O torcedor brasileiro se acostumou a assistir ao domínio do Flamengo desde que o time arrancou para os títulos brasileiro e continental no segundo semestre de 2019. Assim, avassalador e faminto, ficou quase quatro meses sem perder numa sequência em que atropelou, por exemplo, Grêmio, Palmeiras e Corinthians, destroçados no Maracanã.

Nessa fase mágica, à parte as óbvias particularidades de cada jogo e rival, o andamento foi parecido. Presença constante do Flamengo no ataque, quarteto ofensivo inspirado, meio-campo ágil, laterais eficientes, defesa e goleiro seguros. Entrosamento raro, acerto técnico elevadíssimo. Gol, gols. O Flamengo criando muito, sendo sempre o dono do jogo.

Mas os grandes artilheiros dos grandes times não teriam um lugar na história preenchido apenas por momentos de soberania clara e evidente, por aqueles jogos em que amassam sem dó a área rival. E aí Gabriel Barbosa fez da Recopa contra o Independiente Del Valle um novo quadro para sua galeria: na adversidade, Gabigol, feito os reis da pelada que desafiam sozinhos toda a marcação, chamou um “contra a rapa” e foi um desbunde que garante ao troféu um canto especial na prateleira rubro-negra.

Porque o começo foi tão bom quanto rotineiro, e se hoje tem vacilo da defesa, tem gol do Gabigol. Tal qual o jogo da Supercopa do Brasil contra o Athletico, melhor que a técnica só o incansável cheiro de oportunismo, e aquele silêncio que precede o erro do zagueiro já serve para o torcedor levantar o cartaz. Um a zero.

Mas aí Willian Arão acabou expulso ainda no meio do primeiro tempo, Pedro precisou dar lugar a Tiago Maia para recompor o meio, e Gabigol, já sem seu parceiro Bruno Henrique, acabou por vezes sozinho no ataque. Problema? Parece que era tudo que ele queria.

Poucos minutos depois, pegou um lançamento contra três defensores e com grande facilidade achou espaço num corredor aberto pelo trio. Ainda finalizou com equilíbrio, cabeça erguida, e obrigou o goleiro a fazer grande defesa.

No segundo tempo, o Del Valle tinha a bola, mas o escape flamenguista era fatal. Gabigol recebeu colado à linha lateral direita, na altura do banco de reservas, num lance até então sem cara nenhuma de melhores momentos. Até era um contra-ataque, mas o rival tinha cinco defensores na recomposição, e só Arrascaeta acompanhava lá do outro lado. Mas Gabriel, de costas, trocou a posse de bola pela arrancada e chamou o todos contra um. Levou o primeiro, não se deixou ser alcançado pelos outros três e cruzou para o gol de Gerson. No terceiro, quando recebeu aberto, deu de primeira para o gás de Vitinho seguir com o lance que matou o jogo.

Difícil dizer que faltava alguma coisa para o camisa 9 consolidar sua estatura com a camisa do Flamengo. Mas depois dos tantos gols em jogos com domínio absoluto do time, das artilharias na temporada encantada, de chutes precisos de manhã, de tarde e de noite, e só três meses após marcar duas vezes num final de final de Copa Libertadores, Gabigol agora tem o épico do título no Maracanã com um jogador a menos desde o primeiro tempo, aquele jogo em que colocou a decisão debaixo do braço e ditou o ritmo quando tudo parecia se complicar.

Se no dia bom ele sobra, no dia difícil ele quis sobrar… e sobrou. “Ah, mas é um timaço!” Claro que é. Mas dá a bola aqui para eu mostrar um negócio.

Mais simbólico ainda se tratando de um jogador que para muitos era visto como mascarado, indolente ou arrogante, com o carimbo de fracassado mal teve tempo de ser adulto. Agora, aos 23, ele unifica todas as características que um Maracanã fervendo espera de um ídolo: Gabigol era o craque, o artilheiro, o muque, o cabelo, o riso e o cartaz da torcida do Flamengo. Na Recopa, foi também líder, comandando a harmonia de um atípico desfile de quarta-feira de Cinzas.