Sophus Nielsen, o goleador da era de prata da Dinamarca

Autor de 10 gols numa só partida, atacante liderou equipe em dois pódios olímpicos consecutivos

Sophus Nielsen estava inspirado naquela quinta-feira, 22 de outubro de 1908. O jogo da sua Dinamarca contra a seleção da França mal havia começado, e ele já tinha marcado três gols, o que parecia algo espetacular mesmo para quem já vinha se destacando nos anos anteriores como um dos melhores jogadores do país, apesar das pernas permanentemente arqueadas.

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A deformidade, hoje conhecida por genu varum, não impediu que Sophus brilhasse e fosse promovido aos 16 anos para o time principal do Boldklubben Frem, localizado num distrito de Copenhague, enquanto dividia o tempo com o ofício de ferreiro. Suas atuações ajudaram o time a conquistar o vice na liga da capital, na temporada 1907-1908, e chamaram a atenção do técnico da seleção da Dinamarca, o britânico Charles Williams, que o levou para os Jogos Olímpicos de Londres com 20 anos recém-completados.

Você sabia que uma prova de ciclismo em Londres-1908 terminou sem medalhistas por incapacidade técnica dos participantes? Confira esta e mais histórias dos Jogos no episódio 4 do OlimpCast, aí embaixo:

Na quarta Olimpíada da era moderna, Londres representou a tentativa de salvação do evento, após equivocadas edições em Paris-1900 e Saint Louis-1904, onde as competições esportivas foram apenas um apêndice de enormes feiras de comércio e negócios. Embora a capital do império britânico também realizasse um evento do tipo na ocasião, o esporte voltou a ser colocado em plano principal, e entre as novidades apareceu o primeiro torneio de futebol com relativa organização.

É verdade que na última hora a coisa embolou um pouco. Duas das oito seleções inscritas, Hungria e Boêmia, desistiram por causa de problemas locais referentes a escaramuças nos Bálcãs e no Império Austro-Húngaro, classificando França e Holanda direto para as semifinais. Nos dois confrontos de quartas de final realizados, a anfitriã Grã-Bretanha marcou 12 a 1 na Suécia e a Dinamarca fez 9 a 0 num time B da França – maluquices permitidas na época.

Nas semifinais, os britânicos marcaram 4 a 0 na Holanda, todos os gols marcados por Henry Stapley, que já havia deixado dois na estreia. À Dinamarca coube enfrentar o outro esquadrão francês, supostamente mais forte. E foi nesse jogo que, aos 3, 4 e 6 minutos de jogo, Sophus Nielsen já havia marcado 3 a 0. Sartorius diminuiu aos 16, mais Lindgren marcou aos 18 e 37 e Nielsen anotou outro aos 39. Na etapa final, nosso personagem, que já havia marcado o último gol dinamarquês no primeiro jogo, faria mais seis; Wolfhagen anotou outros quatro e Middelboe, mais um. Placar final: 17 a 1 para a Dinamarca.

O vexame foi tão grande que os franceses abriram mão de tentar a medalha de bronze – o desafio coube à Suécia, que tinha levado “só” 12. Mas os Países Baixos marcaram 2 a 0 e ficaram com a medalha. Na decisão, os dinamarqueses até que encararam bem os inventores do futebol, mas os britânicos se saíram melhor e levaram o ouro com uma vitória por 2 a 0, gols de Frederick Chapman e Vivian Woodward, um dos primeiros ídolos do Tottenham.

Quatro anos depois, a Olimpíada foi para Estocolmo, capital da Suécia, e o torneio de futebol cresceu, com a presença de 11 participantes. A discussão sobre o profissionalismo no esporte ganhava fôlego, o que afetou inclusive algumas escolhas do time britânico, pois vários jogadores da Liga Inglesa já recebiam salários e, por isso, foram vetados para os Jogos, que pregavam de forma diligente o esporte como elemento para obter saúde, e não ganhar dinheiro.

Sophus Nielsen, da seleção da Dinamarca

Estrela no atletismo em Estocolsmo-1912, Jim Thorpe perdeu suas medalhas numa trama que incluiu racismo velado e acusações de profissionalismo. Ouça o episódio 6 do OlimpCast aí embaixo e entenda o que aconteceu.

O torneio de futebol já começou agitado: na fase preliminar, a Holanda voltou a vencer a Suécia, mas só na prorrogação, por 4 a 3, a Finlândia despachou a Itália também no tempo extra, 3 a 2, e a Áustria esmagou a Alemanha, 5 a 1. Nas quartas, a Dinamarca estreou mais uma vez sobrando: 7 a 0 sobre a vizinha Noruega, mesmo placar dos britânicos sobre a Hungria. A Finlândia fez 2 a 1 na Rússia, e a Holanda despachou a Áustria, 3 a 1.

Nielsen estava novamente na seleção, embora tenha deixado a Dinamarca por um tempo entre as duas olimpíadas para fazer uma espécie de mochilão pela Europa com o irmão caçula, Carl, para trabalhar e jogar bola. Acabou parando por um ano em Kiel, na Alemanha, onde foi operário num estaleiro e ao mesmo tempo defendeu o Hostein Kiel, um dos principais clubes do norte alemão na época – conta-se que teria sido o primeiro jogador dinamarquês  profissional, por ter recebido uns trocados lá na Alemanha (se os dirigentes soubessem, poderiam ter complicado a vida da seleção, mas a coisa passou batida).

O atacante voltou a Copenhague a tempo de ser selecionado para os Jogos, e já deixou dois golzinhos na partida citada acima contra a Noruega, realizada em 30 de junho. Um dia depois dessa partida, viu seu recorde ser igualado pelo alemão Gottfried Fuchs, que também anotou 10 gols numa goleada por 16 a 0 sobre a Rússia, pelo torneio de consolação. Como os torneios olímpicos tinham então a chancela da Fifa, os dois dividiram por quase 90 anos o recorde de gols numa só partida de competição, que só seria superado pelos 13 gols de Archie Thompson nos 31 a 0 da Austrália sobre Samoa Americana, em 2001, nas Eliminatórias da Copa.

A partir das semifinais, desenhou-se o replay do pódio de quatro anos antes: a Dinamarca despachou a Holanda por 4 a 1, enquanto a Grã-Bretanha acabou com o sonho da Finlândia, 4 a 0. Os holandeses repetiram o bronze, com um sonoro 9 a 0 sobre os finlandeses. E os britânicos confirmaram o favoritismo, fazendo 4 a 2 na Dinamarca. Sophus Nielsen passou em branco nos dois jogos finais, mas esteve em campo para garantir sua segunda medalha olímpica.

Sophus ainda jogou ocasionalmente pela seleção até 1919, fechando seu cartel com 20 jogos e 16 gols, uma ótima média, ainda que dez dos gols tenham saído apenas numa partida. A Primeira Guerra Mundial lhe tirou a chance de ir a uma terceira Olimpíada, com o cancelamento dos Jogos de 1916, marcados para Berlim. Depois de se aposentar, virou técnico, especialista na revelação de jovens talentos e também na formação de treinadores. Passou por vários clubes e pelo comitê técnico da federação nacional até ser o primeiro dinamarquês a comandar a seleção, em 1940. Ficou pouco tempo no cargo, mas ajudou a lançar alguns atletas que, em Londres-1948, conquistariam a medalha de bronze, a terceira da Dinamarca.

A seleção ainda seria prata em Roma-1960, tornando-se a única seleção a romper o domínio de finais de países do bloco socialista no período do amadorismo marrom, entre Helsinque-1952 e Moscou-1980. Mas, a essa altura, Sophus Nielsen já estava longe do futebol. Morreu aos 75 anos, em 1963, como estrela de uma geração que fez bonito quando o futebol olímpico ainda engatinhava.