O futebol é um jogo em que o controle do tempo está entre os principais caminhos para se triunfar. No entanto, quando o relógio passa dos 120 minutos e o árbitro apita o fim da prorrogação, o relógio nada importa rumo à disputa de pênaltis. Os segundos se alongam ou se encurtam, dependendo do que se passa na cabeça do goleiro na marca da cal. E cabe a ele, distante de qualquer culpa, pronto a ser o herói, ter o domínio deste jogo mental diante do batedor. Neste domingo, em Nizhny Novgorod, os dois arqueiros se postavam sob as traves com motivações diferentes. Em um jogo tão fraco tecnicamente, seriam eles os protagonistas, invariavelmente. Danijel Subasic, para se redimir, após falhar nos minutos iniciais. Kasper Schmeichel, para se consagrar, após salvar nos minutos finais. Só um triunfou. E em uma história inescapavelmente de vencedores e vencidos, o derrotado ainda sai exaltado.

Subasic é o dono do gol da Croácia há quatro anos. Tornou-se o goleiro confiável que a seleção não teve em certos momentos de sua história. Vinha de uma grande fase no Monaco. Porém, seus últimos meses não foram tão bons assim, e mesmo a Copa do Mundo deixava suas questões. O camisa 23 não sofreu gols nas duas primeiras partidas e fez algumas defesas, mas não brilhou como Lovre Kalinic. Quando ganhou a chance contra a Croácia, o reserva foi excelente. Ainda assim, era o veterano quem tinha os créditos para seguir a caminhada nas oitavas de final.

Schmeichel, por outro lado, vinha sendo um dos melhores goleiros da Copa do Mundo. Se o time limitado da Dinamarca tinha vida tão longa na competição, era por causa do camisa 1. Fez excelentes defesas para segurar a vantagem contra o Peru, foi importante também contra a Austrália e não precisou ser exigido diante da França. Em seu primeiro Mundial, provava-se não apenas como um grande goleiro, mas como o grande goleiro que os compatriotas esperavam ter de volta na meta da seleção.

Em Nizhny Novgorod, os 120 minutos não trouxeram grandes esforços a Subasic e Schmeichel. Entretanto, proporcionaram enormes provações. Nos instantes iniciais, o croata falhou em um chute muito próximo, mas que veio em direção ao seu corpo e sem tanta velocidade. O dinamarquês, sem culpa no tento de empate dos adversários, ficava em pé de igualdade no placar. Na sequência da partida, poucas intervenções, quase sempre seguras, com um ou outro esforço. Até que o maior teste viesse a Schmeichel. Driblado por Ante Rebic, ele poderia assistir ao segundo gol sem qualquer ação. O pênalti de Zanka ofereceu uma segunda chance e ele foi brilhante, sem nem dar rebote. Garantiu a sobrevida à Dinamarca. Porém, também a chance para Subasic se reerguer.

Os pênaltis retiram a pena de vilão aos goleiros – salvo raríssimas exceções. É ele e o cobrador, com a bola, objeto de desejo em comum, entre eles. Tudo se torna uma questão de confiança. E a vontade se compartilhava entre Subasic e Schmeichel, a partir de motivações diferentes. A concentração nos dois paredões não se via nos jogadores de linha. Eram eles a se engrandecer. Somente eles poderiam transformar a história de uma noite esquecível com a bola rolando, mas fatal naqueles 11 metros. O destino na Copa do Mundo se resolveria em quatro mãos.

Subasic e Schmeichel tomaram estratégias parecidas, de escolher o canto, se antecipar àqueles que tinham os nervos à flor da pele. O croata seria feliz duas vezes nos quatro primeiros chutes da Dinamarca. O dinamarquês, também duas vezes nos quatro primeiros chutes da Croácia. E quando Subasic caiu para a esquerda, parando a finalização de Nicolai Jörgensen, Schmeichel fez o mesmo, mas viu a bola de Ivan Rakitic entrar. Só um deles passaria, e o classificado da vez foi o camisa 23. Ambos, ainda assim, heróis. A história, todavia, estava ao lado do feito monstruoso do croata, apenas o segundo em Mundiais a pegar três cobranças em uma disputa por pênaltis.

Kasper Schmeichel pode sair frustrado, mas não tem culpa nenhuma da eliminação da Dinamarca. As esperanças do time dependeram diretamente de suas defesas, ao longo de todo o Mundial. Se chegou à Rússia como um coadjuvante, sai como protagonista da seleção e, mais do que isso, o melhor goleiro da competição até o momento. Vale ao menos uma ponta de orgulho, a gratidão dos dinamarqueses e as boas lembranças.

Subasic, com sua óbvia parcela de competência, admitiu também na saída de campo outro fator decisivo para triunfar: sorte. Sorte esta que lhe virou as costas nos primeiros minutos, mas mudou de ideia ao final e abriu um largo sorriso. Os pênaltis são assim, sem se importar com os caminhos, apenas com os finais. O camisa 23 é o salvador de uma Croácia muito aquém de seu potencial ao longo dos 120 minutos, mas que contou com a autoconfiança e a ambição de um homem capaz de mudar o desfecho. A nova chance a Subasic garante uma chance muito maior aos croatas.