por Lucas Berredo

Quando se trata de administrar vantagens, o Remo nunca foi eficiente, os rivais do clube costumam dizer. Os mais antigos lembram da decisão do Norte-Nordeste contra o Ceará, no distante ano de 1969. Os azulinos venceram o primeiro jogo da melhor de três por 2 x 1, conseguiram perder o segundo por 3 x 2, após começar o placar na frente, e terminaram o confronto tomando uma goleada de 3 x 0 em Fortaleza.

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Já nos anos 90, o clube protagonizou um episódio insólito na Copa do Brasil. Era necessário apenas uma vitória simples contra o Corinthians no Mangueirão para avançar às quartas de final. Aos 27min do 2º tempo, Júnior fez 1 x 0 e encaminhou a classificação para os azulinos. Pouco depois, porém, já nos acréscimos, uma jogada dadaísta do meio-campista Castor estragou tudo o que havia sido conquistado: o atleta, que entrara na etapa complementar, rebateu de trivela um passe errado dos corintianos contra a própria meta. Remo eliminado.

Exemplos de “pipocada”, como se fala na gíria do proseiro do futebol, não faltam. O futebol e a vida são assim mesmo, encantamento e desilusão são faces de uma mesma moeda. Andam juntos. Ainda que seja muito difícil igualar o que aconteceu na Arena do Pantanal, na noite da última quinta-feira, pela Copa Verde.

É fato, o Remo vinha de uma fase tão sensacional quanto ilusória. Apesar do bicampeonato paraense, o clube vive uma crise sem precedentes, com um estádio abandonado e deficitário, o Baenão, e as finanças em frangalhos, fruto de dívidas acumuladas após uma série de administrações incompetentes. Três meses atrás, numa situação tão incomum quanto àquela de Castor, parte do elenco veio a público para desmentir uma notícia passada pela diretoria de que os salários no clube estavam quitados. Para se ter uma ideia, membros da torcida, temendo a saída dos jogadores, chegaram a pagar do próprio bolso – cerca de R$ 15 mil arrecadados, segundo informações do ótimo Confraria Azulina – para mantê-los no clube. Um bom cenário de terra arrasada, diria um leigo.

Mas o futebol, como todos sabem, é uma das poucas modalidades que permitem plot twists. E foi nessa máxima que a comunidade azulina depositou a confiança para uma reação que dava muito certo até a fatídica noite em Cuiabá. Que, diga-se, nem o remista mais pessimista sonhou em viver.

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Agora, dado os infórtunios sofridos pelo clube nos últimos anos, o torcedor do Remo deveria estar mais “acostumado” a isso, não? Talvez, de um ponto de vista racional. Mas não dá para explicar a reação coletiva do futebol sem entender o caráter quase teológico desempenhado pelo esporte na presente sociedade ocidental – há quem diga que ele substituiu o papel da religião a partir do século XX, principalmente nas camadas mais baixas (mas isso é discussão para outro texto).

De qualquer forma, há tempos, o Remo não disputava, simultaneamente, dois títulos com certo grau de favoritismo. O autor lembra de 1997, quando o Leão foi pentacampeão paraense e participou da decisão da Copa Norte contra o Rio Branco.  A campanha no segundo turno do Paraense foi exemplar, com 5 vitórias, 1 empate e 1 derrota, e a equipe também fez um bom papel na Copa do Brasil, levando o confronto com o Atlético Paranaense para os pênaltis, em plena Arena da Baixada.

Na Copa Verde, tudo se encaminhava para uma boa conclusão. Era lógico e tinha até uma boa trama envolvida. Vitória contra (o sempre pedra no sapato) Rio Branco, uma grandiosa apresentação contra o arquirrival nas semifinais e um resultado de 4 x 1 no primeiro jogo contra o Cuiabá. Era garantir um empate ou mesmo uma derrota simples contra o time do Mato Grosso que o primeiro título interestadual em uma década estava garantido.

Mas, como diz um amigo, às vezes, “os deuses do futebol te usam”. E o primeiro tempo do Remo contra o Cuiabá foi provavelmente um dos piores apresentados por um time profissional na história. O miolo de defesa, formado por Max e Igor João, se mostrou mais perdido do que o habitual: o primeiro, psicologicamente desorientado, e o outro, deixando grandes buracos na área azulina.

Pelo lado esquerdo, o prata da casa Alex Ruan já mostrou que tem talento para atacar, mas também se constatou que o garoto sofre de um grave problema de posicionamento – talvez porque, até pouco tempo, como em muitos clubes do Brasil, a formação utilizada na base fosse o 3-5-2. O meio-campo, um dos pontos fortes no time, murchou e o técnico Cacaio se mostrou pasmo à situação.

Foi um atropelo. O Leão saiu para o intervalo com 0 a 3 no placar e, nos primeiros minutos do segundo tempo, já levou o quarto gol. Como quando um lutador em desvantagem se levanta com dificuldade no ringue para o segundo assalto e recebe um jab na primeira tentativa de golpe.

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Em um sadismo do acaso, Val Barreto ainda diminuiu para a equipe azulina aos 28min do 2º tempo, somente para ver a própria meta novamente violentada, 180 segundos depois. Após a expulsão de Max, a equipe tentou sair da letargia e finalmente ameaçou os mato-grossenses. Mas por mais que alguns torcedores apontem os erros da arbitragem (foram dois pênaltis assinalados para o Cuiabá, um duvidoso), o Remo já não fazia por merecer o título.

A casa ainda não caiu. O calendário do segundo semestre foi garantido graças ao título no Paraense e a equipe vai disputar a Série D do Brasileirão. Mas aquele tour de force que tanto contagiou a torcida se esvaiu. Mais uma vantagem perdida, mais um anticlímax.

Lucas Berredo, jornalista paraense radicado em São Paulo e fã de automobilismo, um esporte que quase foi maior que o futebol no Brasil