As lágrimas de Robert Moreno e sua recusa em participar da coletiva de imprensa nesta segunda, após a ótima vitória sobre a Romênia, confirmavam que ele não seria mais o técnico da seleção espanhola. O interino fez um ótimo trabalho durante o ano e cumpriu seu objetivo de classificar a Roja à Euro 2020. Já nesta terça, Luis Enrique teve seu retorno à equipe oficialmente anunciado. O técnico havia deixado o cargo para cuidar da filha, que lutava com um câncer. Em agosto, infelizmente, a menina faleceu. O asturiano retomará sua rotina a partir dos próximos meses, com contrato firmado até a Copa do Mundo de 2022.

O retorno de Luis Enrique parecia um passo natural à Espanha. O treinador recebeu elogios por seus primeiros meses à frente do time, após a Copa de 2018, e só precisou abandonar o trabalho pelas extremas circunstâncias. Seu retorno é totalmente compreensível e reconhece o que havia sido feito até a fatalidade. Ainda assim, a federação espanhola teve seus problemas para conduzir uma transição óbvia. Uma boa notícia, de superação, acabou se transformando em um desnecessário imbróglio. Por enquanto, ele não se pronunciou publicamente.

Durante os últimos meses, Robert Moreno nunca escondeu a consciência de que estava ali por uma eventualidade e não teria problemas em retomar seu cargo como assistente, caso Luis Enrique desejasse voltar. Todavia, o interino também indicava receber o respaldo da federação quanto à sua continuidade até a Euro. Algo que, de repente, se quebrou nas últimas horas. A postura de Moreno em sua última partida à frente da seleção escancarou os ruídos na comunicação interna e na gestão de pessoas.

Presidente da federação espanhola, Luis Rubiales deu uma coletiva nesta terça para anunciar Luis Enrique e explicar a situação de Robert Moreno. Segundo o dirigente, foi o próprio interino quem anunciou aos superiores que Luis Enrique desejava voltar. Então, uma reunião aconteceu com o antigo comandante em 31 de outubro. Concordaram que só conversariam ao final das Eliminatórias da Euro. Já no domingo, Moreno teria perguntado a Rubiales o que aconteceria nos próximos meses. Preferiu entregar o cargo para não se tornar um impeditivo à volta de seu antecessor. A partir disso, Rubiales teria fechado com Luis Enrique nesta segunda.

“Nós fomos os primeiros a ficarmos surpresos. Perguntei então a Luis Enrique se estava disposto a voltar e ele me disse que sim, agradeceu por cumprirmos nossa palavra. A federação é leal com suas pessoas, com Luis Enrique e com Moreno. Só mudou a situação pela exigência de Moreno em saber no domingo o que se passava”, contou Rubiales. Ao que parece, o interino não aprovou a maneira como as conversas foram conduzidas. Ele não seguirá nem mesmo como assistente, seu trabalho anterior antes de assumir o comando principal.

“Luis Enrique é o líder do projeto. Quando apresentamos Robert Moreno, apresentamos o treinador que ia levar a Espanha à Eurocopa, exceto se Luis Enrique quisesse voltar. Logo, não podemos entrar nas questões entre eles. Luis Enrique terá que decidir sobre sua comissão técnica. Ele decide sobre sua equipe, é uma regra sagrada no futebol que não vamos romper. O único claro é que, se Luis Enrique quisesse voltar, voltaria”, complementou Rubiales.

Não é a primeira vez que Rubiales conduz uma saída conturbada de treinador. O mesmo aconteceu com Julen Lopetegui, às vésperas da Copa do Mundo. Nesta terça, havia uma reunião programada com Moreno, que no lugar mandou seus advogados para acertar a rescisão. Rubiales indicou seu descontentamento. O presidente também defendeu José Francisco Molina, atual diretor de seleções. Algumas falas do ex-goleiro tiravam o respaldo de Moreno, mas o cartola disse que não vê falhas na conduta de Molina.

“Estávamos tranquilos com Robert, mas o líder do projeto era Luis Enrique. Tínhamos a obrigação, moral e laboral, e o compromisso de que que voltasse. E, caso não acontecesse, tínhamos confiança em Robert. Nós fomos justíssimos com ele. Moreno soube de tudo, de cada visita a Luis Enrique, de cada ligação. Se ele decide sair no mesmo dia de uma partida internacional e cria uma crise, não concordamos com isso”, explicou Rubiales.

“Temos um dever de dar a Luis Enrique a chance de continuar o que começou. Gostaria que fosse de outra maneira, mas não vejo falhas em nossa postura. Fomos muito honestos. Ninguém pode dizer às costas. Nem sequer havíamos negociado com Luis Enrique. A transparência era contar as reuniões. Se ele diz que prefere sair de maneira imediata, o que vamos fazer? Fomos coerentes. Não vamos mudar nossas prioridades”, finalizou.

Restam muitas lacunas na história. Boa parte delas, a serem completadas pelo próprio Moreno, quando voltar a público e dar sua própria versão dos fatos. Luis Enrique também deve levar mais um tempo para reaparecer. A Espanha só retorna às suas atividades em 2020 e, até lá, um clima de crise prevalece na Roja.