar porque nós jogamos contra o Vitória em qualquer momento. Temos de olhar para todo o contexto, ou seja, de ambos os clubes. O ideal seria encontrar uma data que não prejudicasse ninguém”.

Em nota, o Sporting reforçou a questão do calendário e até usou a carta de que precisa chegar bem ao mata-mata da Liga Europa, “em manifesto benefício para o futebol português” e disse que tem toda confiança de que “muitos dos casos dos jogadores do Vitória serão solucionáveis, razão pela qual reiteramos a nossa vontade e disponibilidade para o jogo marcado para o próximo sábado”. Segundo o Diário de Notícias, o presidente Vitor Hugo Valente respondeu: “Ali de Alcochete medem a febre aos nossos jogadores?”.

A partir daí, a fé de Vitor Hugo Valente na sensibilidade médica do presidente do Sporting começou a ruir. E quando os Leões ofereceram o seu departamento médico aos jogadores adversários, o Vitória soltou uma nota oficial bem dura:

“Impor que o Vitória jogue nestas condições significa colocar em causa a integridade da competição, algo que os regulamentos da liga pretendem evitar. Ao não anuir na justificada alteração do jogo em questão, o Sporting adota um procedimento disciplinarmente censurável, pois tem por objetivo, única e exclusivamente, obrigar o Vitória a apresentar em campo uma equipe notoriamente inferiorizada.

Com esta conduta e ao vir, agora, de forma hipócrita e cínica, disponibilizar o seu departamento médico, o Sporting mais confirma um procedimento e forma de estar que consubstancia uma violação grosseira dos princípios da boa fé que se impõem no relacionamento entre clubes, mas também uma violação dos deveres deontológicos entre profissionais da medicina, que, de resto, o presidente do Sporting tão bem conhece.

Esta tomada de posição do Sporting CP não é mais do que uma insofismável violação dos princípios gerais descritos no artigo 10.º dos Estatutos da Liga Portugal – a saber, o da legalidade, da igualdade, da ética, da lealdade, da verdade desportiva, da boa-fé, da colaboração mútua, da proteção do bom nome do futebol profissional, da transparência e da solidariedade entre os associados Liga.

A violação de todos estes princípios impõe que o Vitória FC dispute a próxima jornada com uma equipa manifestamente inferiorizada”.

Pedro Proença, presidente da liga de clubes portugueses, convocou uma reunião com os dois clubes para tentar chegar a algum consenso sobre a realização do jogo no próximo sábado.