Coube a Luka Modric encerrar a sequência de premiações individuais de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, ao ganhar tanto a eleição da Fifa quanto a Bola de Ouro, ano passado. Acontece que essa sequência nem existiria se a justiça tivesse sido feita, em 2010, quando a Internazionale conquistou a Tríplice Coroa e a seleção holandesa chegou à final da Copa do Mundo. O ponto em comum entre as campanhas? Ambas foram comandadas por Wesley Sneijder, que anunciou a sua aposentadoria, nesta segunda-feira, aos 35 anos.

Sneijder comprou um camarote no estádio do Utrecht, e pretende transformá-lo em uma espécie de museu, com itens importantes da sua carreira, como a réplica do troféu europeu de 2010, prêmios individuais e camisetas. Em entrevista ao site do clube da cidade em que nasceu, deixou escapar, casualmente, que “parou de jogar futebol”, depois de atuar muito pouco nos últimos dois anos, pelo Nice e pelo Al Gharafa, do Catar.

Ele teve uma trajetória familiar. Foi formado pela academia do Ajax. Como uma grande promessa, chegou a disputar as quartas de final da Champions League, contra o Milan, em 2002/03, sua primeira temporada, mas não conquistou muitos títulos pelo clube de Amsterdã, em um período no qual a Eredivisie foi dominada pelo PSV. Levantou o principal caneco nacional em 2003/04 e participou do time que o perdeu para o rival de Eindhoven no saldo de gols em 2006/07, ao fim de um torneio que chegou à última rodada com os três líderes (a dupla e o AZ) empatados em pontos.

Aquele foi o momento em que Sneijder explodiu, também pela capacidade de fazer gols. Além do passe e da excelência na bola parada, anotou 22 tentos por todas as competições e 18 na Eredivisie. Era a hora de tentar o salto. O Ajax aceitou proposta de € 27 milhões do Real Madrid, que havia decidido formar uma colônia holandesa na Espanha. Chegou acompanhado por Arjen Robben, do Chelsea, e Royston Drenthe, do Feyenoord. Ruud van Nistelrooy já estava no clube, campeão espanhol, mas que queria mesmo era uma campanha de destaque na Champions League.

Apesar do título, Fabio Capello havia ido embora. O novo treinador era Bernd Schuster, e o Real Madrid conseguiu aproveitar o momento de transição do Barcelona para renovar o seu título, com Sneijder atuando em 30 rodadas, marcando nove gols e seis assistências. No entanto, um homem chamado Pep Guardiola retornou à Catalunha, no verão de 2008, e colocou os blaugranas a milhas de distância do Real, o que, combinado com duas novas quedas nas oitavas de final da Champions, motivou uma mudança de rota.

Sneijder não havia jogado bem, também atrapalhado por uma lesão. Atuou em apenas metade do Campeonato Espanhol. Com o retorno de Florentino Pérez à presidência do Real Madrid, foi um dos muitos jogadores negociados para bancar as chegadas de Cristiano Ronaldo, Kaká, Benzema e Xabi Alonso, os novos rostos da tentativa de reconquistar a Europa, que ainda demoraria alguns anos. Por módicos € 15 milhões, o meia holandês foi para a Internazionale.

A Inter dominava o futebol italiano, com a derrocada da Juventus. José Mourinho comandava o projeto que estava abrindo os cofres para tentar um assalto também à Europa. Naquele mercado, chegaram Thiago Motta, Samuel Eto’o, Diego Milito, Lúcio e Goran Pandev, todos pilares da equipe que se tornaria campeã europeia, orquestrada por Sneijder.

Os números não foram tão impressionantes quanto as atuações do holandês, especialmente no mata-mata da Champions. Deu a assistência para o gol de Eto’o contra o Chelsea, na vitória em Stamford Bridge, outra para Milito, no 1 a 0 contra o CSKA Moscou em San Siro. Na volta, ele mesmo colocou a bola na rede, de falta. Empatou a partida contra o Barcelona, com um preciso chute colocado e ajeitou de cabeça para Milito, no 3 a 1 contra os catalães de Guardiola, o grande jogo da Inter naquela campanha. No Santiago Bernabéu, descolocou o passe açucarado que abriu o placar da final contra o Bayern de Munique.

Os títulos da Copa Itália e do Campeonato Italiano completaram a histórica Tríplice Coroa, mas a temporada de Sneijder ainda não havia terminado. Havia uma viagem à África do Sul no horizonte. Sneijder foi um dos quatro jogadores que anotou cinco gols na Copa do Mundo, quase todos decisivos e no mata-mata: um na Eslováquia, nas oitavas de final, dois contra o Brasil e mais um diante do Uruguai, na semi. Não conseguiu o título, derrotado pela Espanha, na prorrogação, mas havia sido destaque em todos os torneios que disputou.

Foi o primeiro ano da união entre a Bola de Ouro e a Fifa. O colégio eleitoral, agora formado por jornalistas, capitães e técnicos, colocou Iniesta e Xavi na segunda e na terceira posição, respectivamente, impulsionados pelo título mundial da Espanha. E Sneijder em quarto. O troféu ficou com Lionel Messi, que havia feito outra ótima temporada, mas nada excepcional para os seus padrões e sem conquistas coletivas, além do Campeonato Espanhol. E o mais absurdo é que o holandês não apareceu sequer entre os três primeiros. Foi a maior injustiça dessa história recente do principal prêmio individual do futebol europeu, ao lado de Franck Ribéry, em 2013.

Surgiram especulações de uma transferência para a Inglaterra, mas Sneijder ficou. O problema é que a saída de Mourinho deixou a Internazionale sem rumo e, também prejudicado por lesões, ele não conseguiu mais brilhar da mesma maneira. A ruptura aconteceu em 2012, quando a Inter tentou forçá-lo a renovar contrato por um salário reduzido. O holandês não aceitou e foi afastado do time enquanto as negociações eram travadas. Em janeiro, a novela chegou ao fim, com a transferência para o Galatasaray.

Foi uma mudança estranha. Sneijder estava em baixa, mas ainda tinha 28 anos e custou aproximadamente € 8 milhões. Em que pese o salário alto, era uma aposta razoável para clubes de grandes centros que buscavam um pouco de inspiração. Tirava-o dos holofotes e da possibilidade de um novo título europeu. Por outro lado, em uma liga com menos exigências, conseguiu recuperar o bom futebol, ganhou mais alguns títulos e, principalmente, a adoração de uma torcida tão apaixonada quanto a do Galatasaray.

A última participação de Sneijder nos grandes palcos foi como titular na Copa do Mundo de 2014. Não foi mal, mas também não brilhou como quatro anos antes. A derrota na semifinal foi a última chance de glória pela seleção. Ao lado de Arjen Robben e Robin Van Persie, fez a Holanda sonhar e, por pouco, não transformou os anseios em realidade. Simbolicamente, os três colocaram um ponto final em suas histórias quase ao mesmo tempo.

As transferências para Nice e Al Gharafa já haviam sido as últimas tentativas de estender a carreira e o seu pé de meia. A aposentadoria era inevitável. Foi apenas confirmada nesta segunda-feira, encerrando uma carreira que poderia ter sido maior. Sneijder foi um jogador imensamente talentoso, que teve um curto período de auge. Mas, quando o teve, deveria ter sido mais reconhecido. A história chega ao fim simbolicamente junto às de Arjen Robben e Robin Van Persie, um trio que fez a Holanda sonhar.