O Manchester United sabia que precisaria ser muito mais eficaz quando se trata de enfrentar o Barcelona, no Camp Nou, saindo de uma desvantagem de um gol trazida de Old Trafford. Foi o discurso que aconteceu desde o jogo da semana passada. Depois de um jogo que foi bem, mas não acertou um chute sequer no alvo jogando em casa, no Camp Nou, precisando de dois gols, seria necessário ser mais eficiente. O que se viu em campo passou longe disso. O United, mais uma vez, teve uma boa postura, foi organizado, mas novamente foi incapaz de converter seus ataques em chances de gols. A derrota por 3 a 0 teve Lionel Messi como o grande protagonista, é verdade, mas houve também um Manchester United incapaz de ser perigoso.

No primeiro jogo, Ole Gunnar Solskjaer tinha o claro objetivo de dificultar a vida de Lionel Messi em um esquema 5-3-2, travando o meio e não deixando aqueles espaços entre linhas que o argentino explora tão bem. Desta vez, precisando vencer, ele abriu mão disso para um esquema com três atacantes. Escolheu jogadores de mais velocidade e movimentação do que a força física de Romelu Lukaku no comando de ataque.

Mais uma vez, sentiu falta de ter um jogador no centro do ataque que pudesse incomodar, fisicamente mesmo, os defensores do time da Catalunha. Marcus Rashford é um jogador em boa fase, mas tem características muito diferentes do companheiro belga. Jesse Lingard, outro companheiro de ataque, é inteligente e rápido, assim como Anthony Martial, um bom finalizador e também dono de muita velocidade. Nada disso foi útil para um time que, quando recuperava a bola, parecia ter poucas ideias para converter em chances.

Os zagueiros do Barcelona, Gerard Piqué e Clément Lenglet tiveram pouco trabalho. O posicionamento do time inteiro do Barcelona foi defensivamente muito bom, tirando os espaços de correria que o Manchester United gosta de impor nos seus jogos pelos lados do campo. O time de Ernesto Valverde, em geral, encanta pouco, mas é inegavelmente mais forte defensivamente do que times anteriores do Barcelona. O Manchester United não pareceu estar à altura do desafio. Não foi uma imposição de qualidade, apenas, do Barcelona. Pareceu ser um nível de competitividade e efetividade que o United não tem costume de estar com frequência. E isso influencia no desenrolar do jogo.

Com isso, entramos no campo de Solskjaer. O técnico melhorou o time, q eu vinha rendendo ridiculamente mal com José Mourinho até o dia 18 de dezembro, quando o português foi demitido. É verdade que ele melhorou o desempenho do time, seja individualmente em jogadores como Rashford e Lukaku, além de Pogba, seja coletivamente sendo mais sólido – inclusive defensivamente, que vinha sendo um ponto muito falho da equipe.

O problema é que Solskjaer sentiu no Camp Nou que o seu time precisa dar um passo acima na escala de desempenho para competir com times como o Barcelona. Mesmo esse Barcelona, coletivamente muito menos forte do que outros tempos, mas individualmente e competitivamente excelente. O desafio colocado diante do United foi para que o time mostrasse mais recursos, técnicos e táticos, e os Red Devils não mostraram.

As razões para isso é que precisam ser exploradas pelo norueguês. Se é uma questão tática, ela precisa ser corrigida, porque há times na própria Premier League que têm mostrado, ano após ano, que conseguem competir nesse nível, como o Liverpool e o Manchester City. A melhora é necessária não apenas para voltar a disputar de igual para igual com potências de outros países. Será necessário para disputar o título da sua liga nacional na próxima temporada, o que tem que ser o objetivo de um clube como esse.

Como bem escreveu Jonathan Wilson no Guardian, Solskjaer precisa ser mais que um não-Mourinho. Ou seja: melhorar o que Mourinho não vinha fazendo foi um bom primeiro passo, mas não passa disso. É preciso melhorar o time em todos os aspectos. Não dá para depender apenas de boas lembranças, ou de similaridades com Alex Ferguson. Há elementos presentes ali para um ponto de partida.

O time melhorou o seu rendimento em um setor chave do campo, o meio-campo, com jogadores como Fred e McTominay ganhando espaço e melhorando seus rendimentos. O time é muito bem montado para atuar com velocidade pelos lados e passou a ser muito mais perigoso assim. Só que nem sempre o time terá esse tipo de jogo à disposição e será preciso mostrar outras armas, que o elenco do Manchester United permite ter.

Os dois jogos contra o Barcelona mostraram um Manchester United que não soube reagir a dificuldades que o adversário impôs do ponto de vista tático. No primeiro, embora fizesse um bom jogo no geral, ainda que ofensivamente pobre, foi anulado com mexidas que o técnico Ernesto Valverde fez. No segundo jogo, diante da falta de efetividade mais uma vez do ataque, e também sofrendo defensivamente, o time não conseguiu melhorar. Os dois gols do Barcelona desanimam, mas o time não conseguiu mais mostrar reação depois de bons minutos iniciais. Como já tinha sido no Old Trafford.

A impressão que fica é que o Manchester United tinha pouco mais a oferecer além do que se viu em campo nesses dois jogos contra o Barcelona. É um time capaz de competir com a maioria dos times, superar muitos deles, mas ainda sofre para estar à altura dos que estão em um primeiro escalão de times. O Barcelona, longe do seu melhor, conseguiu ser efetivo. O United, fazendo bons jogos em termos de atuação na sua média desde que Solskjaer assumiu, não conseguiu ser uma ameaça. E isso tem que preocupar o técnico.

Solskjaer é, sem dúvida, alguém que conhece muito bem a cultura do clube e já elevou o patamar do time. Para voltar a ser o Manchester United de Alex Ferguson, que era um dos times que se colocava, por atuações, como um dos favoritos na Champions League, será preciso subir mais alguns degraus. Esse choque de realidade é relativamente esperado em um time que passou tanto tempo nadando na lama em termos de desempenho. Solskjaer precisará estudar alternativas, ofensivas e defensivas, e certamente poderá trabalhar melhor com isso montando o elenco na próxima temporada.

Sabemos que o Manchester United é um time com fartos recursos financeiros para se reformular de acordo com o seu técnico. Solskjaer mostrou bons indícios como técnico. Precisará trabalhar para melhorar mais rápido o Manchester United. Porque o sexto lugar atualmente é compreensível na Premier League, embora a expectativa seja de top-4. Na próxima temporada, o time precisa estar em um nível capaz de competir com times como o Tottenham, o Liverpool e o Manchester City, em termos locais, e contra times como o Barcelona em termos europeus.

Para chegar lá, será preciso contratar, sim, mas também será preciso ter ideias melhores em campo para trabalhar o time. O Ajax mostrou que mais do que orçamento, há uma questão de ideia de jogo que precisa ser bem trabalhado. É absolutamente possível, mesmo sem alterações radicais no elenco. A cobrança será para isso. Diante do Barcelona, o que se viu foram dois times em estágios muito diferentes. O United tem potencial para fazer mais. E precisa começar a fazer isso já nos próximos jogos para ter Champions League para competir na próxima temporada.