O talento explica muita coisa que acontece no futebol. A algumas situações, porém, ele não basta. E há algo chamado predestinação que parece mudar a aura de alguns jogadores. Son Heung-min se vale disso. Não me entenda mal, não quero dizer que o camisa 7 está privado de talento, longe disso. A qualidade técnica do atacante se evidencia a cada partida, especialmente por seu futebol extremamente objetivo e eficiente. No entanto, o sul-coreano também se mostra como o cara predestinado deste Tottenham. Harry Kane empilha gols, Christian Eriksen prima pela técnica, Dele Alli possui seus lampejos. Ainda assim, Son é quem se mostra mais preparado a garantir um lugar aos Spurs na história. Exatamente o que fez nesta quarta-feira apoteótica na Liga dos Campeões. Liderou o time até as semifinais e dissipou os temores contra o Manchester City.

O estilo de jogo praticado do Son o deixa propenso a esta predestinação. O foco do camisa 7 é apenas um: o gol. Movimenta-se de maneira inteligente, conduz a bola com agressividade, não se contém na hora de atacar. E os deuses do futebol parecem reconhecer este espírito que vive dentro do peito do sul-coreano. O premiam com um punhado de lances decisivos. Já tinha brilhado em outros momentos desta Champions, afinal – para ficar apenas em uma competição. Em duelo que se prometia bem mais duro contra o Borussia Dortmund, nas oitavas de final, o sul-coreano facilitou a vida dos ingleses. Até que a exigência aumentasse na fase seguinte, com o clássico doméstico diante do Manchester City.

O sucesso de Son vai além do talento, da mesma maneira que não se limita à predestinação. Há um elemento que serve de elo aos dois propulsores, chamado vontade. O atacante sempre quer jogo. Não se esconde em campo. E, mais importante, não sente as grandes ocasiões. O camisa 7 se manteve leve durante os embates contra o Manchester City, apesar de toda a pressão sobre o Tottenham. No jogo de ida, uma conspiração secreta atravancava os anfitriões. Os Spurs tiveram um pênalti contra si logo nos primeiros minutos e perderam sua principal referência ofensiva. Enquanto a fé de muitos torcedores era testada, Son não perdeu a sua. Acreditou e brigou por um lance que parecia perdido, transformando-o em lindo gol. Também em passo fundamental aos londrinos em busca da classificação.

Já nesta quarta-feira, quatro minutos foram suficientes para o mundo desmoronar ao Tottenham. O gol precoce de Sterling, com tamanha facilidade, sugeria o sufoco dos visitantes e até mesmo uma vitória contundente do Manchester City. Pois o sul-coreano sustentou o time em suas costas. Primeiro com um estalo e uma dose de sorte, pronto para aproveitar em segundos o passe errado de Aymeric Laporte. Sua velocidade de raciocínio foi o que venceu Ederson. Depois, num misto de inteligência e talento. Pode reparar, algo que desmontou a defesa do Manchester City no segundo gol foi a movimentação do camisa 7, dando vantagem numérica pelo lado esquerdo da área. Kyle Walker ficou perdido, concedeu espaço ao artilheiro e, naquela posição, Sonny fez o que mais sabe: um chute com muita categoria para estufar as redes outra vez.

O Tottenham precisava resistir. Son também se entregava ao esforço defensivo, ativo em seus desarmes e seus bloqueios. Poderia até mesmo sair mal na foto, quando escorregou diante do toque de calcanhar de Bernardo Silva, que permitiu a virada ao Manchester City. Só que o destino não seria tão cruel com seu escolhido. Cada chegada do camisa 7 ao ataque era um pesadelo aos celestes. Quase marcou o terceiro antes do intervalo, em chute cruzado. O tento de Llorente só aconteceu graças à valentia do sul-coreano, num breve respiro que forçou a defesa de Ederson e gerou a sequência de escanteios decisiva. Por fim, é uma pena que ele não tenha fechado a contagem nos acréscimos, já depois do gol anulado pelo VAR. Seria um prêmio enorme ao principal responsável por mudar os rumos do duelo.

Classificação consumada, o Tottenham precisa se sentir agradecido por contar com Son. Um bom jogador desde a Bundesliga, mas que ganhou nova estatura no norte de Londres – sobretudo nas últimas temporadas. Se o clube não investiu em contratações nas últimas janelas, ao menos viu alguns de seus atletas mudarem de patamar. Este “Super Sonny”, no fim das contas, é o grande achado no elenco de Mauricio Pochettino. Certamente os Spurs sentirão sua falta no primeiro jogo contra o Ajax, quando estará suspenso pelo acúmulo de cartões. Mas se há uma confiança de que a inédita final possa acontecer, esta se deposita primordialmente no camisa 7.