Há dois domingos, o São Paulo recebeu o Corinthians no Morumbi. Jogo amarrado, 0 a 0 (era jogo do Corinthians, não dá para esperar nada muito diferente), até que o juiz marca um pênalti para os tricolores no último minuto. Rogério, com um histórico recente horrível nos 11 metros, vai para a cobrança. E perde. De novo.

O São Paulo desperdiçou a oportunidade de acabar com um tabu sem vitórias sobre o rival alvinegro no Morumbi, e ainda correu o risco de voltar à zona de rebaixamento (o que não ocorreu com aquele empate porque Coritiba e Vasco perderam na rodada). Muricy foi cobrado por permitir que o goleiro cobrasse o pênalti. Torcedores e jornalistas criticaram a decisão. Muitos acusaram Rogério Ceni de deixar seu ego à frente.

Em teoria, estão certos. E Rogério já mostrou ter um domínio às vezes exagerado das questões internas do elenco são-paulino, a ponto de ser viável imaginar que ele tenha se mantido como batedor por capricho pessoal. Mas o goleiro deveria, sim, ter batido aquele pênalti. Ele estava batendo mal? Estava. A chance de ele perder era grande? Proporcionalmente, era. Ele acabou perdendo? Sim. Tudo isso é verdade, mas ele deveria ter batido, como bateu.

Pênaltis decisivos são lances de extrema pressão. Tudo pára naquele momento*. O cobrador está exposto. Não há defensores atrapalhando. Não dá para perder a concentração pela possibilidade de o bandeirinha dar impedimento. Não há torcedor que esteja alheio ao lance, tanto dentro do estádio quanto nos milhões de sofás em salas de estar pelo Brasil. É o chutador e o goleiro, só. E todo mundo vendo.

*Coloquei o acento de propósito em “para”, pois a frase ficou dúbia sem ele, ouviu Sr. Acordo Ortográfico?

Rogério Ceni deveria ter batido contra o Corinthians porque ele era o único jogador daquele São Paulo ainda saindo da crise que podia perder aquele pênalti. O gol e a vitória eram importantes, mas só o goleiro poderia assumir o risco de aguentar um empate naquelas circunstâncias.

Cenário semelhante foi vivido na Espanha em 1994. O Deportivo de La Coruña liderava o Campeonato Espanhol com larga vantagem no começo do segundo turno. Mas perdeu vários pontos importantes, alguns deles em pênaltis desperdiçados por Bebeto (o brasileiro cobrava quando Donato não estava disponível).

Na última rodada, o time galego tinha um pênalti no último minuto contra o Valencia. O gol daria o título. Donato havia saído e Bebeto, diante de seu histórico recente, preferiu não bater. Djukic o fez, o goleiro pegou e o Barcelona foi campeão. Até hoje há quem culpe Bebeto. Pelo retrospecto, o atacante não era o nome mais indicado, como Rogério Ceni não era contra o Corinthians. Mas há momentos em que o grande jogador precisa assumir a responsabilidade. Ele pode assumir o risco.

A noite desta quarta mostrou isso de duas formas, ambas oriundas de Pato Branco, Paraná. Em Santiago, o pato-branquense Rogério Ceni teve a (provavelmente) melhor atuação de sua carreira na classificação do São Paulo sobre a Universidad Católica pelas oitavas de final da Copa Sul-Americana. Melhor até que na final do Mundial de 2005 contra o Liverpool.

Não demorou nada para são-paulinos pedirem para ele desistir da aposentadoria, o chamarem de “Mito”, bradarem aos quatro cantos (a saber: Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp) que se trata do maior goleiro da história do sistema solar. Alguém se lembra que ele perdeu um pênalti importante no último minuto de um clássico? Não, Rogério está acima daquela cobrança.

Minutos mais tarde, em Porto Alegre, o também pato-branquense Alexandre Pato foi escolhido como o último batedor do Corinthians na disputa de pênaltis contra o Grêmio. Nada errado. Ele havia assumido esse papel (com sucesso) nas semifinais do Paulistão contra o São Paulo de seu conterrâneo Rogério. Semanas antes, em outro clássico no Morumbi, ele também convertera um pênalti. Era o jogador indicado para fechar a disputa contra os tricolores gaúchos na Copa do Brasil.

Mas Pato quis inventar. Tentou a cavadinha contra Dida. O goleiro pegou com facilidade constrangedora e o futuro do atacante no Corinthians é seriamente colocado em dúvida. Sim, ele é fortemente contestado mesmo sendo a única opção viável de um ataque que tem Guerrero contundido, Emerson e Romarinho em péssima fase, Paulo Victor, Douglas Tanque e Léo sem experiência alguma para segurar a bucha de um time em crise e o Zizao que… é o Zizao. E qual foi o pecado do centroavante anatídeo? Simples, ele ainda não fez o suficiente no Corinthians para se dar ao luxo de cobrar tão mal um pênalti.

O senso comum dos pênaltis manda um jogador deixar de bater se estiver errando muitos em sequência. Esse mesmo senso comum também manda que um jogador cobre com seriedade e capricho um pênalti decisivo. Ignorar esse bom senso é possível, mas só para quem pode assumir a responsabilidade por cometer um erro previsível em momento importante. Rogério Ceni, por pior que seja sua fase “ofensiva”, pode. Alexandre Pato, não.