A equipe que dominou a Europa e ainda bateu a base da Celeste bicampeã olímpica

O futebol no leste europeu quase sempre é cultuado pelos grandes esquadrões sustentados durante o período do comunismo. Uma maneira dos regimes mostrarem força para o resto do planeta, ainda que com timaços formados de maneira arbitrária e, às vezes, com histórias sujas por trás. Não quer dizer, no entanto, que a força do futebol na Europa Oriental esteja limitada a esse período. Mostra disso são os vice-campeonatos mundiais de Tchecoslováquia e Hungria nas Copas de 1934 e 1938. Já entre os clubes, não há representante melhor do que o Sparta Praga.

TEMA DA SEMANA: 5 times que não ganharam o Mundial, mas foram chamados de melhor do mundo

Durante a década de 1920, o clube ficou conhecido como Sparta de Ferro. Logo após a Primeira Guerra Mundial, os grenás foram pentacampeões nacionais com números surreais, formaram a base de uma seleção fortíssima e passaram a ser respeitados em toda a Europa. Pelas vitórias em amistosos, chegaram até a reivindicar o posto de melhor clube do continente. E conquistaram um título para ao menos ressaltar essa importância, vitoriosos na primeira edição da Copa Mitropa, a precursora da Liga dos Campeões.

O início dos anos de ferro

O surgimento do grande esquadrão do Sparta Praga começa com o fim da Primeira Guerra Mundial. Na época do conflito, a Tchecoslováquia fazia parte do Império Austro-Húngaro, centro das trincheiras. O armistício permitiu a reconstrução do país, com os tchecoslovacos independentes. Praga despontou como capital, a cidade mais desenvolvida da Europa Central por causa da sua força industrial.

tym-v-roce-1922-full

O futebol tchecoslovaco continuou centrado em Praga durante o pós-guerra. A regionalização já era forte no começo do Século XX e até foram realizados dois playoffs nacionais na década de 1910, mas a Primeira Guerra fez esse processo regredir. Ainda assim, as principais potências do esporte local estavam sediadas na capital, tornando o torneio forte no contexto regional.

O Slavia Praga foi o primeiro campeão no retorno da competição. Entretanto, o Sparta ficou com o vice-campeonato, ainda no processo de formação de sua forte equipe. Antonin Janda era a principal peça que continuara no time durante o conflito, enquanto a estrela que voltava do front era Vacláv Pilát. O talentoso atacante chegou a combater na guerra e ficou ferido nas trincheiras, mas surpreendeu ao retomar sua carreira de jogador.

O comandante do sucesso veio de fora

O período de conquistas arrasadoras do Sparta Praga começou apenas em 1919. Não coincidentemente, o ano da chegada de John Dick ao comando do time. O escocês havia feito longa carreira no futebol inglês, sendo um dos primeiros ídolos do Woolwich Arsenal. O capitão foi o primeiro jogador a passar das 250 partidas pelos Gunners, famoso pela liderança e pela solidez no meio-campo da equipe. Em 1910, passou a comandar o time reserva dos londrinos, antes de pendurar as chuteiras dois anos depois. Na ocasião, o Arsenal seguiu em turnê pela Tchecoslováquia e assumiu o Deutscher FC, um dos adversários na excursão.

WOLVERHAMPTON: o campeão do mundo dos jornais ajudou a criar a Champions

A chegada de John Dick ao Sparta Praga aconteceu em 1919, após tornar-se campeão regional na Boêmia com o Deutscher. O ex-jogador mantinha a ligação do Sparta com o Arsenal, que já tinha inspirado o uniforme grená dos tchecoslovacos. À frente do clube, o escocês manteve a mentalidade de forte trabalho físico, que vinha dos tempos de jogador – quando também competia em provas de atletismo cross-country. Em suas mãos, surgiu o Zelezná Sparta, o Sparta de Ferro, uma equipe praticamente imbatível nas competições locais e de alto poder ofensivo.

A primeira taça da liga só foi conquistada nos critérios de desempate. Sparta e Slavia terminaram o Campeonato Central da Tchecoslováquia de 1919 com os mesmos 14 pontos, mas vantagem dos grenás no confronto direto. O Union Zizkov, terceiro colocado na tabela, foi o único time local capaz de bater o time de John Dick. Algo que ninguém mais conseguiria no país durante os próximos quatro anos. Na sequência do certame, ainda houve um quadrangular nacional, em que o clube da capital venceu os três jogos e marcou 17 gols, consolidando a conquista.

A medalha de ouro que não veio e o rótulo de melhor da Europa

Os melhores jogadores da Tchecoslováquia se concentravam no Sparta Praga. Prova disso é que 12 atletas do clube faziam parte da seleção que disputou os Jogos Olímpicos de 1920, o principal torneio de futebol da época, 10 deles titulares. Os tchecoslovacos acabaram abandonando o campo na decisão, após golearem França, Noruega e Iugoslávia nas fases anteriores. A equipe estava descontente com a confirmação dos dois gols da Bélgica, bem como com a expulsão de um jogador. Diziam-se intimidados com a presença de soldados belgas à beira do campo em Antuérpia. Mas, por causa da desistência, sequer receberam a medalha de prata.

tym-v-roce-1918-full

Já no Campeonato Central da Tchecoslováquia, o Sparta dominava de uma maneira espantosa, chegando ao pentacampeonato. Foram 11 vitórias em 1920 e 1921, 13 em 1922, 15 em 1923 – sem uma mísera derrota ou sequer um empate. Somando também os triunfos que carregavam de seu primeiro título, os grenás chegaram a 58 vitórias seguidas. O número ainda hoje é um recorde na Europa e a sétima maior invencibilidade na história de uma liga do continente. E, como era de se esperar, o ataque atingiu números monstruosos. Foram 235 gols durante o penta, média de 3,92 tentos por rodada. E a defesa só sofreu 46. Em 1923, na campanha mais impressionante, foram 94 bolas na rede, mais de seis por partida em média.

Não à toa, o Sparta Praga passou a ser visto como um adversário a ser batido por outras grandes potências da Europa. Em 1921, o Nürnberg treinado por Dori Kürschner desafiou os tchecoslovacos para dois duelos, que seriam uma decisão extraoficial do melhor time da Europa continental. Os alemães viviam o melhor momento de sua história, donos de cinco títulos nacionais entre 1920 e 1927. No entanto, não foram páreos. Após o empate por 0 a 0 em Nuremberg, o Sparta se impôs em casa com a vitória por 5 a 2. No Natal daquele ano, os tchecoslovacos ainda foram à Espanha encarar o Barcelona, campeão da Copa do Rei do ano anterior e estrelado por Paulino Alcântara. Mesmo desfalcados, os visitantes venceram por 3 a 2, reiterando a noção de que eram os melhores do continente.

Ainda assim, o Reino Unido possuía fama inegável no esporte. E a ida do Celtic à Praga em 1922 foi marcante. Os donos do título escocês chegaram badalados à capital, anunciados pelos jornais como “o melhor time do mundo”. A vitória por 2 a 1 foi vista como um milagre pelos tchecoslovacos, com grande atuação dos comandados de John Dick. Antonín Janda, em grande atuação, recebeu elogios até mesmo do goleiro rival: “Jogo futebol há 25 anos e nenhum jogador me fez ter tanto medo quanto esse rapaz careca”. Quem dizia isso era o lendário Charlie Shaw, que manteve o recorde de minutos sem tomar gols na Grã Bretanha por quase 100 anos, superado apenas por Edwin van der Sar. Dias depois, os times se reenfrentaram e o Sparta venceu outra vez, por 2 a 0.

O adeus do mestre e a recuperação dos gigantes

O Sparta de Ferro entrou em crise em 1923. John Dick deixou o clube, partindo para o Beerschot VAC. O time belga havia sido vencido pelos tchecoslovacos em amistoso e ficou impressionado com o trabalho do escocês, com o qual conquistou quatro Campeonatos Belgas. Sob as ordens de Vaclav Spindler, o clube da capital também havia perdido algumas de suas principais referências, como o atacante Mazal, o defensor Antonín Hojer e o goleiro Frantisek Peyr. Em consequência, os grenás foram surpreendentemente mal no Campeonato Central da Tchecoslováquia de 1924, terminando na quarta colocação. No mesmo ano, a equipe foi desafiada pelo Bolton, então campeão da Copa da Inglaterra. Os britânicos aceitaram entrar em campo sem receber cachê, dizendo que estavam ali pelo “prestígio dos adversários tchecoslovacos”, e venceram por 3 a 1.

HONVÉD: O esquadrão húngaro que revolucionou o futebol

A redenção do Sparta Praga aconteceu a partir de 1925. Naquele ano, o Campeonato Tchecoslovaco foi criado e o futebol no país se profissionalizou. Os grenás acabaram superados pelo Slavia na edição de verão da liga, mas ficaram com o título na primeira temporada completa, em 1925/26. A equipe conquistou 18 vitórias e foi derrotada apenas uma vez em 22 rodadas, com 97 gols marcados. Novo show do clube que se reencontrava com os seus melhores momentos.

E o sinal de que o Sparta seguia como um dos melhores times do mundo veio em maio de 1925. A equipe recebeu o Nacional, do Uruguai, em amistoso disputado em Praga. Os uruguaios viajavam em turnê bem sucedida pela Europa (foram 26 vitórias e sete empates em 38 jogos) e reuniam a base da Celeste campeã dos Jogos Olímpicos em 1924 – seis jogadores estiveram no feito de Paris, incluindo Héctor Scarone. Entretanto, não tiveram forças suficientes para derrubar os anfitriões. Empurrado por 40 mil torcedores, o Sparta venceu por 1 a 0, gol de Jaroslav Polacek. Dias depois, o Sparta foi até Viena disputar um torneio amistoso contra equipes locais. Empatou com o Hakoah Viena, campeão austríaco em 1925 e famoso por ter um dos estilo de jogo mais bonitos do continente, mas perdeu o título para o Rapid Viena.

Em 1926, os tchecoslovacos ainda fizeram uma turnê pelos Estados Unidos, pela Europa Ocidental e pelo Reino Unido. Na Península Ibérica, golearam Benfica e Sporting, além de terem vencido o Athletic Bilbao e massacrado o Barcelona por 7 a 2. Já na França, também passaram por cima de uma seleção de clubes parisienses por 11 a 3. E na Grã Bretanha, venceram sete e perderam apenas dois dos jogos que disputaram contra os clubes locais, dando o troco no Bolton, outra vez campeão da Copa da Inglaterra, com triunfo por 2 a 0. Ao fim da viagem, milhares de torcedores foram às ruas de Praga receber os seus heróis.

O grande título dos grenás na Europa

Em 1927, o Sparta faturou o bicampeonato tchecoslovaco. Outra campanha invicta, superando o Slavia no topo da tabela. No entanto, a principal conquista na década de 1920 foi mesmo a Copa Mitropa. O torneio era uma novidade em 1927, reunindo as melhores equipes da Europa Central, verdadeiras forças do futebol continental. Afinal, o momento era de times qualificados entre Tchecoslováquia, Hungria, Áustria e Iugoslávia, que disputaram aquela primeira edição.

27077_jd_rok_1922

A primeira vítima do Sparta foi o Admira Viena, campeão austríaco naquele ano. Os grenás golearam por 5 a 1 na ida, permitindo a derrota por 5 a 3 fora de casa. Já o grande desafio da campanha veio nas semifinais. O MTK Hungária vivia momento inspiradíssimo, donos de nove títulos nacionais entre 1917 e 1925. No comando, o inglês Jimmy Hogan criava uma geração de grandes treinadores que revolucionariam o esporte, entre eles Béla Guttmann e Dori Kürschner. Em 1927, ainda estavam no elenco Gustav Sebes, Gyúla Mandi e Jenõ Kalmár – o técnico da seleção da Hungria de 1954, seu assistente e o comandante do Honvéd na mesma época. Nos dois encontros, dois empates, por 2 a 2 e 0 a 0. Mas o Sparta acabou se classificando graças à escalação de um jogador irregular pelo MTK.

Na decisão, o adversário do Sparta Praga foi o Rapid Viena, vice-campeão austríaco e seu algoz dois anos antes no torneio amistoso. O serviço dos tchecoslovacos, porém, foi bem mais fácil na final. Os grenás golearam por 6 a 2 no jogo de ida, em casa, e até foram derrotados por 2 a 1 em Viena. Nada que tirasse a taça das mãos do capitão Karel Pesek. Serviu para eternizar a imagem do meio-campista que defendeu o clube por 20 anos e, ao mesmo tempo, também foi um dos craques do hóquei no gelo tchecoslovaco – medalha de ouro em três campeonatos europeus e bronze nas Olimpíadas de 1920. Outro a se consagrar naquele momento foi Josef Silny, um dos maiores artilheiros da história do futebol local.

O Sparta segue no topo, mas não com tantas taças

Em 1928, o Sparta Praga contou com o retorno de John Dick ao comando da equipe. Porém, o clube perdeu sua hegemonia local para o Slavia Praga, tricampeão nacional entre 1929 e 1931. Já na Copa Mitropa, o clube voltou a fazer grande campanha em 1930, mas foi vice-campeão na revanche do Rapid Viena. Os grenás passavam por uma renovação mais profunda de seu elenco. Começavam a preparar a geração que ajudaria a Tchecoslováquia a ser vice-campeã do mundo em 1934, incluindo Oldrich Nejedly, artilheiro daquele Mundial. Também passaram a contar naquele ano com Raymond Braine, jogador de Dick no Beerschot VAC e que se tornou ídolo absoluto no novo clube.

Em 1931/32, o Sparta recuperou o título tchecoslovaco. E chegou a sua segunda conquista da Copa Mitropa em 1935, dois anos depois da nova saída de John Dick. Os grenás eliminaram First Viena, Fiorentina, Juventus (então pentacampeã italiana, em uma histórica goleada por 5 a 1 no jogo de desempate) e o Ferencvaros na final. Já era uma glória esparsa, uma lembrança do esquadrão que dominara a Europa na década anterior. A história do Sparta, e da Tchecoslováquia, mudaria depois que o país foi invadido pela Alemanha nazista. E entraria em outra realidade a partir do final dos anos 1940, com a instauração do comunismo.


Os comentários estão desativados.