Godinho Lopes não resistiu à pressão. O pior presidente do Sporting na história recente (há quem diga que é o pior em toda a história) renunciou ao cargo em meio ao seu segundo ano de mandato. Ele vai embora junto com toda a sua diretoria e os chamados órgãos sociais do clube: Mesa da Assembleia Geral, Conselho Diretivo e Conselho Fiscal e Disciplinar. Novas eleições estão marcadas para o dia 23 de março.

A situação do presidente era mesmo insustentável em Alvalade. O time faz campanha terrível, a ponto de temer um eventual rebaixamento (que dificilmente vai acontecer, já que os adversários da parte de baixo da tabela são ainda mais fracos). E as finanças vão de mal a pior.

Godinho chegou a um ponto extremo, de ter seu nome xingado pelos torcedores no estádio e precisar andar acompanhado de seguranças. Virou a personificação de uma administração terrível, que não só foi incapaz de sanar as dívidas do clube, como aumentou o problema. E tudo misturado a uma peculiar característica de relutar em admitir os próprios erros.

O paradoxal da história é que, antes da atual temporada começar, o agora ex-presidente deixou claro que sua prioridade em 2012/13 era deixar a casa em ordem, financeiramente falando. Cortaria gastos, investiria menos no time, mas em contrapartida iria preparar o terreno para uma retomada do forte futebol a partir da próxima temporada. Ao mesmo tempo, ele cobrava do então técnico Sá Pinto que a equipe brigasse pelas primeiras posições no Campeonato Português. Como se tivesse elenco para tanto.

É claro que a estratégia não deu certo. Dentro de campo, a equipe definhou, foi eliminada na Taça de Portugal, na Taça da Liga e na Liga Europa. No campeonato nacional, o máximo que atingiu foi um sétimo lugar na quarta rodada. Sá Pinto durou no cargo apenas até a quinta rodada e foi substituído por Oceano Cruz, que foi trocado por Franky Vercauteren, que por sua vez deu lugar a Jesualdo Ferreira, o atual treinador.

Mas se o torcedor leonino comum sofre com o desempenho do time, aquele que é um pouco mais atento e acompanha o dia a dia das finanças do clube sabe que o buraco é bem mais embaixo. O Sporting tem uma dívida imediata de € 60 milhões (R$ 161,3 milhões) que, segundo a imprensa portuguesa, pode ser negociada e abatida com € 40 milhões (R$ 107,5 milhões). Mas o passivo bancário total é de incríveis € 230 milhões (R$ 618,3 milhões). Isso tudo, vale lembrar, num momento em que toda a Europa passa por uma crise financeira.

Mas não é só. Um relatório da SAD (Sociedade Anônima Desportiva) que controla o clube, aponta que, ao final da temporada passada, o Sporting era dono da totalidade dos direitos federativos de apenas quatro jogadores. Nomes importantes, como Rui Patrício e Ricky van Wolfswinkel, estão “fatiados”. Em caso de negociação deles, os leões ficam com apenas 70% e 35% dos valores de cada um, respectivamente.

E há mais. No primeiro trimestre da atual temporada, os custos com pessoal foram 8,3% maiores do que o total de receitas arrecadado pelo clube. Para se enquadrar à nova lei, que determina que no máximo 70% do orçamento podem ser utilizados no pagamento de salários, o Sporting terá que reduzir a folha em mais de € 1,2 milhão (R$ 3,2 milhões) por mês. Para se ter uma ideia, o clube ainda paga parte do salário do ex-técnico Domingos Paciência, que deixou Alvalade em fevereiro de 2012 e que atualmente está no Deportivo La Coruña.

Parece evidente que a renúncia de Godinho Lopes fará bem ao Sporting, não só pela sua saída em si, mas pela maneira como ela aconteceu. Meses atrás um “golpe de estado” era articulado pela oposição, que queria tirar Godinho do poder. Mas o movimento perdeu força ao se notar, mesmo entre os opositores, que isso seria algo antidemocrático e iria manchar a história leonina.

Até o momento, dois nomes surgem como fortes candidatos ao posto de novo homem forte do Sporting. Um deles é Carlos Severino, jornalista que trabalhou na comunicação do clube entre 1998 e 2006 e encabeça um movimento chamado “SOS-Salvar Sporting”. Outro é Bruno de Carvalho, candidato derrotado por Godinho nas últimas eleições. Correndo por fora, está José Couceiro, que foi treinador do clube em 2011.

Independentemente de quem vença, é certo que o novo presidente terá uma missão ingrata – e muito trabalho – pela frente. O que os torcedores do Sporting (pelo menos os mais sensatos) esperam é que algo dito pelo agora ex-vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral, Daniel Sampaio, torne-se realidade. “Gostaria que os candidatos tragam soluções e não apareçam dizendo que vão fazer um milagre”, afirmou. Se isso realmente acontecer, o primeiro passo para sair do buraco estará dado.