“Ele nos faz acreditar em milagres”. Milagres exigem fé. Milagres acontecem porque alguém acredita neles. Alguém os faz sair dos sonhos para ganhar a realidade. Sair das ideias para fluir em acontecimentos, pulsantes nos corações e mentes daqueles que, do lugar mais fundo da sua alma, busca forças para acreditar. Vai contra a lógica, mas é possível. Quem acredita em milagres não trata como impossível o que é muito difícil. Não desdenha do improvável. Jamais duvida do extraordinário. Por isso, quem tem Ole Gunnar Solskjaer acredita.

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A primeira frase do texto é de Fred, meio-campista brasileiro do Manchester United, ao repórter do Esporte Interativo, Fred Caldera. Ainda movido a adrenalina, ele falava sobre o que tinha acabado de acontecer. Se referia ao técnico Ole Gunnar Solskjaer, um ídolo do Manchester United, que assumiu o comando do time de forma emergencial após a demissão de José Mourinho. Contratado como interino até o final da temporada. Só que esta será uma temporada para ser lembrada. Um milagre aconteceu. A classificação diante do Paris Saint-Germain é daquelas para serem saboreadas eternamente. Tal qual o próprio Solskjaer já protagonizou, como jogador, em uma época que ninguém duvidava que o Manchester United poderia conseguir.

Mentalidades vencedoras não se constroem do dia para a noite. O peso da falta do hábito pode afetar o mais experiente e vencedor, se está em um ambiente que carrega este fardo. Nenhuma conquista individual dos jogadores se sobrepõe à mística de um estádio, à fé de uma torcida, ao histórico pesado de olhar para o outro lado e ver um escudo que carrega páginas e páginas de histórias em preto e branco, de fotos amareladas, de momentos eternizados pelos relatos de um tempo ainda sem vídeo dos gols no Youtube.

Quem veste a camisa carrega toda uma cultura, que traz a confiança que é possível. Nenhuma camisa cheia de história é capaz de jogar futebol. É preciso jogadores competentes para que as coisas aconteçam. Enquanto algumas camisas suscitam o medo da derrota mesmo em craques de currículo laureado, outras trazem a confiança e o discurso que antes dele vieram outros que fizeram tanto ou mais, dando confiança ao jogador mais inexperiente, àquele jogador menos técnico. Fé. É preciso ter fé. É preciso alguém que te instigue a acreditar. Que os olhos brilhem para dizer: este clube já fez isso antes.

A derrota por 2 a 0 em casa diante do PSG pareceu ser um choque de realidade para o Manchester United no jogo de ida. O próprio Solskjaer falou sobre isso. Jogar em Paris precisando de ao menos dois gols não é fácil. Há um ponto aqui que é muito importante ressaltar: um clube como o United tem o dever de acreditar. Por todo o peso da sua história, por tudo que esse clube já fez na vida, por ser o Manchester United. Por ter um técnico como esse à beira do gramado.

Ora, Solskjaer sabe disso melhor do que qualquer um. Foi protagonista disso na final da Champions League de 1998/99, com um gol salvador aos 48 minutos do segundo tempo. Naquele dia, o United perdia por 1 a 0 até os acréscimos, quando fez dois gols, o segundo com Solskjaer, e venceu o Bayern por 2 a 1 para conquistar o título. O time precisa acreditar. Precisa sonhar. Precisa tentar. Talvez a diferença de um time como o PSG seja justamente essa. As noites europeias que o United tem para contar enchem um livro. Memórias que datam de antes da existência do time de Paris.

Solskjaer, o assassino com cara de bebê, comemora o gol do título da Liga dos Campeões, em 1999 (Foto: Getty Images)

Quando Romelu Lukaku marcou o primeiro gol do jogo pelo Manchester United logo aos dois minutos de jogo, certamente não houve sequer um torcedor do PSG que não tenha sentido um frio na espinha, uma carga extra de medo, de receio, de temor. Aquela sensação de “Puta que pariu, não é possível que vamos perder de novo”. Cultura. Ter os dois jogadores mais caros do mundo não tiram o frio na espinha. Não tiram o tremor das pernas. Não tiram o medo do fracasso, das manchetes de jornais estampando o vexame, das explicações irritantemente lógicas dos jogadores.

Ao mesmo tempo, todo torcedor do United certamente sentiu o coração bombear mais forte, mais rápido, o sangue ficar mais quente e o peito encher de esperanças. “Caramba, acho que vai dar”. Quando um torcedor do United olha para Solskjaer comemorando, sorrindo, ele vai junto. Quando Lukaku intercepta o passe errado de Kehrer, dribla Buffon e parece que não vai alcançar a bola, todos os torcedores do United se jogam junto naquele carrinho do belga para fazer o gol. Todos acreditam. “Somos o United, porra”, alguém certamente gritou.

Há muitas variáveis em um jogo de futebol que mudam trajetórias, histórias, destinos. O gol do PSG poderia ser um deles. Tinha potencial para isso. Mbappé fez a jogada, cruzou rasteiro, viu Bernat completar o cruzamento do outro lado para marcar o gol. O rosto de Mbappé trazia o alívio e confiança que o time é bom. É mesmo. Jogava melhor. Jogava mesmo. Trocava mais passes, era mais bem montado, tinha mais presença ofensiva. O United se encolhia, se contraía. O PSG tinha Di María, tinha Mbappé, tinha… Tinha medo. Buffon falhou. Lukaku fez outro. O United voltou à frente. Apreensão do time da casa, uma dose de esperança para os visitantes.

O segundo tempo era uma folha em branco. Era possível que o PSG usasse a sua qualidade para matar o jogo. O United precisava contar com um jogo ruim. E com seus próprios acertos. Era provável que não tivessem muitas chances, mas teriam que aproveitá-las. Era provável que o PSG tivesse chances, como no primeiro tempo, e era razoável pensar que poderiam aproveitar, tinham mais chances de aproveitar do que o Manchester United. E elas vieram. Mbappé, porém, não aproveitou. No primeiro tempo, já tinha pisado na bola e matado um contra-ataque. No segundo tempo, se enrolou e saiu com a bola, errou no drible em uma chance que era a bola do jogo. Se enrolou ao tentar driblar De Gea, a bola sobrou para Bernat chutar na trave, quase sem ângulo.

Fé. A fé funciona dos dois lados. Em um, a fé que tudo pode ruir, de novo. Sim, é fé também. Você não quer, mas acredita. O United, por sua vez, via os minutos passarem a as esperanças virem à tona. Solskjaer. A história. É claro que é possível. Esse garoto vai entrar e fazer história. O torcedor olha no banco e busca quem será o herói. O torcedor do PSG já pensa no que é o pior, que precisa entrar Cavani, pelo amor de Deus, precisa colocar o Cavani, precisamos logo do gol, precisamos da esperança, precisamos da vida, precisamos de algo que nos diga que esse pesadelo não vai acontecer.

Ter jogadores experientes, técnicos, mesmo craques, aumenta consideravelmente sua chance de vitória, é evidente. Mas mesmo recheados de craques experientes, ainda seria impossível lhes dar a confiança que Ole Gunnar Solskjaer deu a garotos Tahith Chong, de apenas 19 anos, em seu primeiro jogo de Champions. Entrou aos 35 minutos do segundo tempo para dar fôlego a um time que já coloca a língua para fora, tamanho o esforço. E precisando de um gol. Também vale para Mason Greenwood, 17 anos, também estreante em Champions League. Os dois são inexperientes, mas entram em campo vestindo a camisa de um clube vencedor, que sabe os caminhos, comandados por um técnico que diz que é possível sim, que você pode fazer história, que milagre é para os outros, para o United é sempre possível. Quem vai olhar nos olhos de Solskjaer e não vai acreditar quando ele diz isso?

Solskjaer abraça Marcus Rashford, do Manchester United (Foto: Getty Images)

Quando o pênalti acontece, nos acréscimos, com os corações dos dois lados apertados, as sensações também são opostas. O arrepio em cada torcedor do PSG que vê o filme se repetir, que não tem triunfos históricos para se apegar, que sente a dor do fracasso que ele tanto conhece. O United sente que a esperança, aquele fio de esperança fino, finalmente será recompensado. Marcus Rashford, 21 anos, tem a responsabilidade do mundo às suas costas. Um pênalti nos acréscimos e um tudo ou nada, praticamente. Gol significa a classificação, errar significa voltar para casa.

No PSG, onde a fé e a confiança da classificação pousa? Em que olhos é possível repousar a tranquilidade? Não há pôsteres na parede para se lembrar; não há histórias que aconteceram ali, naquelas traves, daquele estádio, naquela competição. Os torcedores do PSG estavam naquele pesadelo tão comum de sentir que está caindo e buscando algo a que se agarrar para estancar a queda, para não cair, para não morrer.

Rashford tem os olhos de Solskjaer. Tem os Busby Babes. Tem viradas, títulos, taças de Champions League. De Copa Europeia, antes da Champions League. História presente em cada rodada da Premier League, no estádio, com a presença de figuras históricas, com setores das arquibancadas nomeadas em homenagem a ídolos e heróis que conquistaram a Europa. No Parque dos Príncipes, Alex Ferguson presente. Na viagem para Paris, Rashford pode ouvir conselhos de Ferguson. Ouvir suas histórias. Pode olhar nos olhos daquele senhor e lembrar que baita camisa ele veste.

Olhar para Buffon naquele momento é difícil, mas foi Rashford quem chutou, acreditou, ainda no primeiro tempo, que era possível marcar um gol. Buffon titubeou, falhou, viu Lukaku aproveitar para marcar. Buffon é gigante, é enorme. Rashford não é. Mas ele não precisa ser. Ele tem o peso do mundo nas costas, mas tem o peso da história, de uma camisa que o torna histórico.

Criado na base do United, ele sabe o que são as histórias de noites europeias. Sabe que tudo aquilo que corre nas suas veias foi moldado por dezenas, centenas de jogadores que passaram ali antes dele vestindo aquela mesma camisa 10. Mark Hughes. Teddy Sheringham. Ruud van Nistelrooy. Wayne Rooney. Zlatan Ibrahimovic. Todos eles vestiram a camisa 10 em algum momento pelo Manchester United. Uns por mais tempo que outros. Uns com mais sucesso que outros. Todos eles históricos. Todos eles com pôsteres nas paredes. Com seus nomes nas salas de troféus. Com fotos nos corredores.

Quando Rashford cobra o pênalti e supera Buffon, ele faz o gol e entra para a história. Uma virada que será lembrada por outros que virão depois dele, vestindo a mesma camisa 10. Que lembrarão: um dia Rashford cobrou um pênalti com o peso do mundo nas costas, mas fez o gol e classificou o time. Porque tinha Solskjaer. Porque Solskjaer é Manchester United. E quem é Manchester United tem a obrigação de acreditar, porque a história ajuda. E quem irá negar?